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ESTANTES 2013-2015

CONSULTA ~ LEITURA ~ DIVULGAÇÃO

ESTANTES 2013-2015

CONSULTA ~ LEITURA ~ DIVULGAÇÃO

cs01|jun13|Postais da Costa Sul ~ PEDRO JUBILOT

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~ descer às praias. desejar por tudo um levante que nos expurgue num mar morno e espumoso. impingir o calor vigoroso deste sol na pele de corpos que se imunizam. na duna frente ao mar, recebe-se da maresia um odor a limos no ar. e deitado na areia começo a sonhar as conchas que quero levar ~

 

~ aproveitar o dia. sair na direcção do mar, nessa hora matutina. destas penínsulas  prometidas resta o que não foi tocado pela mão do homem, ou aquilo que ainda consegue por enquanto ficar fora do seu alcance. como o vai e vem das marés remexendo as areias que formam e disformam línguas traçando as passagens da corrente. são os encantos naturais o que mesmo assim resta para o olhar ~

cs03|jan14| Espuma Evanescente ~ VÍTOR GIL CARDEIRA

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Espuma Evanescente

 

Quando não falam em ti, apodreces.

Os dias passam e ocultas-

Na pequenez da solidão que ensombra

As palavras indiferentes.

A quem interessa a estrofe sem leitor,

A porta escancarada na parede esburacada?

Lembra-te do tempo sussurrado,

Indiferente, revolvendo a terra húmida

Onde latejam vermes inconfundíveis

Que fecundam as trevas. Ninguém 

navega sem conseguir entender as correntes

Que conduzem o devir. Ninguém se

Desconstrói quando o corpo resvala

Na ladeira que se ergue ante ti.

As ladeiras só existem na tua

Cabeça e o que procuras não está

Do outro lado da vida. Está aqui,

Junto às tuas mãos!

A outra margem só existe na penumbra

Do crepúsculo e mesmo assim

Só a acedes enquanto espuma

Evanescente. Espuma que encanta

Os que nunca se encontraram mesmo

Quando habitam vontades semelhantes

E percorrem veredas paralelas. Quando

Os olhares divergem do que realizas e és,

Da esteira difusa que cobre o passado

A que não podes voltar, reages

Como se a dor fosse uma impossibilidade

De regresso aos campos de restolho onde

O sexo convoca a inocência nas contendas

Do susto e do medo.

A ausência transforma-se num colapso de desejo,

Numa inusitada falência da vontade em

Penetrar o silêncio da realidade sarcástica.

O significado do ato envolve o que rejeita

A perplexidade, apodrece no tempo,

Na perdição que naufraga na escuridão e

Responde ao ego ausente.

Debaixo das nuvens moram os que não sabem saltar

Ao eixo nas noites eternas.

cs13|ago15| Garrafeira Atlântica ~ VAN S.

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meio whisky                                                                                                                                       

 

Certa vez, num dos nossos encontros no bar 
de um hotel da marginal onde costumávamos ir beber vários
meio-whisky, sentados nas rústicas cadeiras de verga,
efemeramente joviais, na sedução e no tédio

estampados na transparência das vidraças bem limpas, 
no deixar fluir a nossa existência para o atlântico...

lembro-me de te ter dito algo assim parecido com isto:
tenho uma caixa onde guardo areia e conchas, quer dizer, 
os sonhos escondidos que trago das praias do sul
já que não posso aduzir a brisa, o sol, o mar, a não ser 
nos olhos postos nos lugares de ali onde vou 
às vezes tentar ser mais feliz.

cs07|nov14| Sizígia ~ VÁRIOS AUTORES

 

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~ Ana Paula Madureira     

                                                                                                         

Crateras de lua cheia
amanteigando as falésias
cobrindo a cama ao mar
em lençóis prata

espuma algodão doce
na vastidão do areal maré acima
mar do meu sul meu berço
minha noite danças minhas

tão descalças e intensas
quanto a SIZÍGIA enleia sol e lua
num fervilhar borbulhante
de ardor universal

e Neptuno alonga-se ou mingua
cativo do poder dos céus
que abrem caminho às águas
e ofertam aos pés pisar mais longe 

e nesse vem que vai
baloiça o molhado
no espelho dos olhos
que sugam a vida

cs12|jul15| Ça C'est Ma Riviére ~ FERNANDO CABRITA

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 (...)

Desconheço se foi por infortúnio, se infortúnio há,

ou se por acaso dos seus passos, Madame,

ou se apenas estamos na borda de um rio onde

 a chuva cai quando chove. Mas não é um qualquer rio, Madame. É o meu rio.

 Ma rive. Quero dizer, ma riviére. E eu quero estar sozinho. Preciso

estar sozinho.

Tenho o direito de estar sozinho. O direito de fruir, como eu entender,

a minha propriedade.

Não sei quem criou o conceito, esta ideia, esta coisa que chamamos

propriedade, o direito de propriedade,

a defesa da propriedade,

o exercício da propriedade, 

direito universal, planetário, galáctico, direito gótico, pletórico, barroco,

marítimo e terrestre, não sei, mas esta porção de terra e

este rio tenho-os para mim como meus. Excusez-moi, madame,

ça c’est ma rive, pas votre. Pardon,

ma riviére. Pardon, je parle pas trés bien,

pardon, …

Queira fazer o favor – depois haverá                                                                                               

quem traduza para que vossa excelência perceba – queira fazer o favor de                  

atravessar para a outra margem,

lá haverá decerto outros rios, ribeiros,

arroios,  riachos, coisas líquidas, fraternas como lágrimas de Deus,

ou um poço, uma pilheta de dessangradas águas,

botelhas antigas de vinho doce que os anos ainda mais dulcificaram,

piscinas que os turistas trouxeram nas suas largas embarcações de ferro,  

levadas e noras, passadiços de águas brancas a refulgir de sol.

Pois, Madame, além tudo haverá. Por isso não demore. Atravesse

para o lado de lá, se faz favor. S’il vous plait. Sim, sim, oui, alguém

lhe explicará mais tarde. Sim, claro, na sua própria língua.

Vai ver que entende muito bem. Isto aqui é meu. Meu. Não sei porquê nem

de quando,  mas meu.

(...)