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Domingo, 07 de Fevereiro de 2010

 

 


Pedro Jubilot

Miosótis

inPostais e-lustrados’, :)canalsonora(: 2010

 

 

desculpa-me, se parti e me quis esquecer do teu nome, mesmo se jamais esquecerei a tua cara -rindo e chorando nesses dias, antes de eles virem e te levarem para a guerra e assim te transformarem em mais um soldado normal feito carne para canhão, nestes tempos de guerra accionada por botão. quem está certo ou errado nesta pátria de ninguém? , nesta terra onde quem anda pelos campos só sente o cheiro de corpos que jazem em vez de narcisos e margaridas. se aqui não sobrou lugar para o que é justo, então eu não sou desertora, porque não tomo um partido neste horror fratricida.

sabias que ao te juntares a uma bandeira não irias conseguir voltar e ver-me do mesmo modo. se estás dividido não estás em condição de ser livre. como podes ter partido…assim, e pedir-me para não te esquecer e te amar para sempre. quiseste ganhar a imortalidade através da minha memória e…mas…tu nunca me mandaste uma carta de dubrovnik, sarajevo ou mostar, do céu ou do inferno ou de onde possas agora estar.

e tudo o que tenho é este vaso que deixaste no parapeito da janela com uma planta de lento crescimento e pequenas flores de um azul pálido. e que agora já sei o que ela significa - é a flor da saudade, chama-se miósotis (não-me-esqueças)

 

Adeus ,

Veronika

 

Belgrado, 1992

 

 

:)canalsonora(: às 22:43

Domingo, 31 de Janeiro de 2010

 

 

 

 

 

Teresa Rita Lopes

 

Dois Barcos

 in  O Sul dos Meus Sonhos’, GenteSingularEditora.2009

 

 

 

 

 

Gosto de os ver avançar no rio

                                                       um ao encontro

do outro.

                 Quando daqui parece que se vão chocar

explodir

                ou cair nos braços um do outro

ei-los que mal se roçam se saúdam  

                                                               e passam

cada um para seu lado

                                         impenetráveis

inatingíveis

                     seguros do seu caminho.

 

 

:)canalsonora(: às 20:35

Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

 

 

 

Pedro Jubilot

 

Morrisey lembrando Marr

in Musica Desviada’,  :)canalsonora(: , 2009

 
 
 
 

Ele não seria verdadeiro, nem estaria a dizer a verdade se dissesse que nunca o amou ou que o odeia ou esqueceu.

Mas mesmo agora quando olha para os velhos recortes de imprensa nas folhas do álbum desses memoráveis tempos de juventude, glória e euforia, quer vê-lo simplesmente como outro alguém de quem se lembra como se já tivesse morrido. Foi isso que amou e foi isso que valeu a pena apesar de tudo o que vem depois do desejo da eternidade. Como toda a gente que um dia ouviu The Smiths, tem saudades das canções deles. Mas foi assim e isso basta-lhe, pensa.

E isso já foi há tanto tempo, que se passar por ele agora nem o deverá reconhecer. Ou não quer!?

Inevitavelmente, sabe que ele existe por aí mas já não o quer ver, já não quer saber. Apesar de ouvir que continua livre e disperso.

Apesar de querer afirmar que o tempo serve a libertação do querer, faz questão em mandar-lhe recados de rancor e nostalgia, de pena e eterna despedida, em mostrar-se com uma criança nos braços, para que saiba que encontrou descendência, para não subsistir mais a dúvida de que aquela será a única dupla de compositores da única banda que nunca se reagrupará.

 
:)canalsonora(: às 22:11

Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

 

 

Vitor Cardeira

 

Farejando Notícia

 in  Transeuntes’ ,  http://quintacativa.blogs.sapo.pt/

 

 

 

Mexeu-se outra vez e as costas estalaram. A polícia já não é incompetente como dantes.

Lembrava-se de tudo como se presenciasse a cena: à direita um actor de cinema com os olhos em bico do leite de coco com aguardente de cana. O crepitar da fogueira enchia a sala de recordações tristes. Embevecida no fogo estava ela. Porque fora ele meter-se naquele covil de lobos sem unhas?

Bebeu mais um copo. A cabeça recusava-se a pensar nas responsabilidades do dia-a-dia. Bebeu outro, de um trago só. Maldita cocaína, ouviu a consciência com voz grave de pai dos anos trinta.

     - Por favor, eu tenho um sapato calçado nos pés dela, rugiu à multidão apinhada no bar-semi-escuro.

     - Não ouvem, pensou sorridente.

Lendo uma revista pornográfica, desta vez à esquerda, estava um cavalheiro distinto mas sem gravata. Ela sorria avermelhadamente com a calma de quem jogava. Roleta russa.

Sentia desejos de ir com aquela mulher para a cama. Sim. Ela até era bonita e olhava para ele com uma expressão de talvez...

Mas que confusão lhe atravessava o espírito/ficção banal. Ela era uma visão sem compromissos e até sorria.

Agora era o malvado joelho que teimava em não funcionar. Nem a perna conseguia cruzar. Que pontapé, essa gente devia era ser jogadora de futebol.

Na poltrona do meio dormitava um velho jornalista corroído por notícias de todo o mundo. Tinha sido, até, correspondente na Polinésia.

Que homem viajado, pensou.

Ela chegara-se mais ao fogo como se precisasse de mais calor. Era a sua, dele, hora. Pé ante pé, chegou-se à lareira e, com a tenaz, retirou uma brasa do braseiro. Acendeu o cigarro à americana. Soprou o fumo, primeiro pelas narinas e depois através dos dentes.

      - Magnífica casa, meteu-se, nestas ocasiões transbordo de amor.

Sentiu-se alarmado com as palavras que deixara escapar. O jornalista farejou notícia. O cavalheiro distinto sem gravata ousou mesmo esboçar uma retirada discreta, sem o conseguir. Pela porta dos fundos apareceu quem se esperava: o polícia secreto do governo sombra.

Sem conseguir reagir ao desencadear dos acontecimentos, e com dores acentuadas nas costelas, deixou-se prender por ele e... por ela.

 O actor de cinema, com os olhos em bico, saiu de cena pela porta baixa sorrindo ligeiramente.

 

:)canalsonora(: às 23:08

Sábado, 02 de Janeiro de 2010

                                        

Pedro Jubilot

 

O homem que gostava de postais

in 'postais e-lustrados' , :)canalsonora(:  2010                   

                                         

 

O mesmo acontece a todos os homens um dia. Ficam mais cedo ou mais tarde bloqueados em algo. Ficam involuntariamente de forma mais ou menos voluntária barricados dentro das suas próprias vidas e como é óbvio ficam também atafulhadas as caixas de correio.

O homem que gostava de receber postais acabou por ficar um dia também ele bloqueado numa casa – carro – escritório - cidade.

O homem que gostava de receber postais fazia outrora correr livremente as suas longas pernas por ruas que perto da sua casa tinham por sua vez bloqueado na sua toponímia (Serpa Pinto, Roberto Ivens, Sacadura Cabral), homens duma história que antes houve para contar, indo desembocar à comprida rua dedicada à restauração da vila, sendo que no canto esquerdo do passeio precisamente se encontrariam os marcos de correio, terminando esta por fim na grandiosa avenida da república implantada no séc. 20.

Já no século 21 o homem faz conduzir o seu meio de transporte pela cosmopolita av. da republica, da capital, dificilmente reconhecendo que loja ou banco substituiu cada um dos cafés onde tertuliava com o homem que era amigo do homem que para além de gostar de receber postais também gostava de comprar e enviar postais, também gostava ele próprio de receber e enviar postais e aprenderam juntos a procurar lugares onde se podiam comprar postais. Fosse na livraria barata da av. de roma, na dargil perto da rua joão crisóstomo…

O homem que gostava de receber postais recebeu hoje na sua caixa um desses postais …. manuscrito, que terminava com um abraço do seu amigo Pedro, a desejar-lhe um bom ano.

 


 

:)canalsonora(: às 16:09

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

                     

 

Pedro Jubilot                                       

 

O Último Banho

in 'Contos de Natal' , :)canalsonora(: . 2009

                                                    

                                                     

                                            

                                        

 

Apesar de já estarem de férias as crianças estão estranhamente calmas e quietas. Não se afastam muito, querem estar por perto, expectantes pela boa nova - um menino está para nascer lá em casa.

Vá lá meninos, já tomaram o pequeno-almoço, estão de férias, vão apanhar ar puro, vão andar de bicicleta.

Ou vão ali até ao pinhal lá ao fundo dar uma volta, visitar a ecoteca, brincar, e tragam-nos um presente giro, dedicado a este dia.

O que se quer ouvir não tem comentários, nem contestação. Encorajados pelas sugestões de ambos os progenitores, os irmãos calçam as botas e saem para uma aventura na floresta, como lhe chamam. E lá seguem o seu caminho, descontraídos, passeando sem saber porquê ou para quê. Percebem que irão descobrir a resposta à medida que avançarem e que o desafio é levar de volta algo que comprove a sua caminhada deste dia.

Atiram pedras às árvores. De perto e depois mais de longe. Gritam alto tentando recolher um eco sempre difícil de obter. Arrastam os pés no musgo, na terra, levantam pó. Correm de braços abertos. Cansam-se. Sentam-se encostados à mesma árvore mas sem se verem. Tentam adivinhar os pensamentos um do outro, nesse jogo em que sempre não conseguem chegar a uma conclusão sobre a veracidade das características que as pessoas apontam à sua específica natalidade. De novo se levantam para andar à roda sobre si mesmos de olhos fechados até caírem tontos.

Recuperados e com fome decidem abrir as mochilas retirando as sandes -as melhores sandes do mundo, que o pai Zé lhes prepara para os seus piqueniques. Com cavalinha sem pele e sem espinha, cebola, pickles e um cheirinho de maionese. Ou de requeijão com finas rodelas de tomate, um pouco de rúcula e um fio de azeite. Um manjar para pequenos deuses. Ficam depois deitados olhando para o céu através dos ramos dos pinheiros que filtram os raios de sol ou observando as nuvens a passar imaginando que figuras lhes pretendem mostrar. Ganha o que conseguir ver um anjo. Tudo acaba em gargalhadas com cócegas à mistura.

Levantam-se finalmente concordando que há uma tarefa a fazer e já não têm muito tempo que por estes dias anoitece cedo. Andam muito às voltas por ali na sua demanda até que se julgam meio perdidos vendo o sol já a pôr-se. Não estão habituados a andar assim tão livres na natureza. As escolas têm poucas árvores, as cidades não têm parques, os centros comerciais não têm jardins. Sentem que arrefeceu muito ao lusco-fusco. Não sabem porque não se encontra a bússola no bolso da mochila. Mas lembram-se que podem procurar a estrela que lhes indique o caminho de regresso. Têm frio e vão olhando para o céu. Depois começam a confiar que o trajecto indicado por Vénus, a dita estrela da tarde é mesmo o certo. Finalmente quando deixam para trás a última árvore surgem logo os néones da cidade lá mais à frente e os prédios com as suas luzes enfeitando as varandas, factos que indicam o mundo a que se chamou civilizado, talvez porque aí vivem os chamados civis, deve ser por isso. E andam atarefados levando as mãos cheias de sacos neste início de noite. Hoje, a maior parte deles parece especialmente feliz como se algo de diferente estivesse para acontecer.

Cansados, mas com uma etérea felicidade estampada nos rostos chegam a casa cuja porta se abre sem terem de tocar. Depositam ali mesmo no hall de entrada, o pequeno pinheiro, as pinhas resinosas e o azevinho que carregavam nos braços, mas com o cuidado necessário para não sujarem os sacos azul claro e castanho ali já prontos para quando muito em breve o momento chegar. O pai diz-lhes que têm uma banheira cheia de água quente à sua espera. Percebem que a missão não mencionada foi cumprida. Passam antes pela cozinha para deixar um ramalhete de lírios que a mãe agradece sorridente apesar de não se poder afastar do fogão, de onde lhes dirige o olhar mais terno e confiante sorriso que uma criatura pode almejar. Por força das circunstâncias será a última vez que os gémeos, de nove anos feitos há bem pouco, tomarão banho juntos. A espuma do creme vai diluir-se na água que arrefece na banheira. Deste lugar no tempo não vivido historicamente a que chamamos infância, estes anjos em breve serão despojados das suas armaduras e passarão a estar expostos nas suas alegrias e amarguras.

Jantam a ementa que levou todo o dia a confeccionar. Peixe seco guisado com batatas; peru assado no forno com castanhas; leite-creme com puré de maçã; banana frita panada; pasteis fritos com recheio de batata doce.

O pai coloca um disco de vinil no prato do gira-discos. Poisa-lhe a agulha nas estrias exteriores. Recosta-se feliz a escutar Chet Baker enquanto os miúdos decoram o pinheiro, orgulhosos do seu achado. Penduram-lhe enfeites coloridos. De seguida fazem uma coroa de azevinho que atam com um laço encarnado, colocando-o sobre a porta da sala. A brincadeira resulta em cheio. Quando a mãe se assoma à porta para dizer que vai para o quarto descansar, o pai levanta-se, dirige-se para ela e dá-lhe um beijo na boca. Como numa tradição estrangeira que aprenderam num filme. E eles querem também a sua parte de mimo antes de ir para a cama.

 No dia seguinte Sílvia, David e José preparam fatias douradas para a mesa do pequeno-almoço quando ouvem os passos arrastados de Maria.

Bom dia mãe! Estávamos à tua espera. Vem ver as prendas.

Bom dia! responde estremunhada. Que dia é hoje ?

Hoje é dia de….

Esperem lá…acho que me rebentaram as águas.

 

 

 

 

:)canalsonora(: às 23:29

Sábado, 25 de Abril de 2009

 

 

 Pedro Jubilot

'Hotel Abril'

in 'Contos na Ria Formosa' , :)canalsonora(: . 2009


 

 

O Portugal de 1973 era um país já demasiado triste e cansado, à espera que algo acontecesse.

Nos estádios de futebol, o pantera negra, que já dera o seu melhor, continuava exilado num país de que há muito o obrigaram a ser. Não podia sair da Luz, mas já começava a entrar no túnel da inevitável decadência.

A cantora, de tanto lhe doer a voz e a alma, incluía já no seu repertório canções de vários géneros e línguas, que se afastavam da essência do seu fado, indirectamente afastando-se da forçada colagem ao destino do seu país. No entanto, essa perda de identidade criativa, é que a mantinha ainda livre. 

Na televisão, ainda a preto e branco, a nossa senhora de Fátima continuava a proteger semestralmente a nação de todos os males com a benção de um estado que continuava a chamar-se novo, ao fim de 48 anos.

E… uma juventude, que tinha de tornar-se adulta por força das circunstâncias da guerra ultramarina, da falta de estudos e de vida cultural, e de ter de arranjar um trabalho, pois que nesses anos os pais não ganhavam o suficiente para se poderem manter os filhos no sonho da ‘adolescência’ por muito tempo.

‘Trrrriiiiin…..trrrriiiiin….’ tocavam assim os telefones num som grave, orgânico, terrestre, subterrâneo  e utilizavam-se para se dizerem coisas realmente importantes. Boas ou más. Por isso Augusto sentia um arrepio de cada vez que o ouvia. Tremia só de pensar, que lhe iam comunicar o dia e a hora de embarque para as colónias. Descansou ao ouvir a voz do seu amigo Jorge. Esta chamada era das boas. O que de melhor se podia arranjar por aqueles dias.

Assim, um conjunto recentemente formado por quatro músicos de Lisboa, vai fazer a passagem de ano a um hotel do Algarve. O reveillon correu tão bem que depois são contratados para banda residente da época baixa, isto é, até ao dia 31 de Maio. Nada mau naqueles difíceis tempos.

Embora os primeiros dias de Janeiro tenham sido chuvosos, e depois um pouco frios, fustigados pelo vento norte – logo o céu se limpou dando lugar a belos e azuis dias. Dias de Algarve.

O alto hotel sobre a praia permitia-lhes admirar os navios que cruzavam o oceano atlântico em direcção ao estreito de Gibraltar para entrarem no mar mediterrâneo.

Nos tempos livres limitam-se a fazer longos passeios pela praia, jogam às cartas ou tentam conhecer turistas estrangeiras que lhes proporcionem novas experiências. E profissionalmente até têm um local de ensaio com bom material de som disponível.

Tudo parece correr às mil maravilhas, quando no fim do mês de Março são informados pelo gerente que ocorrera um problema nos bancos e não lhes podia pagar já. Mas não tinham nada a temer que o patrão era homem de palavra, para mais muito rico e muito importante. Tinham de ter paciência e esperar alguns dias. Estas coisas às vezes acontecem no mundo dos negócios. E não lhes faltaria nada como até ali.

 Durante Abril, mesmo sem receber há quase um mês, teimam em honrar a sua palavra, num hotel que não se percebia estar à beira da falência.

Os standards de hotel, canções-êxito ao género romântico de Sinatra ou Nat king Cole , que o contrato indicava que repetissem noite após noite, revelava o pouco conhecimento do gerente perante a mudança de gostos musicais dos seus clientes estrangeiros, e mesmo dos portugueses. Estes pediam aos músicos para tocar Beatles, Stones, Shadows, e mesmo Creedence Clearwater Revival. Os músicos acediam. Como já pouco tinham a perder não viam porque não ignorar esse ponto do acordo e era isso que ainda os conseguia animar a cada dia que passava.

Tanto que uma noite o sr. Ramos lhes perguntou que raio de música era aquela que agora lhes tinha dado para tocar.

‘Nada de jeito, coisas que os clientes nos pedem, já se sabe como são os ingleses, têm gostos estranhos’, desculparam-se airosamente perante a falta de informação do homem, que de dia para dia se mostrava mais preocupado com a situação do hotel. E se os clientes queriam- isso era bom para o negócio.

Numa dessas noites, que estivera pouco animada, recolheram-se cedo mas desanimados com a situação, terminada que estava a sua primeira e única série de temas da noite, pois todos os poucos clientes já se haviam retirado. Ainda ficaram por ali a conversar, no quarto que os albergava a todos. Como músicos, gostavam de ouvir rádio. A meio da conversa, ouve-se a canção portuguesa concorrente ao Festival Eurovisão da Canção desse ano.

‘O Paulo tem uma grande voz, não acham?!’

‘É! Mas gostava mais de o ouvir nos Sheiks. Ainda cheguei a ensaiar com eles uns dias.’

‘Eu acho que não! Aquilo era uma imitação da música inglesa, ao jeito dos Beatles. Temos que defender a nossa música, a nossa língua.’

‘Pois, e a nossa pátria, as nossas colónias, o império…’, escarneceu o nervoso Augusto levantado o tom de voz.

‘Ei, amigos, calma, não estamos aqui para isso, mas para esquecer isso.’

‘Como é que eu me posso alhear disso Jorge, mais cedo ou mais tarde, vêm buscar-me e vou lá bater’, continuou Augusto.

‘Vamos com calma pessoal, temos de manter este contrato até ao fim. Deixem-se disso, amanhã é outro dia.’

‘Talvez… o primeiro dia do resto da minha vida…estou aqui tão perto de Espanha, tenho um contacto para arranjar alguém que me passe. Desculpa-me só te dizer isto agora, mas foi mais por causa disso que eu vim para cá, e por que somos amigos há tantos anos, mas Rui, por favor vê lá se consegues falar amanhã com o Ramos, e arrancar-lhe algum deste dinheiro.’

‘Calem-se lá por favor, deixem ouvir isto. Isto não é possível, o Zeca Afonso na Rádio Renascença ?.’ pediu o Mário. ‘Passa-se algo estranho, isso é o «Grândola», isso está censurado.’

‘Então rapazes, eu sou o vosso agente, arranjei-vos este emprego, dou-vos comida, cama lavada e whisky todos os dias, e mesmo assim não se acalmam? Vamos mudar de assunto.’

Nisto batem à porta do quarto.

‘Porra! Não vos disse para se calarem…Quem é ? perguntou Rui.

Abriram a porta ao recepcionista que trazia um recado para o Sr. Augusto Lacerda.  ‘É o seu irmão, que quer dar-lhe uma palavrinha’.

Quando Augusto volta do telefonema, deita-se na cama, calado mas sereno e parece mais feliz do que quando saíra porta fora.

‘Está tudo bem ?’ Querem saber, como se fossem um coro e não instrumentistas.

‘Está tudo bem!  Mas não desliguem a telefonia…desculpa Rui, ter reagido assim, mas tenho andado muito tenso…eu não queria ir para a tropa, mas oxalá as coisas mudem esta noite…’

‘Quem é que te ligou ? O que é que se está a passar, Augusto ?

‘…bem, é que faço hoje dezanove anos e o meu irmão mais velho, que estava de serviço no quartel, fez questão de ser o primeiro a dar os parabéns ao benjamim da família.’

Aí os músicos entoaram a sua versão da canção mais ouvida em todo o mundo.

Só a voz colocada de Joaquim Furtado ao microfone do Rádio Clube Português, conseguiu silenciar este ‘parabéns’ a você:

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas, que desencadearam esta madrugada uma série de acções com vista à libertação do país do regime que há longo tempo o domina   

Passam a noite a beber whisky de ouvidos colados à telefonia até de manhã. Depois descem à recepção para o pequeno-almoço e aí, a caixinha que mudou o mundo passa a sê-lo realmente. A monótona e desinteressante RTP, terá tido nesse dia a maior audiência de sempre em Portugal, superando de longe a daquela noite em que Armstrong pisou a lua. Lisboa, é então o centro do mundo, por uma vez, nesse dia. Um grupo de militares portugueses tomou o poder, sem derramar sangue. E isso é mesmo História. Mas os músicos não podem, não devem, e concluem que essa não é a melhor hora de regressar a Lisboa. Estão eufóricos e querem celebrar.

 Inspirados pelos acontecimentos tomam contam do palco da sala de baile do hotel e começam a tocar ainda a meio da tarde, fora da habitual hora de trabalho, tocando o que bem lhes apetece mas sobretudo tocam muita música portuguesa pela primeira vez. E assim vão tocando pela tarde fora, quando a revolução se começa a confirmar.

Os hóspedes, que começam a regressar ao hotel e aos seus quartos são surpreendidos pelo ambiente festivo e vão ficando por ali a ouvi-los em silêncio.

Ao início da noite ao mesmo tempo que Marcelo Caetano é levado do quartel do Largo do Carmo, o gerente indignado com o rumo dos acontecimentos, informa que vai abandonar o hotel. Vai dizendo que o país vai entrar numa anarquia, diz aos empregados que agora os revoltosos comunistas vão tomar conta dos bancos e não lhes pode pagar, nem aos músicos, pois que o dono daquele e de outros hotéis, já se foi embora para o Brasil.

Ninguém se parece importar muito com o miserável discurso do execrável Ramos. Mas já que era assim o bar, a garrafeira, e a cozinha passam a estar abertos a todos. São agora posse de todos. Dos hóspedes, dos trabalhadores e também dos seus convidados. As bebidas alcoólicas disponíveis no bar atenuam a já por si só inebriante felicidade natural.

O hotel é ocupado pelo povo em festa. São três dias e três noites, não de um carnaval atrasado de dois meses, mas já de muitos anos.

Os hóspedes maioritariamente estrangeiros não percebem nada do que se está a passar naquele momento, ali naquela bonita e soalheira região de clima temperado, numa brilhante primavera, nem muito menos naquele pacato país de brandos costumes. Ao princípio ficam um pouco apavorados e perguntam: ‘what the hell is going on here?  A revolution? …What kind of revolution?  Cada um tenta uma explicação no melhor inglês possível. ‘Freedom’, ‘Power to the people’. ‘Death to the fascists!’ Como se de um exercício de brainstorming se tratasse.

Os estrangeiros acham tanta piada ao exotismo da situação, que decidem juntar-se à festa e à banda lisboeta, que apenas era a ‘banda do hotel’ passam a chamá-la ‘The Red Carnations’ , porque como toda a gente trazem  cravos vermelhos ao peito.

Os músicos ficam nessa festa popular até 29 de Abril. Depois despedem-se de todos para regressar a Lisboa para junto dos seus familiares e amigos, anunciada que está a maior concentração de sempre do povo português que teria lugar nesse 1 de Maio de 1974, e que a partir daí seria dia feriado em Portugal, celebrando-se o dia do trabalhador, nesse tempo em que o povo unido jamais seria vencido.

Augusto regressa à casa dos pais e recomeça as aulas de piano e composição. Tem de novo gosto e vontade em tocar e aprender.

A ex-banda de hotel mantém-se unida e depois de algumas semanas de ensaios começam então a tocar no Hot Clube de Portugal, interpretando nas suas versões de jazz instrumental os temas dos novos cantautores da então música popular portuguesa. O sucesso sorriu-lhes. ‘Os cravos vermelhos’ foram nesse ano a ‘banda residente’ desse e de muitos outros palcos portugueses.

Em 1980, Portugal era um país ainda alegre, onde tudo poderia ainda acontecer.

Augusto tornou-se o compositor principal e líder do quarteto que evoluiu tanto que começou a ser falado também fora de Portugal. Podia agora passar a fronteira do país, também fisicamente, e não seria para África . Nunca esqueceu o que às escondidas ouvira numa conversa lá em casa, numa distante noite de inverno. Tornara-se realidade a frase profetizada por um amigo dos seus pais: ‘Quando o teu puto tiver idade para ir para a tropa já a guerra acabou, vais ver, acredita no que te digo Lacerda’ , palavras essas que durante anos o encheram de esperança e força para continuar a acreditar que um dia seria livre.

O  A. Lacerda Quartet  começou a tocar por toda a Europa como representante do novo país e da sua música.

Mas por exigência da profissão que abarcara Augusto passava cada vez mais temporadas lá fora, tendo vivido em Madrid, Paris e Berlim, dedicando-se posteriormente a uma bem sucedida carreira a solo. Durante muito tempo apenas visitava Portugal a espaços para fazer férias e rever a família e os amigos.

Mas depois de muitos anos de discos, gravações e longas digressões, sentiu de repente uma vontade de regressar à sua terra. Conseguiu assim chegar mesmo a tempo de adquirir a casa dos seus pais, onde crescera.

Mas o Portugal que Augusto encontra em 2004, é um país já a ficar deprimido, onde pouco poderá ainda acontecer, a não ser tudo o que a globalização e a comunidade europeia deixarem para nos entreter.

Quando no dia em que Augusto teve outra vez tempo para se sentar em casa a ler o jornal e ligou a televisão era o dia do jogo da final do campeonato, que celebrava aquele que consideravam ser o maior evento desportivo jamais realizado no país.

No estádio de futebol, o menino de ouro, que ainda daria o seu melhor, regressaria de novo à ilha, não do país que o viu nascer, mas onde nasceu o desporto do qual diziam ser ele o melhor. Não podia sair de Old Trafford, mas já começava a entrar na estrada da inevitável e exagerada exposição pública da sua vida privada. E nessa tarde de Junho, mesmo estando dentro do relvado, foi apenas mais um entre os milhares de portugueses vestidos de camisola grená e calções verdes, que não conseguiu festejar golos, apesar de tantas bandeiras penduradas nas janelas.

Na televisão plasma por cabo, o nosso senhor primeiro-ministro anunciaria a sua partida para Bruxelas como se de um dever patriótico se tratasse, lançando o país numa crise política e social que estará para durar. Através dessa caixa que o mundo transformou num painel estreito, os políticos vindouros continuarão a mentir semanalmente ao povo de uma nação cheia de males de desemprego, fome e corrupção apesar de todos nós quereremos ainda acreditar num estado que continua a dizer-se de direito democrático, mesmo depois do que fomos assistindo ao longo destes 30 anos.  

A cantora de ascendência crioula que foi promovida ao estrelato meteoricamente, deseja ir instalar-se em Nova Iorque para indirectamente se ir afastando do forçado rótulo de nova diva da canção de Lisboa, e do destino do seu país. Enfim, da essência do nosso fado. No entanto, essa abertura de identidade criativa, é que a poderá manter ainda famosa e independente por mais algum tempo.

E…. uma juventude, que tem  de demorar-se a ficar adulta por força das circunstâncias da crise, por o curso não ter saída, e tem de arranjar trabalhos precários e temporários, pois enquanto não conseguem nada melhor os pais lá fazem por manter os filhos no sonho da ‘adolescência’ por mais algum tempo.

Tchalalalalauuuu….’ tocam assim os telefones num som agudo, digital, sem fios, demasiado estridentes e utilizam-se para se dizerem coisas realmente normais. Boas ou más. Por isso Augusto sente um arrepio de cada vez que os ouve. Treme só de pensar, que lhe vão perguntar onde está e o que está a fazer. Esta chamada era das más. O que de pior se podia esperar ouvir por aqueles dias. A voz dizia que já tinha descansado o seu amigo Jorge.

Ficou imóvel junto à janela da sala da velha casa onde nascera, agora restaurada e com vidros duplos, o que lhe permitia compor sem a interferência dos ruídos que vinham da rua. Dali podia ver o jardim e relembrar quando nos fins de tarde ou noite ali se sentava nos bancos com o amigo a falar das coisas da vida.

Passaram mais de trinta e cinco anos em apenas alguns minutos. Dirigiu-se então para o piano terminando a peça começada ainda em Londres, no dia em que se decidiu pelo regresso a Lisboa e que às primeiras notas tomara naturalmente o título de ‘a sort of homecoming’.  Tinha estado a trabalhar esta composição nestas últimas semanas, dedicando-a ao amigo Jorge, desde que soubera da sua doença. Chamava-se agora ‘uma espécie de regresso a casa’ e ia estreá-la no concerto que daria no Centro Cultural de Belém, para o lançamento do disco de retrospectiva dos seus 30 anos de carreira.

 


:)canalsonora(: às 11:46

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

 

 

 

 pedro jubilot

 

' E mesmo assim o natal voltou a acontecer '

 in 'Contos de Natal' :)canalsonora(: . 2008

 

 

 

          Terminados os dias de maior calor do ano, aqueles em que é recolhida à superfície da salina uma finíssima película de cristais de sal, chega o sempre difícil mês de Setembro. Os dias começam a ficar mais pequenos, as noites mais frescas e temos de nos acostumar de novo a ficar em casa, porque já se regressou ao trabalho e há que refazer horários de sono. É preciso preparar o regresso das crianças à vida escolar.

Todos os anos esta mudança causava a Álvaro uma pequena ansiedade, que este ano se agravara devido aos problemas surgidos no trabalho e porque o seu filho mais velho, com apenas seis anos, andava nervoso com a mudança de professor. Como lhe explicara a sua irmã, professora de Matemática, o João seria mais uma vítima do injusto e perverso novo estatuto da carreira docente e consequente burocrático e inaplicável modelo de avaliação imposto às escolas pelo ministério de educação. Tinha horário a tempo inteiro, refeições, actividades extracurriculares, um computador, mas perderia a sua professora do primeiro ano.         

E mesmo assim sem a professora do ano anterior, o ano lectivo voltou a acontecer mais uma vez.

No caminho de regresso a casa, como fazia todos os dias, conduziu vagarosamente o seu antigo carro de estimação pela estrada cujas bermas se abrem de ambos os lados para as salinas que dão a flor mais branca, húmida e cristalina do país e quem sabe, como alguns dizem, de todo o mundo. Chegado ao fim da estrada, estacionou perto do cais, saiu para contemplar a paisagem, sentir o vento, e observar o curso das quatro correntes que ali naquele lugar se encontram. Respirava o ar puro tão profundamente como outrora o fazia quando inspirava o fumo do cigarro. Costumava sentir os pulmões frescos e o cérebro a oxigenar. Porém nesse momento como que lhe custava a fazer esse normal exercício. Os pulmões retraíam-se e dentro da cabeça sentia um vazio, mas que asfixiava.

 As águas que ali fluem e confluem e que eram para si como que a imagem da sua própria vida, estavam hoje paradas no seu olhar, como se de uma lagoa estagnada se tratasse. Um amigo dos tempos de juventude que ali passava de barco, cumprimentou-o: ‘Eh! Alvinhas, queres ir à pesca?’. Apenas lhe acenou quase sem perceber quem era, mas só assim realizou, que tinha que sair dali e daqueles sórdidos pensamentos para onde a sua mente o estava a levar, pois esperavam-no os outros três afluentes da sua vida.  

Abriu a porta de casa mas sentou-se logo no cadeirão da sala mesmo sem despir o casaco. Tinha frio, estava exausto, arrasado, estoirado. Ele nunca tinha pensado que a crise global que todos os dias é anunciada pelos telejornais pudesse saltar do pequeno ecrã para a sua casa, para o seu sofá, para si. Mas chegara hoje esse dia, em que a sua empresa, uma p.m.e. como lhes chamam na imprensa, não resistiu…

Assim, o sr. Caetano, 43 anos, recentemente apanhado na teia do desemprego, começou a ficar cada vez mais tenso à medida que o Natal se fazia anunciar por todo o lado - na tv, nas luzes da sua própria rua, e mesmo nas crianças lá de casa que começavam já a esboçar cartas de pedidos ao Pai Natal.

Como extremoso pai, da sua família, ocupava todo o tempo que agora já tinha, a magicar um modo de poder presentear os seus pequenos filhos, na próxima quadra natalícia. Os biscates que ia arranjando mal davam para a comida diária, mas o empreendedor Álvaro lembrou-se de algo que lhe podia ainda vir ajudar a salvar o Natal.

Começou por contactar alguns amigos e conhecidos no sentido de averiguar do seu interesse nos mágicos serviços que estaria disposto a prestar-lhes, ou caso não precisassem, que transmitissem a sua santa ideia a conhecidos seus. Passada uma semana, apesar da sua actual baixa auto-estima, tinha como réstia de esperança qualquer coisa que se arranjaria. Mas não podia prever que a sua tarefa seria tão bem recebida quanto requisitada. 

Era 24 de Dezembro à noite, mas este ano tinham decidido só se encontrar com a família no dia 25, até porque a irmã de Álvaro que vivia em Coimbra, só chegaria nessa noite, já tarde.

Com a ajuda da mulher Isabel tentava por tudo despachar João e Filipe para a cama, com promessas de surpresas que surgiriam de caixas coloridas e enlaçadas, que de manhã cedo seriam depositadas junto à lareira entre o pequeno presépio e a grande árvore de natal. Assim que a sempre difícil missão foi conseguida, Álvaro começou a vestir o fato de Pai Natal com que se dirigiria às casas dos seus efémeros clientes para distribuir as aguardadas prendas da praxe, misturadas com as gargalhadas que a surpresa suscitaria nalguns, e mesmo por vezes pequenos choros nos mais pequenotes. A seguir a esses quinze minutos de magia e muitos flashes, partiria com mais trinta euros no bolso, para a morada seguinte onde repetiria o acto até às primeiras horas do dia. Era mesmo bom para o negócio ter conseguido conciliar os diferentes horários a que as pessoas faziam a consoada e a que gostavam de receber os presentes, ou com a hora a que regressavam da missa do galo. Há muito tempo que não se sentia assim tão activo e prestável…. via-se que não tinha perdido o jeito. Deste modo conseguiria dinheiro para subsistir durante alguns dias e pagar algumas das prendas para os miúdos e para os familiares.

Quando voltou a casa ainda Isabel o esperava acordada para saber como tinha corrido a operação ‘barbas brancas’ e colocarem os presentes para os filhos junto à lareira, como prometido. Aí pela primeira vez se sentiu um verdadeiro Pai Natal. Apesar do mau jeito que a vestimenta dava, mesmo assim vestido foi descansar um pouco. E pouco pareceu porque daí a duas horas o despertador do telemóvel tocou para que se desse inicio à segunda ronda do seu percurso. Agora, para aqueles que gostavam de ser acordados pelo São Nicolau, a desejar-lhes um ‘Feliz e Santo Natal’, anunciando que os seus ajudantes duendes, já teriam ali deixado as prendas há poucos segundos atrás, e que os meninos e meninas já podiam ir a correr desembrulhar tudo.

Já o dia havia rompido quando regressava, mas o seu velho carro decidiu parar. Azar? Não! Sorte. A casa deste Pai Natal ficava mesmo ali no quarteirão seguinte. Ao sair do carro, arrancou a barba postiça que Isabel lhe havia colado à cara há já demasiadas horas quando reparou no homem dentro do jipe topo de gama estacionado a seu lado. Tinha uma garrafa de whisky quase vazia na mão e meteu-se com ele: ‘Oh, oh! Oh! Oh!,  ao que Álvaro retorquiu:

‘Bom dia amigo, se anda à procura dum Pai Natal, saiba que este já está a sair de turno.’

‘Eh! Alvinhas, és tu pá?! Ganda farra amigo, já despachaste as renas…E eu que pensava que era o único pai perdido na noite de Natal.’

‘Não, não venho de nenhuma festa, fui fazer um pequeno favor ao meu cunhado, uma brincadeira para os miúdos.’

‘Nã me venhas com tretas pá, tu tens lá algum cunhado. Conta lá onde é largaste as …renas…’

‘Bom, tenho que me ir embora.’

‘Ena pá, não digas mais nada, já percebi, vens do trabalho, não me digas que és tu o Pai Natal que o Casimiro e o Tó Vieira contrataram… ainda estás sem nada?, eles disseram-me que tinhas ido ao fundo… porque é que não falaste comigo, arranjava-se qualquer coisa, lá no sal, e tu que gostas tanto daquilo pá…’

‘Está bem, depois falo contigo. É muito fixe o teu novo jipão. Gostei de te ver! Feliz Natal!’

‘Feliz Natal o caraças! Porque é que achas que estou para aqui na rua a esta hora. É o meu primeiro Natal sem os putos. Foram passar as festas a Lisboa com a mãe. Ela agora vive lá. Estou sozinho. A minha mãe está lá, para onde quer que Deus a tenha levado. O meu pai lá no lar mal me conhece. O meu irmão continua em França, não quer saber desta terra para nada…e eu estou para aqui, com a bomba de 75.000 euros….como é que o Natal pode ser feliz…’

De repente, Álvaro olhou para o fundo da rua e pareceu-lhe ver alguém sentado à porta da escola. Era no mínimo estranho. Chamou a atenção do amigo, que prontamente reagiu:

‘Bora lá ver quem é. Algum desgraçado como nós, é o que é. Eu vou lá contigo. Até um Pai Natal como tu precisa de ajudante.’

Álvaro ficou tão surpreendido que nem foi capaz de se zangar:

‘Joãozinho…querido… o que fazes aqui? Onde está a mamã e o maninho?

‘Ainda estavam os dois a dormir, pai. Pai? Tu não és o Pai Natal, pois não?’

‘Não! Esta roupa… estava só a experimentá-la para ver se ainda estava boa… para emprestar aqui ao meu amigo Castro. Toma Castro! Agora é tua, pode ser que precises dela. Usa-a bem. Anda para casa João, vamos ver as prendas.’

‘Eu já vi pai, tive todos os brinquedos que eu queria, tudo o que eu queria, mas menos o meu desejo secreto.’

‘Há coisas que nem o Pai Natal consegue saber, que nem ele consegue. Mas o que era isso tão secreto que tu querias que nem escreveste na carta?’

‘Queria de volta a minha professora do ano passado, aquela que me ensinou a ler e a escrever. Eu já a vi lá na escola, mas não vai à nossa sala ensinar. Foi por isso que eu fui ter ali à escola, porque pensava que o Pai Natal poderia ter deixado lá, para todos…porque como eu não era só eu a querer isso, julgava que ele tinha trazido a professora para a escola.’

‘Pode ser que ela volte, talvez no próximo ano, João, nunca se sabe….’

Abriu a porta de casa, mesmo ao tempo que Isabel e Filipe saltavam da cama. Foram todos ver as prendas. Mas o que Álvaro precisava agora era de um duche quente, de uma chávena de chá, e de um pouco de descanso até à hora do almoço que juntaria toda a família.

Esse teria de ser um dia feliz, também porque teria pouco tempo para pensar na sua situação actual e futura. E à noite, cansado de tudo, dormiria melhor do que nos dias antecedentes, e também com toda a certeza sem dar tantas voltas na cama antes de adormecer, em busca de uma solução.

E mesmo assim sem a professora o Natal voltou a acontecer mais uma vez.

Com o novo ano e sem os miúdos que o entretinham, pois já haviam regressado à escola, tudo voltava ao normal nesta nova vida de Álvaro, que era sentir-se cada vez mais desanimado com a sua situação. Tivera uma ideia tão boa, mas tão sazonal que até se irritava de a ter tido. Afinal o Natal não depende da vontade do homem. Nada como ligar a televisão para repartir desgraças. Continuava a luta dos professores do ensino público e o seu braço de ferro com o ministério da educação. Depois da lição que aprendera com o seu pequeno filho naquela inesquecível manhã de Natal, ele não conseguia compreender como o governo podia continuar a teimar contra a vontade daqueles muitos milhares de pessoas. Apesar do tão propagandeado choque tecnológico, ainda era possível na era da técnica, uma criança como o João dar tanta importância à figura da sua professora. Essa era a sua verdade.

Nisto o telefone toca e ele atende.

‘Estou!?’

‘Eh! Alvinhas!? Atão pá, como é que vai isso ?

‘Tudo bem, quer dizer, tudo na mesma. E tu, já estás melhor?’

‘Nem imaginas o bem que me fizeste. Vesti o fato, fui para Lisboa, convenci os putos e também a Laura a irem comigo passar o ano a Paris, para conhecerem o meu irmão e os únicos primos que têm. Foi fantástico, pá. Estamos todos juntos outra vez, vou ficar cá em cima por uns tempos para ver se as coisas se recompõem entre nós, tás a ver. Obrigado, Alvinhas!......Tá, Alvinhas !? Ainda tás aí, pá?

‘Sim Castro, estou a ouvir.’

‘Ah! Já me esquecia, aparece amanhã lá no meu escritório. Estão à tua espera para me ires substituir. És o novo director da Sal.Sol.Sul, não te esqueças pá, há imenso trabalho. Depois falamos, tchau!  E desligou.

      Voltou então a percorrer o caminho que sempre fazia no final de cada dia de trabalho. Dum céu carregado de nuvens muito densas e escuras chovia com pouca intensidade, mas o vento soprava de tal modo forte de oeste que a água sobre as salinas se começava a ondular. Já era noite quando chegou junto ao cais de embarque. Os poucos clientes do pequeno bar de madeira, abrigavam-se junto ao balcão para uma última bebida. Olhando para o lado esquerdo, já se acendiam as luzes da  pequena torre da igreja da unidade hoteleira, mas que outrora servira de apoio aos pescadores da ‘almadrava’ do arraial ali instalado. As gaivotas voavam sobre a terra sinalizando o mau tempo no mar.

Mas mesmo assim Álvaro podia voltar a sorrir mais uma vez.

 

 

:)canalsonora(: às 11:01

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

 

 

 

pedro jubilot

 

'a visita'




 

 

 

  

             Vamos visitar os pais como fazemos juntos muitas vezes. Cada um de nós também costuma ir sozinho, se lhe apetece. Deixamos os carros estacionados no centro, junto à rua das lojas agora iluminadas e enfeitadas. É perto e gostamos de caminhar assim um ao lado do outro conversando como quando éramos miúdos e tínhamos todo o vagar da vida. Amanhã é 25 – feriado, mas esta tarde já não trabalhamos. Falamos do fim-de-semana, pergunta-me se preciso de algum dinheiro, se estou aborrecido com algo – mas não, só sonolento, saí ontem e depois fiquei ainda a ler um bocado. Poucos metros antes do portão, interroga-me se devemos levar flores. Digo-lhe que dê o dinheiro a um homem que ali está pedindo, e aponto-o com um leve gesto de cabeça. Entramos e quando chegamos, sentamo-nos numa pedra e deixamo-nos ficar ali um bocado em silêncio. Às vezes também falamos alto, mas hoje há muita gente em volta. Apenas nos despedimos com um: adeus mãe, adeus pai, até depois. No trajecto da campa até à saída confessa-me que esta semana teve muitas saudades deles, mais do que nunca. Lá fora quer saber se ainda ando com aquela rapariga do outro dia, e se aceito o convite para jantar hoje lá em casa, mas já combinei com dois amigos. Apareço lá amanhã. Ele entra no carro, baixa o vidro e dá-me um cd, que agradeço enquanto liga o motor. Depois diz: Ah! É verdade... a Carla foi hoje ao médico, vou agora buscá-la... acha que está grávida.

     Não temos primos, tios ou avós. Isso acontece. O meu irmão tem a mulher com quem vive, eu tenho-o a ele. Mesmo só duas pessoas podem ser uma família.  

 

 

:)canalsonora(: às 21:06

Segunda-feira, 04 de Agosto de 2008

 

 

pedro jubilot  

 

 ‘atira-te ao mar...’

 

                                                  

 

 

-Marque! Ó Marque! Alevanta-te! -gritava o avô à porta da salinha dirigindo-se para a cozinha de chávena de tófina na mão.

 -Conte na valia aquele cafézinhe chê de borras que tu me fazias-me com sopas conde ê cá endava da secada, desabafa António José.  

Ao que obtém a resposta da mulher:

-Pô era...e sejava cafeteras, fegão...e o moçe cada vez tá pior. Côme chega cêde ainda se põe a ver vides da telervisão até de manhazinha.

Mestre Toino foi de novo à porta da sala um pouco mais chateado e gritou :

 -Marque Entoine! Alevanta-te já desgraçade! Daqui a pouque tenhe o barque em seque.

 Pegando no boné saiu falando entre dentes:

  -O tê pai e a tu mãe é que tom bem lá da alemonha e ê que me charingue páqui  contigue. Vô ma é endande pá do 7 estrelas. Se na apareces lá daqui a dé menutes bem podes ir trabalhar pá zobras que cá nan te dô ma denhere denhum pó reste das féras.

 A avó liga a radio atlântico(ela gostava mais da antiga radio restauração do sr. Julinho, ali ao pé da rua de faro mas agora mudaram aquilo e só tocam músicas estrangeiras e estão sempre a falar das bichas de carros em lisboa) e locutor fala pelos cotovelos:

  -São 8 e 49 estão já 22 graus e agora o novo êxito dos Iris da Fuzeta para este verão: “Atira-te ao mar”. A avó aproveita a embalagem: -Marquinhe, vai já ter com o tê avô ca maré hoje é boa pa ganhares uma nota.

Por fim o rapaz levantou-se, meteu um ice-tea no bolso e foi comendo uma sandes de queijo preparada pela avó. Levava também, mas metida na cabeça a música com que acordara, e já se sabe o que acontece nestes casos -ela não nos larga para o dia.

Apanhou o avó à porta da taberna: - Tá no ir ó não.

Mestre Toino que já tomara 2 de 5 resmungou:

-Vê lá se te alevantas má cêde quê já tô velhe pa trabalhar pa ti… ainda ê usava fraldas e já ia ó mar.

Ao que o Marco comentou trocista:-devia ser même bué da fixe o avó de dodotes assentade a borde do savêre. E o velho deu-lhe uma carolada na orelha enquanto retorquia: 

-Se calhar pensas que do mê tempe avia cá essas mariquices.

 Lá empurraram o barco para a água e fizeram-se à Ria Formosa, que já era tarde e o calor apertava. Daí a pouco começaram a labuta.

Mas a teimosa melodia lá vinha à boca do neto:

Mó, o qué que fazes aqui».                                                                                         

O avó esclareceu-o: -Pouque barulhe qu’zolhes das amenjoas se fechem.

Mas mesmo com tanto suor entre as cavadelas fundas feitas na areia Marco não conseguia deixar de pensar na música:

Má per qué que me dexaste da mão».

Passadas umas boas 3 horas de trabalho à torreira do sol o avô decidiu dar por terminada a tarefa e de regresso ao barco continuava a canção do momento :

Dá-me um bêje da boca e chama-me trazan».

O velho pescador já nada dizia, apenas abanava a cabeça, pensando com os seus botões, enquanto se dirigiam para o bote. Quando foi ver o resultado da apanha pelo neto não se conteve em puni-lo:

-Même assim ainda apanhástes muntas amenjoas...com um côrpe desses. Tem ma é vergonha, tem.

E como se fosse uma desgarrada, agora o moço:

Tá o mar fête dum cão, nan à choque nem brebegão».

Resposta pronta de Mestre Toino:

-Já me tás a enretar com essa merda de múseca. Ainda levas ma é uma cheparlada do mê da cara.

Para piorar a situação o motor do barco não parecia responder ao apelo manual de iniciar marcha, pelo que Marco se tornou voluntário à força:

-Agarra ma é dos rémes. Do mê tempe e até do tempe do tê pai conde era môçe remávamos o dia tôde. Estes moçes dagóra parecem fêtes de caca.

Ao ver-se ofendido o rapaz usou de novo a canção:

Tens cá uma mania que até dá dó».

Mestre Toino percebera a indirecta e quando o jovem se levantou para pegar os remos, ele desviou-se  bruscamente para o mesmo lado do barco em que Marco se encontrava, e então -homem ao mar!.. ou melhor, moço ao mar.

Marco esbracejava estragado da vida enquanto na sua cabeça estalava novamente o refrão, desta vez entoado pelo avô:

Atira-te ó mar e diz que te empurrarem».

Mas dá a sensação que o Sr. António já tinha aquela fisgada, pois o motor do barco, que se afastava com a corrente, pegou logo a seguir. Marco, esse teve de nadar até à doca, que apesar de tudo não era muito longe.

À noite, depois do jantar, Mestre Toino e a mulher sentaram-se como de costume à porta de casa a falar com os vizinhos, comentado a quantidade de água gasta pelo neto, que finalmente vinha a sair, e ainda magoado com a partida do avô apenas dirigiu um:

-Boa noite avó, até amanhã!

Ela chamou-o: - Olha Marquinhe, espera aí que o tê avô tem uma coisa pa te dar.

Cinco contos para gastar no Festival do Marisco dessa noite. Marco agarrou na nota, que afinal era a paga do seu trabalho, e foi orgulhosamente rua abaixo sem agradecer ao avô.

Mestre Toino não resistiu e comentou:

-Fó mó, o chêre a prefume é má que munte. Tu é que tens uma mania que até dá dó. 

           

  

:)canalsonora(: às 23:39