já aqui tinhamos falado do grande criador de loulé, José Carlos Fernandes, que depois de ter singrado a solo no panorama da banda desenhada nacional, tem agora encetado colaborações com outros autores desenvolvendo mais a parte da escrita de texto. foi agora mais uma vez premiado no 20ºAmadora de BD com o album A Metrópole Feérica, primeiro volume da série Terra Incógnita, vol.1. A parceria com Luis Henriques para a tinta da china, valeu-lhe o prémio de melhor álbum português, melhor desenho e melhor argumento.



'train food'(from goa to bombay)
http://alexdemaia.blogspot.com
apresenta-se como agricultor biológico no perfil do seu blog,
mas essa é apenas uma das qualidades de Alexandre Maia, artista nascido em olhão, que depois de uma viagem à india e a outros lugares do mundo, regressa agora para continuar o seu caminho de 'profeta', como há muito é conhecido pelos amigos mais chegados. deixamos algumas imagens de obras suas.
stop fascismo democrático


a paz em guerra
cansados da viagem mas surpreendidos com a luz da capital algarvia, a banda americana Balmorhea entrou em palco algo retraída mas cedo correspondeu ao caloroso acolhimento do público que enchia o pequeno auditório do teatro das figuras em faro. apesar de practicamente desconhecidos em portugal (embora nestes tempos do myspace não possamos dizer isso de qualquer banda) onde ontem se estrearam, tinham na plateia muitos conhecedores da sua música. num dos dois encores tocaram o belo tema 'remembrance', bem como temas do novo disco a sair em fevereiro de 2010. no final os músicos venderam os seus próprios discos, conversaram e distribuiram autógrafos.


Balmorhea, uma peculiar formação acústica de austin,texas, toca sábado 17 de outubro 2009, no pequeno auditório do teatro das figuras em faro, um concerto pelas 21.30, que será data única em portugal vindos de madrid, e regressando de novo a espanha, para continuar a sua digressão europeia. este espectaculo faz parte do 'ciclo em transito' e conta com a produção do TMF e da produtora Eat MyEar.


a gente singular editora apresenta num 2 em 1 , na próxima sexta,16 de outubro de 2009, mais dois titulos da sua colecção, em Tavira na biblioteca Álvaro de Campos, pelas 18h30m.
http://gente singular.pt/


poema de Miguel Godinho, de Os Nossos Dias, para o catálogo da editora 4 águas-2009 - editora4aguas@gmail.com

Dêem-nos circos e paradas que nós
inventamos um novo mundo e sentimo-lo
da maneira que quereis
este é o fim das consciências
aguardamos novas ordens
já só funcionamos com instruções sapientes
dêem-nos as coordenadas
indiquem-nos um caminho
providenciem roteiros organizados e objectivos
as estradas enlameadas não serão obstáculos
seremos felizes no fim do horizonte
bem para lá de nós próprios
poema concreto por Pedro Jubilot, retirado da colecção 'feriados', recuperado do fanzine 'Tão Longe, Tão Perto!' (1993). este sobre o cinco de outubro.

depois de esgotadas digressões pelos concelhos de tavira e olhão, ei-los que regressam este fim-de-semana, à sala mãe - a sociedade recreativa olhanense - já que fazem parte do nucleo de teatro desta sociedade. Joaquim Parra e João Evaristo, tomam a pele dos pescadores olhanenses do passado e cozem e descozem as redes da vida do mar, numa colagem de textos sobre a vila da restauração, na peça 'mê menine, e o tê pai...'

foto recuperada do blog da CPSE
'ao encontro das músicas do mundo em sines' é um filme documentário de Paulo Nobre que foi idealizado com o objectivo de ir ao encontro e descobrir, através de uma lente, a cultura em forma de música. com fotografia de Jorge Jubilot, colaborador deste blogzine e membro do colectivo de fotografia Futopia, este dvd apresenta a 9ª edição do fmm 2008, captando a intemporalidade dos momentos vividos.

http://docmusicasdomundoemsines.blogspot.c
contacto - doc.musicasdomundo@gmail.com
na sociedade recreativa olhanense- o lugar onde as coisas da cultura estão acontecer- situada na avenida da república em olhão, junto à igreja matriz, pode ver-se agora a exposição de fotografia 'Ortopedia' de Zuco. até 30 de novembro 09.
sugerimos no post anterior o concerto dos Couple Coffee, esse duo de músicos brasileiros, que tocaram algumas canções do premiado disco 'co' as tamanquinhas do zeca!' , deixando bem claro ao vivo o valor da sua proposta. para uma plateia de cerca de 40 pessoas (poucas, mas boas, como a comunicativa cantora Luanda Cozetti não se cansou de repetir) desfilaram toda a sua arte, apenas com voz e o baixo eléctrico de seis cordas de Norton Daiello. tocaram ainda uma magnifica versão do tema 'insensatez' (tom jobim), apesar de todas as que já ouvimos.

concerto com os Couple Coffee na casa do povo de santo estevão (tavira) -sáb. 3 de outubro 2009 - 22h00

a ria formosa é o nosso mais precioso bem natural. Devemos defendê-lo.
somosolhao.blogs.sapo.pt/16624.html

A corpodehoje, constituída a 10 de Novembro de 2008 com sede em Tavira, é uma estrutura que visa a criação e produção de objectos artísticos e culturais, abrangendo duas vertentes fundamentais, a artística e a pedagógica. A par do trabalho de criação, a estrutura propõe-se investir fortemente no desenvolvimento do trabalho artístico com e para a comunidade, seguindo um conceito de ligação arte|vida.
http://corpodehoje.no.sapo.pt
http://hopperhope.no.sapo.pt
+351 96 635 73 02 | +351 93 174 69 45
Música nas Igrejas de Tavira é um projecto de divulgação musical da Academia de Música de Tavira e da Câmara municipal, que acontece todos os sábados nas igrejas de Tavira às 18horas.
Por vezes, e já nos aconteceu algumas vezes, a igreja anunciada nos programas, não é aquela onde os concertos realmente acontecem, sendo alterada a sua localização, mas este sábado canalsonora marcou presença na igreja certa- a Ermida de Santa Ana para assistir ao anunciado concerto pelo –duo de trombones, que teve de ser substituído (devido a doença de um dos elementos) por um programa de guitarra clássica por Josué Nunes, docente na academia de musica de Tavira. Interpretou entre outras composições, estudos e um preludio(choro nº1) de Heitor Villa Lobos, compositor que parece agradar muito ao músico nascido em Tavira em 1974. A bela composição ‘La catedral’ de Augustin Barrios Mongoré , também lhe saiu muito inspirada.
Das 54 cadeiras disponíveis para o publico, 35 foram ocupadas para assistir ao recital. Não fora a comunidade estrangeira do concelho e arredores, e estaríamos presentes apenas 8 portugueses. Desses apenas 2 chegámos antes das 18h. Os outros chegaram já o guitarrista tinha iniciado a sua apresentação. E eu que já não sou assim tão novo, era o que tinha menos idade nesse fim de tarde, nessa outrora capela militar. São assim estas coisas da cultura.

foi com alguma surpresa que a uma quarta-feira à noite me deparei na biblioteca municipal de tavira, com um público constituído por pelo menos 50 pessoas, para assistir àquela que era a ultima das sessões (das até agora anunciadas) de apresentação ao vivo do poema ‘tabacaria’ de fernando pessoa, pelo actor de tavira- vítor correia, acompanhado em vários instrumentos pelo músico stelmo barbosa. aproveitando uma das grandes janelas da biblioteca álvaro de campos virada para a igreja de s.sebastião recentemente recuperada, assistimos interessados ao recital.


sábado 2 de maio é a nova data para o ‘leilão de cartazes’ organizado pelo cineclube de tavira. esta interessante iniciativa onde já estivemos presentes noutras edições terá lugar mais uma vez no cine-teatro antónio pinheiro em tavira ali no largo d.marcelino franco, 10.
‘sessão’ a não perder pelas 15h30m.

‘HOTEL ABRIL’
O Portugal de 1973 era um país já demasiado triste e cansado, à espera que algo acontecesse.
Nos estádios de futebol, o pantera negra, que já dera o seu melhor, continuava exilado num país de que há muito o obrigaram a ser. Não podia sair da Luz, mas já começava a entrar no túnel da inevitável decadência.
A cantora, de tanto lhe doer a voz e a alma, incluía já no seu repertório canções de vários géneros e línguas, que se afastavam da essência do seu fado, indirectamente afastando-se da forçada colagem ao destino do seu país. No entanto, essa perda de identidade criativa, é que a mantinha ainda livre.
Na televisão, ainda a preto e branco, a nossa senhora de Fátima continuava a proteger semestralmente a nação de todos os males com a benção de um estado que continuava a chamar-se novo, ao fim de 48 anos.
E… uma juventude, que tinha de tornar-se adulta por força das circunstâncias da guerra ultramarina, da falta de estudos e de vida cultural, e de ter de arranjar um trabalho, pois que nesses anos os pais não ganhavam o suficiente para se poderem manter os filhos no sonho da ‘adolescência’ por muito tempo.
‘Trrrriiiiin…..trrrriiiiin….’ tocavam assim os telefones num som grave, orgânico, terrestre, subterrâneo e utilizavam-se para se dizerem coisas realmente importantes. Boas ou más. Por isso Augusto sentia um arrepio de cada vez que o ouvia. Tremia só de pensar, que lhe iam comunicar o dia e a hora de embarque para as colónias. Descansou ao ouvir a voz do seu amigo Jorge. Esta chamada era das boas. O que de melhor se podia arranjar por aqueles dias.
Assim, um conjunto recentemente formado por quatro músicos de Lisboa, vai fazer a passagem de ano a um hotel do Algarve. O reveillon correu tão bem que depois são contratados para banda residente da época baixa, isto é, até ao dia 31 de Maio. Nada mau naqueles difíceis tempos.
Embora os primeiros dias de Janeiro tenham sido chuvosos, e depois um pouco frios, fustigados pelo vento norte – logo o céu se limpou dando lugar a belos e azuis dias. Dias de Algarve.
O alto hotel sobre a praia permitia-lhes admirar os navios que cruzavam o oceano atlântico em direcção ao estreito de Gibraltar para entrarem no mar mediterrâneo.
Nos tempos livres limitam-se a fazer longos passeios pela praia, jogam às cartas ou tentam conhecer turistas estrangeiras que lhes proporcionem novas experiências. E profissionalmente até têm um local de ensaio com bom material de som disponível.
Tudo parece correr às mil maravilhas, quando no fim do mês de Março são informados pelo gerente que ocorrera um problema nos bancos e não lhes podia pagar já. Mas não tinham nada a temer que o patrão era homem de palavra, para mais muito rico e muito importante. Tinham de ter paciência e esperar alguns dias. Estas coisas às vezes acontecem no mundo dos negócios. E não lhes faltaria nada como até ali.
Durante Abril, mesmo sem receber há quase um mês, teimam em honrar a sua palavra, num hotel que não se percebia estar à beira da falência.
Os standards de hotel, canções-êxito ao género romântico de Sinatra ou Nat king Cole , que o contrato indicava que repetissem noite após noite, revelava o pouco conhecimento do gerente perante a mudança de gostos musicais dos seus clientes estrangeiros, e mesmo dos portugueses. Estes pediam aos músicos para tocar Beatles, Stones, Shadows, e mesmo Creedence Clearwater Revival. Os músicos acediam. Como já pouco tinham a perder não viam porque não ignorar esse ponto do acordo e era isso que ainda os conseguia animar a cada dia que passava.
Tanto que uma noite o sr. Ramos lhes perguntou que raio de música era aquela que agora lhes tinha dado para tocar.
‘Nada de jeito, coisas que os clientes nos pedem, já se sabe como são os ingleses, têm gostos estranhos’, desculparam-se airosamente perante a falta de informação do homem, que de dia para dia se mostrava mais preocupado com a situação do hotel. E se os clientes queriam- isso era bom para o negócio.
Numa dessas noites, que estivera pouco animada, recolheram-se cedo mas desanimados com a situação, terminada que estava a sua primeira e única série de temas da noite, pois todos os poucos clientes já se haviam retirado. Ainda ficaram por ali a conversar, no quarto que os albergava a todos. Como músicos, gostavam de ouvir rádio. A meio da conversa, ouve-se a canção portuguesa concorrente ao Festival Eurovisão da Canção desse ano.
‘O Paulo tem uma grande voz, não acham?!’
‘É! Mas gostava mais de o ouvir nos Sheiks. Ainda cheguei a ensaiar com eles uns dias.’
‘Eu acho que não! Aquilo era uma imitação da música inglesa, ao jeito dos Beatles. Temos que defender a nossa música, a nossa língua.’
‘Pois, e a nossa pátria, as nossas colónias, o império…’, escarneceu o nervoso Augusto levantado o tom de voz.
‘Ei, amigos, calma, não estamos aqui para isso, mas para esquecer isso.’
‘Como é que eu me posso alhear disso Jorge, mais cedo ou mais tarde, vêm buscar-me e vou lá bater’, continuou Augusto.
‘Vamos com calma pessoal, temos de manter este contrato até ao fim. Deixem-se disso, amanhã é outro dia.’
‘Talvez… o primeiro dia do resto da minha vida…estou aqui tão perto de Espanha, tenho um contacto para arranjar alguém que me passe. Desculpa-me só te dizer isto agora, mas foi mais por causa disso que eu vim para cá, e por que somos amigos há tantos anos, mas Rui, por favor vê lá se consegues falar amanhã com o Ramos, e arrancar-lhe algum deste dinheiro.’
‘Calem-se lá por favor, deixem ouvir isto. Isto não é possível, o Zeca Afonso na Rádio Renascença ?.’ pediu o Mário. ‘Passa-se algo estranho, isso é o «Grândola», isso está censurado.’
‘Então rapazes, eu sou o vosso agente, arranjei-vos este emprego, dou-vos comida, cama lavada e whisky todos os dias, e mesmo assim não se acalmam? Vamos mudar de assunto.’
Nisto batem à porta do quarto.
‘Porra! Não vos disse para se calarem…Quem é ? perguntou Rui.
Abriram a porta ao recepcionista que trazia um recado para o Sr. Augusto Lacerda. ‘É o seu irmão, que quer dar-lhe uma palavrinha’.
Quando Augusto volta do telefonema, deita-se na cama, calado mas sereno e parece mais feliz do que quando saíra porta fora.
‘Está tudo bem ?’ Querem saber, como se fossem um coro e não instrumentistas.
‘Está tudo bem! Mas não desliguem a telefonia…desculpa Rui, ter reagido assim, mas tenho andado muito tenso…eu não queria ir para a tropa, mas oxalá as coisas mudem esta noite…’
‘Quem é que te ligou ? O que é que se está a passar, Augusto ?
‘…bem, é que faço hoje dezanove anos e o meu irmão mais velho, que estava de serviço no quartel, fez questão de ser o primeiro a dar os parabéns ao benjamim da família.’
Aí os músicos entoaram a sua versão da canção mais ouvida em todo o mundo.
Só a voz colocada de Joaquim Furtado ao microfone do Rádio Clube Português, conseguiu silenciar este ‘parabéns’ a você:
“Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas, que desencadearam esta madrugada uma série de acções com vista à libertação do país do regime que há longo tempo o domina”
Passam a noite a beber whisky de ouvidos colados à telefonia até de manhã. Depois descem à recepção para o pequeno-almoço e aí, a caixinha que mudou o mundo passa a sê-lo realmente. A monótona e desinteressante RTP, terá tido nesse dia a maior audiência de sempre em Portugal, superando de longe a daquela noite
Inspirados pelos acontecimentos tomam contam do palco da sala de baile do hotel e começam a tocar ainda a meio da tarde, fora da habitual hora de trabalho, tocando o que bem lhes apetece mas sobretudo tocam muita música portuguesa pela primeira vez. E assim vão tocando pela tarde fora, quando a revolução se começa a confirmar.
Os hóspedes, que começam a regressar ao hotel e aos seus quartos são surpreendidos pelo ambiente festivo e vão ficando por ali a ouvi-los em silêncio.
Ao início da noite ao mesmo tempo que Marcelo Caetano é levado do quartel do Largo do Carmo, o gerente indignado com o rumo dos acontecimentos, informa que vai abandonar o hotel. Vai dizendo que o país vai entrar numa anarquia, diz aos empregados que agora os revoltosos comunistas vão tomar conta dos bancos e não lhes pode pagar, nem aos músicos, pois que o dono daquele e de outros hotéis, já se foi embora para o Brasil.
Ninguém se parece importar muito com o miserável discurso do execrável Ramos. Mas já que era assim o bar, a garrafeira, e a cozinha passam a estar abertos a todos. São agora posse de todos. Dos hóspedes, dos trabalhadores e também dos seus convidados. As bebidas alcoólicas disponíveis no bar atenuam a já por si só inebriante felicidade natural.
O hotel é ocupado pelo povo
Os hóspedes maioritariamente estrangeiros não percebem nada do que se está a passar naquele momento, ali naquela bonita e soalheira região de clima temperado, numa brilhante primavera, nem muito menos naquele pacato país de brandos costumes. Ao princípio ficam um pouco apavorados e perguntam: ‘what the hell is going on here? A revolution? …What kind of revolution? Cada um tenta uma explicação no melhor inglês possível. ‘Freedom’, ‘Power to the people’. ‘Death to the fascists!’ Como se de um exercício de brainstorming se tratasse.
Os estrangeiros acham tanta piada ao exotismo da situação, que decidem juntar-se à festa e à banda lisboeta, que apenas era a ‘banda do hotel’ passam a chamá-la ‘The Red Carnations’ , porque como toda a gente trazem cravos vermelhos ao peito.
Os músicos ficam nessa festa popular até 29 de Abril. Depois despedem-se de todos para regressar a Lisboa para junto dos seus familiares e amigos, anunciada que está a maior concentração de sempre do povo português que teria lugar nesse 1 de Maio de 1974, e que a partir daí seria dia feriado em Portugal, celebrando-se o dia do trabalhador, nesse tempo em que o povo unido jamais seria vencido.
Augusto regressa à casa dos pais e recomeça as aulas de piano e composição. Tem de novo gosto e vontade em tocar e aprender.
A ex-banda de hotel mantém-se unida e depois de algumas semanas de ensaios começam então a tocar no Hot Clube de Portugal, interpretando nas suas versões de jazz instrumental os temas dos novos cantautores da então música popular portuguesa. O sucesso sorriu-lhes. ‘Os cravos vermelhos’ foram nesse ano a ‘banda residente’ desse e de muitos outros palcos portugueses.
Em 1980, Portugal era um país ainda alegre, onde tudo poderia ainda acontecer.
Augusto tornou-se o compositor principal e líder do quarteto que evoluiu tanto que começou a ser falado também fora de Portugal. Podia agora passar a fronteira do país, também fisicamente, e não seria para África . Nunca esqueceu o que às escondidas ouvira numa conversa lá em casa, numa distante noite de inverno. Tornara-se realidade a frase profetizada por um amigo dos seus pais: ‘Quando o teu puto tiver idade para ir para a tropa já a guerra acabou, vais ver, acredita no que te digo Lacerda’ , palavras essas que durante anos o encheram de esperança e força para continuar a acreditar que um dia seria livre.
O A. Lacerda Quartet começou a tocar por toda a Europa como representante do novo país e da sua música.
Mas por exigência da profissão que abarcara Augusto passava cada vez mais temporadas lá fora, tendo vivido em Madrid, Paris e Berlim, dedicando-se posteriormente a uma bem sucedida carreira a solo. Durante muito tempo apenas visitava Portugal a espaços para fazer férias e rever a família e os amigos.
Mas depois de muitos anos de discos, gravações e longas digressões, sentiu de repente uma vontade de regressar à sua terra. Conseguiu assim chegar mesmo a tempo de adquirir a casa dos seus pais, onde crescera.
Mas o Portugal que Augusto encontra em 2004, é um país já a ficar deprimido, onde pouco poderá ainda acontecer, a não ser tudo o que a globalização e a comunidade europeia deixarem para nos entreter.
Quando no dia
No estádio de futebol, o menino de ouro, que ainda daria o seu melhor, regressaria de novo à ilha, não do país que o viu nascer, mas onde nasceu o desporto do qual diziam ser ele o melhor. Não podia sair de Old Trafford, mas já começava a entrar na estrada da inevitável e exagerada exposição pública da sua vida privada. E nessa tarde de Junho, mesmo estando dentro do relvado, foi apenas mais um entre os milhares de portugueses vestidos de camisola grená e calções verdes, que não conseguiu festejar golos, apesar de tantas bandeiras penduradas nas janelas.
Na televisão plasma por cabo, o nosso senhor primeiro-ministro anunciaria a sua partida para Bruxelas como se de um dever patriótico se tratasse, lançando o país numa crise política e social que estará para durar. Através dessa caixa que o mundo transformou num painel estreito, os políticos vindouros continuarão a mentir semanalmente ao povo de uma nação cheia de males de desemprego, fome e corrupção apesar de todos nós quereremos ainda acreditar num estado que continua a dizer-se de direito democrático, mesmo depois do que fomos assistindo ao longo destes 30 anos.
A cantora de ascendência crioula que foi promovida ao estrelato meteoricamente, deseja ir instalar-se
E…. uma juventude, que tem de demorar-se a ficar adulta por força das circunstâncias da crise, por o curso não ter saída, e tem de arranjar trabalhos precários e temporários, pois enquanto não conseguem nada melhor os pais lá fazem por manter os filhos no sonho da ‘adolescência’ por mais algum tempo.
‘Tchalalalalauuuu….’ tocam assim os telefones num som agudo, digital, sem fios, demasiado estridentes e utilizam-se para se dizerem coisas realmente normais. Boas ou más. Por isso Augusto sente um arrepio de cada vez que os ouve. Treme só de pensar, que lhe vão perguntar onde está e o que está a fazer. Esta chamada era das más. O que de pior se podia esperar ouvir por aqueles dias. A voz dizia que já tinha descansado o seu amigo Jorge.
Ficou imóvel junto à janela da sala da velha casa onde nascera, agora restaurada e com vidros duplos, o que lhe permitia compor sem a interferência dos ruídos que vinham da rua. Dali podia ver o jardim e relembrar quando nos fins de tarde ou noite ali se sentava nos bancos com o amigo a falar das coisas da vida.
Passaram mais de trinta e cinco anos em apenas alguns minutos. Dirigiu-se então para o piano terminando a peça começada ainda em Londres, no dia em que se decidiu pelo regresso a Lisboa e que às primeiras notas tomara naturalmente o título de ‘a sort of homecoming’. Tinha estado a trabalhar esta composição nestas últimas semanas, dedicando-a ao amigo Jorge, desde que soubera da sua doença. Chamava-se agora ‘uma espécie de regresso a casa’ e ia estreá-la no concerto que daria no Centro Cultural de Belém, para o lançamento do disco de retrospectiva dos seus 30 anos de carreira.
este foi o post lançado há um ano neste blogue:
LITERATURA | oração
(oração popular)
Rosas do Mundo-2001 poemas para o futuro
assírio & alvim.2001
Pai-Nosso pequenino
Tem a chave o Deus-Menino.
Quem lha deu, quem lha daria?
Foi São Pedro, Santa Maria.
Cruz em monte, cruz em fonte
O pecado não encontre
Nem de noite, nem de dia
Nem às horas do meio-dia
Já os galos pretos cantam
Já os anjos se levantam
Já Jesus subiu à cruz
Para sempre,ámen, Jesus.

com origem em portugal, esta é a oração que a minha avó me ensinou, para me livrar do cansaço do dia e entrar no sono, para enfrentar a noite com o escuro dos olhos fechados.
apesar de tudo às vezes ainda é preciso rezar...
por :)canalsonora(: às 22:47
link | com. | adic.
pedro noel da luz expõe em faro nos ‘artistas’(www.artistasfaro.blogspot.com/) até 30 de abril. a exposição chama-se ‘enjoy the silence’

pedro noel da luz - 'waiting for the sun nº3'
angelina costa lima foi em 1984 um dos poetas algarvios então não publicados, escolhidos para o anuário de poesia da editora assírio & alvim.
Amo o deslizar destas águas,
inumeráveis águas, sobre o leito.
Tantas horas sobre os dias,
dias a fio, sobre mim.
Amo estes licores imprevistos e íntimos,
a sós, sobre os lençóis
quase lajes aquecidas.
Derradeiro Verão para esta tristeza.
________________________________
É a casa do mais branco litoral
onde as águas se despedem.
À chegada das grandes luas
a casa é o sangue do acordado corpo.
E ficam entre as montanhas
com suas alargadas sombras.
Um caminho para o Sul
pensaria no pátio da casa,
foge-me a alma para lá.

foto- :)canalsonora(:
roberto nobre nasceu em s.brás em 1903, mas foi em olhão (aí realmente estava a movida cultural desse tempo), onde o seu pai era médico e presidente da câmara , que realizou alguns dos seus ensaios cinematográficos (1925-‘charlotim e clarinha’), foi chefe de redacção do jornal correio olhanense, e se revelou como artista plástico, sendo a vila cubista motivo recorrente na sua obra pictórica:

em tavira na recém arranjada rua borda d’água da asseca, podendo entrar pelo arco ali mesmo à esquerda de quem sai da ponte romana vindo da praça da republica, pode-se agora visitar no nº30 a galeria de arte borda d’água, que de momento apresenta quadros do já conhecido artista local fonseca martins.


a vila de amêijoas de olhão tornou-se um dos acontecimentos da páscoa turística na cidade. trata-se do aproveitamento de uma tradição gastronómica dos pescadores de olhão, que dada a sua condição sócio-económica sempre aproveitaram a matéria prima do seu trabalho para a utilizar nas suas celebrações. neste caso trata-se de uma forma peculiar de cozinhar amêijoas. em vila, porque se coloca uma pedra no centro onde se vão depois encostando as amêijoas umas às outras. por fim rodeiam-se as amêijoas com pedras. sobre as amêijoas coloca-se vide bem seca para poder arder bem. mais queimadas/secas ou mais cruas, com ou sem limão, não existe melhor maneira de comer estes bivalves.
www.olhao.web.pt/gastronomia.htm www.observatoriodoalgarve.com/cna/notici

próxima sessão do café literário da sociedade recreativa olhanense, no nº14 da avenida da república, junto à igreja matriz de olhão a ter lugar no dia 25 de abril. feira, troca e venda de livros novos e usados bem como conversas à sua volta….com manuel ferreira e josé bívar.


amanhã às 21horas sairá da igreja da misericórdia em tavira a procissão do enterro do senhor, o principal acontecimento religioso das celebrações pascais.
www.cm-tavira.pt/cmt/index.php
fotos - :)canalsonora(:


celebra-se no mês de abril em alguns pontos do sotavento algarvio, já na sua 7ª edição- o festival da narração oral, acontecimento pouco publicitado, que tem vindo a crescer de ano para ano, e que se espera que venha a ter no futuro todo o apoio e atenção que merece.
arcaalgarve.blogspot.com/2009/03/program

ria é a revista do sporting clube olhanense, que apresentou o seu nº 0–março de 2009, relembrando muito bem na página 2 a equipa que em 1923/24 foi campeã de portugal. espera-se que passados 85 anos o clube volte à primeira liga.


a fnac do algarveshopping da guia tem em exposição até 5.05.2009, ‘ria formosa – um paraíso para o olhar’, fotografias da associação livre de fotógrafos do algarve, representando a ecologia e as pessoas que vivem na ria.

continuamos a nossa mostra de poesia por poetas algarvios ou sobre o algarve com mais um poema de pedro afonso nascido em faro em 1979 , do livro ‘ainda aqui este lugar’. foi o primeiro lançamento da 4águas, com edição de junho de 2008.
corres
e contigo arrastas a tua imagem
o que é isto que me fica?
na água que se encosta às pálpebras
ainda tão doce para ser lembrança
um cheiro visível
um horizonte com a tua forma
resguardo-te assim
até que tuas pegadas turvem
esperando que te acendas
no frio regresso da distância
no escuro de uma noite inteira

sulscrito.blogsome.com/2008/06/
a editora caminho editou no passado mês o livro ‘o caderno do algoz’, de sandro william junqueira. vindo da africa do sul para se radicar em portimão, experimenta agora a arte do romance, já que tem sido um grande divulgador de poesia ao vivo, ou das artes cénicas integrando o grupo ‘a gaveta’. Talvez por isso este romance que o autor considera de montagem do inconsciente, em que a narrativa não apresenta uma estrutura linear traz personagens que têm algo de teatral- são por exemplo, o velho, o coveiro, o anão, o inspector; ou personagens poéticas como o escritor, o anjo, a primavera.

considerado um dos mais antigos cafés do país, a par da brasileira de lisboa ou do majestic no porto, o centenário (5.12.2008) café aliança em faro por onde passaram inúmeras figuras da cultura nacional como fernando pessoa ou internacional como simone de beauvoir e marguerite yourcenar, encontra-se mesmo encerrado como já se temia. pelo menos estava assim no passado dia 20 de Março. ficámos tristes.



depois do sucesso das suas apresentações em olhão e tavira, a peça ‘mê menine, e o tê pai ?’ , pelo núcleo cultural da sociedade recreativa olhanense, entra agora em digressão pelas freguesias do concelho de olhão. Os actores joaquim parra e joão evaristo representam as personagens de dois pescadores que arranjando as suas redes vão desfiando um rol de histórias, umas verídicas e outras nem tanto, passadas, ouvidas, contadas ou escritas na mui nobre vila de olhão da restauração. a 11 de abril estarão também na casa do povo de santo estêvão. O divertimento está garantido.

continuamos a nossa mostra de poesia por poetas algarvios ou sobre o algarve com mais um poema de rui dias simão, do livro ‘os animais da cabeça’. é o quarto lançamento da 4águas, com edição de dezembro de 2008. editora e poeta com sede na conceição de tavira.
Um leve rastro do rosto
a procurar um pequeno beijo
num agarrado aroma de poejo:
este rosto que nunca se afasta dos invernos
Neste decerto momento da vida
nenhuma respiração acende a alegria
da voz debruçada para um regato
O instável nome do rosto apaga
a claridade acende a luz que apenas
se vê no lado errado duma multidão
sem ninguém. Logo estou parvo?
Para que não reste sempre
um silêncio malcontente nos lábios
façamos implodir um arquipélago de ternura
no começo da íris exausta
Lembro um pastor imóvel a divagar nos rochedos
agarrado a um chapéu de cinzas pelo
chamamento incerne dum rebanho com sol…
Não se vê um moribundo jogo de cartas
entrelaçando as mãos pelo inverno dentro:
(um soneto deste século a jogar matraquilhos?)
Reparaste a influência do clima
na melancolia das respostas?

no âmbito do ciclo -“conversas vadias” um espaço de reflexão e debate em torno de livros e ideias em ritmo de “vadiagem” como sinónimo de descontracção e informalidade, decorrerá, no dia 26 de março, pelas 21h30, na biblioteca municipal álvaro de campos em tavira , mais uma acção com o poeta, professor e declamador, josé fanha, o qual terá como convidado joão aguiar, cujo primeiro romance e primeiro grande êxito foi "A Voz dos Deuses" (1984) um dos maiores sucessos literários, em portugal, nos últimos anos, que já conta com 20 edições. www.cm-tavira.pt/cmt/index.php | www.asa.pt/autores/autor.php


por pouco não conseguia apreciar as belas fotografias de conhecidos músicos portugueses, numa exposição de rita carmo, jornalista e fotografa do/a ‘blitz’, pois encerrará(inaugurou a 14 de março) daqui a pouco no fórum algarve em faro. por vezes os centros comerciais armam-se em culturais e reservam-nos estas surpresas. apartir de agora as mesmas fotos poderão ser vistas mas através do álbum fotográfico "Portugal XXI - Imagens de Sons Portugueses" numa edição conjunta blitz/alcatel. o livro reúne imagens de artistas portugueses fotografados entre 2006 e 2008 e conta com um um conto inédito de josé luís peixoto, e textos de david ferreira, miguel cadete e ana ventura. ritacarmo.blogspot.com/


o nº7(março,09) do suplemento de artes do semanário postal do algarve (com sede em tavira), dá capa ao artista pedro cabrita reis (lisboa,1956), que entrevistado pela jornalista do s. -paula ferro, responde genialmente à pergunta - mas acha que a arte serve para alguma coisa ?, do seguinte modo: “Não. Essa é a sua grande vantagem. Justamente. A qualidade absolutamente extraordinária deste exercício que só nos inventámos, é a sua absoluta inutilidade. Não serve para garantir nenhuma das funções da sobrevivência humana e contudo é específico da nossa espécie. Quer dizer que evoluímos ao ponto de fazermos uma coisa que não serve para nada. Mais ainda, evoluímos ao ponto de deixar que alguns de nós, da comunidade, possam fazer uma coisa que não serve para nada e que é, à posteriori, muito útil para todos, por muitas razões.” este antigo admirador incondicional do sotavento algarvio, onde possui uma casa na parte serrana, é um dos mais influentes artistas portugueses.
http://www.artnowonline.com/galeria/Mai_


há pouco tempo distinguido com o prémio literário- correntes d’escritas 2009, com o livro ‘a moeda do tempo’(assírio&alvim,2006) , o poeta gastão cruz, nascido em faro em 1941 , é já um escritor reconhecido como um dos grandes das letras em portugal. como critico literário, o escritor lançou recentemente a colectânea ‘a vida da poesia’, na editora assírio & alvim. www.assirio.pt/autor.php

No Sol
Irás achar que foi um erro e foi
um erro, que nada se passou
e na verdade nada acontece nunca
de verdade: a verdade seria
eterna e o acontecido pertence
aos eclipses do tempo precipícios
em que depois da morte ficam vivos,
como se o não estivessem, os momentos
caídos;
foi isso um erro porque nada existe
nem nós, já ao império das vagas
submetidos,
porém na praia oblíqua onde estivemos
permanecer no sol foi tudo o que quisemos
eduardo salavisa tornou-se no mais conhecido designer português a abraçar esta disciplina, conhecida como urban sketchers, que no seu blogue recebeu o nome de ‘desenhador do quotidiano’. como se pode perceber pelas imagens tavira também lhe serviu de modelo.


pedro jubilot
e mesmo assim o natal voltou a acontecer
Terminados os dias de maior calor do ano, aqueles em que é recolhida à superfície da salina uma finíssima película de cristais de sal, chega o sempre difícil mês de Setembro. Os dias começam a ficar mais pequenos, as noites mais frescas e temos de nos acostumar de novo a ficar em casa, porque já se regressou ao trabalho e há que refazer horários de sono. É preciso preparar o regresso das crianças à vida escolar.
Todos os anos esta mudança causava a Álvaro uma pequena ansiedade, que este ano se agravara devido aos problemas surgidos no trabalho e porque o seu filho mais velho, com apenas seis anos, andava nervoso com a mudança de professor. Como lhe explicara a sua irmã, professora de Matemática, o João seria mais uma vítima do injusto e perverso novo estatuto da carreira docente e consequente burocrático e inaplicável modelo de avaliação imposto às escolas pelo ministério de educação. Tinha horário a tempo inteiro, refeições, actividades extracurriculares, um computador, mas perderia a sua professora do primeiro ano.
E mesmo assim sem a professora do ano anterior, o ano lectivo voltou a acontecer mais uma vez.
No caminho de regresso a casa, como fazia todos os dias, conduziu vagarosamente o seu antigo carro de estimação pela estrada cujas bermas se abrem de ambos os lados para as salinas que dão a flor mais branca, húmida e cristalina do país e quem sabe, como alguns dizem, de todo o mundo. Chegado ao fim da estrada, estacionou perto do cais, saiu para contemplar a paisagem, sentir o vento, e observar o curso das quatro correntes que ali naquele lugar se encontram. Respirava o ar puro tão profundamente como outrora o fazia quando inspirava o fumo do cigarro. Costumava sentir os pulmões frescos e o cérebro a oxigenar. Porém nesse momento como que lhe custava a fazer esse normal exercício. Os pulmões retraíam-se e dentro da cabeça sentia um vazio, mas que asfixiava.
As águas que ali fluem e confluem e que eram para si como que a imagem da sua própria vida, estavam hoje paradas no seu olhar, como se de uma lagoa estagnada se tratasse. Um amigo dos tempos de juventude que ali passava de barco, cumprimentou-o: ‘Eh! Alvinhas, queres ir à pesca?’. Apenas lhe acenou quase sem perceber quem era, mas só assim realizou, que tinha que sair dali e daqueles sórdidos pensamentos para onde a sua mente o estava a levar, pois esperavam-no os outros três afluentes da sua vida.
Abriu a porta de casa mas sentou-se logo no cadeirão da sala mesmo sem despir o casaco. Tinha frio, estava exausto, arrasado, estoirado. Ele nunca tinha pensado que a crise global que todos os dias é anunciada pelos telejornais pudesse saltar do pequeno ecrã para a sua casa, para o seu sofá, para si. Mas chegara hoje esse dia, em que a sua empresa, uma p.m.e. como lhes chamam na imprensa, não resistiu…
Assim, o sr. Caetano, 43 anos, recentemente apanhado na teia do desemprego, começou a ficar cada vez mais tenso à medida que o Natal se fazia anunciar por todo o lado - na tv, nas luzes da sua própria rua, e mesmo nas crianças lá de casa que começavam já a esboçar cartas de pedidos ao Pai Natal.
Como extremoso pai, da sua família, ocupava todo o tempo que agora já tinha, a magicar um modo de poder presentear os seus pequenos filhos, na próxima quadra natalícia. Os biscates que ia arranjando mal davam para a comida diária, mas o empreendedor Álvaro lembrou-se de algo que lhe podia ainda vir ajudar a salvar o Natal.
Começou por contactar alguns amigos e conhecidos no sentido de averiguar do seu interesse nos mágicos serviços que estaria disposto a prestar-lhes, ou caso não precisassem, que transmitissem a sua santa ideia a conhecidos seus. Passada uma semana, apesar da sua actual baixa auto-estima, tinha como réstia de esperança qualquer coisa que se arranjaria. Mas não podia prever que a sua tarefa seria tão bem recebida quanto requisitada.
Era 24 de Dezembro à noite, mas este ano tinham decidido só se encontrar com a família no dia 25, até porque a irmã de Álvaro que vivia em Coimbra, só chegaria nessa noite, já tarde.
Com a ajuda da mulher Isabel tentava por tudo despachar João e Filipe para a cama, com promessas de surpresas que surgiriam de caixas coloridas e enlaçadas, que de manhã cedo seriam depositadas junto à lareira entre o pequeno presépio e a grande árvore de natal. Assim que a sempre difícil missão foi conseguida, Álvaro começou a vestir o fato de Pai Natal com que se dirigiria às casas dos seus efémeros clientes para distribuir as aguardadas prendas da praxe, misturadas com as gargalhadas que a surpresa suscitaria nalguns, e mesmo por vezes pequenos choros nos mais pequenotes. A seguir a esses quinze minutos de magia e muitos flashes, partiria com mais trinta euros no bolso, para a morada seguinte onde repetiria o acto até às primeiras horas do dia. Era mesmo bom para o negócio ter conseguido conciliar os diferentes horários a que as pessoas faziam a consoada e a que gostavam de receber os presentes, ou com a hora a que regressavam da missa do galo. Há muito tempo que não se sentia assim tão activo e prestável…. via-se que não tinha perdido o jeito. Deste modo conseguiria dinheiro para subsistir durante alguns dias e pagar algumas das prendas para os miúdos e para os familiares.
Quando voltou a casa ainda Isabel o esperava acordada para saber como tinha corrido a operação ‘barbas brancas’ e colocarem os presentes para os filhos junto à lareira, como prometido. Aí pela primeira vez se sentiu um verdadeiro Pai Natal. Apesar do mau jeito que a vestimenta dava, mesmo assim vestido foi descansar um pouco. E pouco pareceu porque daí a duas horas o despertador do telemóvel tocou para que se desse inicio à segunda ronda do seu percurso. Agora, para aqueles que gostavam de ser acordados pelo São Nicolau, a desejar-lhes um ‘Feliz e Santo Natal’, anunciando que os seus ajudantes duendes, já teriam ali deixado as prendas há poucos segundos atrás, e que os meninos e meninas já podiam ir a correr desembrulhar tudo.
Já o dia havia rompido quando regressava, mas o seu velho carro decidiu parar. Azar? Não! Sorte. A casa deste Pai Natal ficava mesmo ali no quarteirão seguinte. Ao sair do carro, arrancou a barba postiça que Isabel lhe havia colado à cara há já demasiadas horas quando reparou no homem dentro do jipe topo de gama estacionado a seu lado. Tinha uma garrafa de whisky quase vazia na mão e meteu-se com ele: ‘Oh, oh! Oh! Oh!, ao que Álvaro retorquiu:
‘Bom dia amigo, se anda à procura dum Pai Natal, saiba que este já está a sair de turno.’
‘Eh! Alvinhas, és tu pá?! Ganda farra amigo, já despachaste as renas…E eu que pensava que era o único pai perdido na noite de Natal.’
‘Não, não venho de nenhuma festa, fui fazer um pequeno favor ao meu cunhado, uma brincadeira para os miúdos.’
‘Nã me venhas com tretas pá, tu tens lá algum cunhado. Conta lá onde é largaste as …renas…’
‘Bom, tenho que me ir embora.’
‘Ena pá, não digas mais nada, já percebi, vens do trabalho, não me digas que és tu o Pai Natal que o Casimiro e o Tó Vieira contrataram… ainda estás sem nada?, eles disseram-me que tinhas ido ao fundo… porque é que não falaste comigo, arranjava-se qualquer coisa, lá no sal, e tu que gostas tanto daquilo pá…’
‘Está bem, depois falo contigo. É muito fixe o teu novo jipão. Gostei de te ver! Feliz Natal!’
‘Feliz Natal o caraças! Porque é que achas que estou para aqui na rua a esta hora. É o meu primeiro Natal sem os putos. Foram passar as festas a Lisboa com a mãe. Ela agora vive lá. Estou sozinho. A minha mãe está lá, para onde quer que Deus a tenha levado. O meu pai lá no lar mal me conhece. O meu irmão continua em França, não quer saber desta terra para nada…e eu estou para aqui, com a bomba de 75.000 euros….como é que o Natal pode ser feliz…’
De repente, Álvaro olhou para o fundo da rua e pareceu-lhe ver alguém sentado à porta da escola. Era no mínimo estranho. Chamou a atenção do amigo, que prontamente reagiu:
‘Bora lá ver quem é. Algum desgraçado como nós, é o que é. Eu vou lá contigo. Até um Pai Natal como tu precisa de ajudante.’
Álvaro ficou tão surpreendido que nem foi capaz de se zangar:
‘Joãozinho…querido… o que fazes aqui? Onde está a mamã e o maninho?
‘Ainda estavam os dois a dormir, pai. Pai? Tu não és o Pai Natal, pois não?’
‘Não! Esta roupa… estava só a experimentá-la para ver se ainda estava boa… para emprestar aqui ao meu amigo Castro. Toma Castro! Agora é tua, pode ser que precises dela. Usa-a bem. Anda para casa João, vamos ver as prendas.’
‘Eu já vi pai, tive todos os brinquedos que eu queria, tudo o que eu queria, mas menos o meu desejo secreto.’
‘Há coisas que nem o Pai Natal consegue saber, que nem ele consegue. Mas o que era isso tão secreto que tu querias que nem escreveste na carta?’
‘Queria de volta a minha professora do ano passado, aquela que me ensinou a ler e a escrever. Eu já a vi lá na escola, mas não vai à nossa sala ensinar. Foi por isso que eu fui ter ali à escola, porque pensava que o Pai Natal poderia ter deixado lá, para todos…porque como eu não era só eu a querer isso, julgava que ele tinha trazido a professora para a escola.’
‘Pode ser que ela volte, talvez no próximo ano, João, nunca se sabe….’
Abriu a porta de casa, mesmo ao tempo que Isabel e Filipe saltavam da cama. Foram todos ver as prendas. Mas o que Álvaro precisava agora era de um duche quente, de uma chávena de chá, e de um pouco de descanso até à hora do almoço que juntaria toda a família.
Esse teria de ser um dia feliz, também porque teria pouco tempo para pensar na sua situação actual e futura. E à noite, cansado de tudo, dormiria melhor do que nos dias antecedentes, e também com toda a certeza sem dar tantas voltas na cama antes de adormecer, em busca de uma solução.
E mesmo assim sem a professora o Natal voltou a acontecer mais uma vez.
Com o novo ano e sem os miúdos que o entretinham, pois já haviam regressado à escola, tudo voltava ao normal nesta nova vida de Álvaro, que era sentir-se cada vez mais desanimado com a sua situação. Tivera uma ideia tão boa, mas tão sazonal que até se irritava de a ter tido. Afinal o Natal não depende da vontade do homem. Nada como ligar a televisão para repartir desgraças. Continuava a luta dos professores do ensino público e o seu braço de ferro com o ministério da educação. Depois da lição que aprendera com o seu pequeno filho naquela inesquecível manhã de Natal, ele não conseguia compreender como o governo podia continuar a teimar contra a vontade daqueles muitos milhares de pessoas. Apesar do tão propagandeado choque tecnológico, ainda era possível na era da técnica, uma criança como o João dar tanta importância à figura da sua professora. Essa era a sua verdade.
Nisto o telefone toca e ele atende.
‘Estou!?’
‘Eh! Alvinhas!? Atão pá, como é que vai isso ?
‘Tudo bem, quer dizer, tudo na mesma. E tu, já estás melhor?’
‘Nem imaginas o bem que me fizeste. Vesti o fato, fui para Lisboa, convenci os putos e também a Laura a irem comigo passar o ano a Paris, para conhecerem o meu irmão e os únicos primos que têm. Foi fantástico, pá. Estamos todos juntos outra vez, vou ficar cá em cima por uns tempos para ver se as coisas se recompõem entre nós, tás a ver. Obrigado, Alvinhas!......Tá, Alvinhas !? Ainda tás aí, pá?
‘Sim Castro, estou a ouvir.’
‘Ah! Já me esquecia, aparece amanhã lá no meu escritório. Estão à tua espera para me ires substituir. És o novo director da Sal.Sol.Sul, não te esqueças pá, há imenso trabalho. Depois falamos, tchau! E desligou.
Voltou então a percorrer o caminho que sempre fazia no final de cada dia de trabalho. Dum céu carregado de nuvens muito densas e escuras chovia com pouca intensidade, mas o vento soprava de tal modo forte de oeste que a água sobre as salinas se começava a ondular. Já era noite quando chegou junto ao cais de embarque. Os poucos clientes do pequeno bar de madeira, abrigavam-se junto ao balcão para uma última bebida. Olhando para o lado esquerdo, já se acendiam as luzes da pequena torre da igreja da unidade hoteleira, mas que outrora servira de apoio aos pescadores da ‘almadrava’ do arraial ali instalado. As gaivotas voavam sobre a terra sinalizando o mau tempo no mar.
Mas mesmo assim Álvaro podia voltar a sorrir mais uma vez.
pedro jubilot
visita
revista pública(jornal público-23.12.2001)
Vamos visitar os pais como fazemos juntos muitas vezes. Cada um de nós também costuma ir sozinho, se lhe apetece. Deixamos os carros estacionados no centro, junto à rua das lojas agora iluminadas e enfeitadas. É perto e gostamos de caminhar assim um ao lado do outro conversando como quando éramos miúdos e tínhamos todo o vagar da vida. Amanhã é 25 – feriado, mas esta tarde já não trabalhamos. Falamos do fim-de-semana, pergunta-me se preciso de algum dinheiro, se estou aborrecido com algo – mas não, só sonolento, saí ontem e depois fiquei ainda a ler um bocado. Poucos metros antes do portão, interroga-me se devemos levar flores. Digo-lhe que dê o dinheiro a um homem que ali está pedindo, e aponto-o com um leve gesto de cabeça. Entramos e quando chegamos, sentamo-nos numa pedra e deixamo-nos ficar ali um bocado em silêncio. Às vezes também falamos alto, mas hoje há muita gente em volta. Apenas nos despedimos com um: adeus mãe, adeus pai, até depois. No trajecto da campa até à saída confessa-me que esta semana teve muitas saudades deles, mais do que nunca. Lá fora quer saber se ainda ando com aquela rapariga do outro dia, e se aceito o convite para jantar hoje lá em casa, mas já combinei com dois amigos. Apareço lá amanhã. Ele entra no carro, baixa o vidro e dá-me um cd, que agradeço enquanto liga o motor. Depois diz: Ah! É verdade... a Carla foi hoje ao médico, vou agora buscá-la... acha que está grávida.
Não temos primos, tios ou avós. Isso acontece. O meu irmão tem a mulher com quem vive, eu tenho-o a ele. Mesmo só duas pessoas podem ser uma família.

microcontos de natal
a iniciativa europeia de 5 jornais
e revistas para que os seus leitores
escrevessem pequenos contos de Natal
teve uma adesão esmagadora: cerca de
cinco mil histórias recebidas. Hoje, os
25 seleccionados, 5 por país, são
publicados, em simultâneo, em Espanha,
França, Holanda, Itália e aqui, na PÚBLICA,
Numa ordem totalmente arbitrária. Parabéns a todos.
litão à moda de olhão
prato de peixe seco
tradicional na ceia de natal

Ingredientes para 8 pessoas:
meia dúzia de litão seco (cerca de 250gr)
3/4 cebolas
4 dentes de alho
1 folha de louro
4 tomates maduros
0,5dl de azeite
500gr de batatas
sal e pimenta q.b.
Preparação:
Lava-se o litão e deixa-se demolhar durante 1 dia com algum sal.
Num tacho, dispõe-se em várias camadas sequenciais:
1º -um pouco de azeite, cebola, dentes de alho picados, tomates sem peles nem sementes, um pouco de folha de louro;
2º- batatas cortadas às rodelas;
3º-litão.
Repete-se esta sequência 2/3 vezes. Tempera-se com sal e pimenta, acrescenta-se muito pouca água, tapa-se o tacho e deixa-se cozer.
www.olhao.web.pt/gastronomia.htm
rua fm
rádio universidade do algarve
102.7 fm .faro

na melhor tradição das rádios universitárias, a rua fm-102.7, continua a marcar pontos com a sua programação variada e eclética em termos de géneros musicais. só estas rádios conseguem ainda com alguma liberdade fazer frente ao marasmo das rádios formatadas. uma alternativa no éter local.

café aliança
rua de santo antónio
faro, fundado a 5 de dezembro de 1908

foi classificado pelo ministério da cultura em 2004 como sendo um imóvel de relevância cultural. no dia 5 de dezembro de 2008, ali se celebrou o centésimo aniversário, com um pequeno programa cultural, mas permanece a incógnita quanto ao futuro de um dos cafés mais antigos do país. diz-se que em janeiro se saberá o futuro próximo do centenário café aliança. ao longo destes cem anos por lá passaram inúmeras figuras da cultura nacional e internacional como simone de beauvoir e marguerite yourcenar. ao que parece também estiveram em olhão onde guiadas pelo ilustríssimo olhanense dr. francisco fernandes lopes, ficaram surpreendidas com a famosa arquitectura cubista que a vila da restauração apresentava nesse tempo. mas essas serão conversas para próximas tertúlias…de café.
mudo as maria
13 songs lp
eat my ear records


formados em faro, mas também com incursões pelo teatro em barcelona, a música dos mudo as maria é preciso ser descoberta urgentemente. já esta noite, que está de chuva, no myspace.profile.myspace.com/index.cfm
antónio josé ventura
a cidade das palavras
edição do autor.olhão1994

É no princípio do Inverno
que o verão se solta das palavras
e os objectos se tornam mais opacos.
Há um lago seco no caminho
um murmurar de águas
como se o mar estivesse aprisionado
numa ampola.
A luz incide oblíqua e fria
não ecoa já nos cristais
o som dos equinócios
o transbordar das marés
nem o movimento das asas das gaivotas.
É uma vida mais terrestre que começa
é maior a sombra
maior o peso do frio no corpo.
carlos guerreiro

o jornalista algarvio, actualmente repórter na tvi, lançou recentemente o livro ‘aterrem em portugal’ , que o levou a uma pesquisa de vários anos sobre os aviões que na segunda guerra aterravam de emergência em portugal. tudo começou quando conheceu a história do pescador algarvio ti jaime, que salvou do mar em frente a faro, seis americanos, que se despenharam num avião da marinha.