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Sexta-feira, 04 de Maio de 2012

Quotidianos poéticos

Pedro Jubilot

pjubilot@hotmail.com

canalsonora.blogs.sapo.pt

 

Lídia Jorge

Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a paisagem

intrometeram-se na ficção de Lídia Jorge

 

 

 

Lídia Jorge nasceu em Boliqueime, em 1946. Em 1980 lançou o seu primeiro livro ‘O Dia dos Prodígios’. Este romance terminado pela autora em agosto de 1978, teria forçosamente que nomear o mais marcante, e então recente facto, da história. Faz-se assim alusão à revolução dos cravos: «não sabe ainda que em Lisboa os soldados fizeram uma revolução para melhorarem a vida de toda aquela gente(…) afirmam a pés juntos que só há música, flores e abraços. Dizem.»; e também à guerra colonial: «Guerra, que guerra? Oh gente ignorante, será preciso ter um filho, ou um afilhado no serviço, para se poder falar nessas coisas sem dar explicações.»

Mas para além das mudanças centrais/gerais, as personagens inquietam-se com as mudanças regionais/pessoais nos usos e costumes, referindo-se a produtos locais, objetos do dia-a-dia, as transformações observadas na relação com a natureza ou consigo próprias …: «Antes o arreeiro trazia outro peixe(…) toda a gente só falava da frescura dele. (…) Antes mesmo em Agosto, não me fazia impressão o lenço. (…) Antes bebia-se mais Lagoa, porque nesta venda falava-se de coisas simples.(…) Agora pouco se interessam pelo meu bandolim. Parece que andam a ouvir outra música. (…) Antes o raio das cigarras calavam-se quando eu passava calçado.(…) Agora parece que os bichos já não têm medo das pessoas.(…) Antes eu ficava a dormir nos dias minguados, mas agora o meu sono é de pedra.»

A própria vivência pessoal e familiar da autora na sociedade rural do barrocal algarvio dos anos sessenta, dá-lhe o poder de espetadora privilegiada, que lhe permite escrever algo remanescente da infância como: «(…)crianças que se empoleiraram antes do meio-dia. Comendo pães com azeite e açúcar. Sobre os escombros das casas contíguas(…)»; ou o lembrar das histórias e crenças que sempre impressionam as crianças: «antes dos meus avós isto aqui era um deserto. Só havia ali na curva do rio um moinho velho, onde de noite, apareciam medos.»

O mais provável é que nunca as gentes do barrocal tenham sido tão bem descritas no seu meio arcaico como nestes prodigiosos dias em que Lídia Jorge lhes escreveu as rotinas. Como é o caso das mulheres : « (…)de preto, chapéu e lenço, pernas magras, cruzadas, dedilhando baracinhas de palmas na boca e nas unhas. Uma fieira delas sentadas sobre o banco de pau e pinho. A última abana-se com um lencinho nas mãos.» Ou no modo como as pessoas se relacionam na sua pequena comunidade abandonada (já muito reduzida pela emigração) e um pouco isolada do mundo: «Ah que linda missa. A gente sente o coração lavadinho. Tenho a garganta apanhada de cantar a miraculosa rainha dos céus.»; e mesmo com os animais «(…) uma revoada de cães que se cheiravam puseram as patas no portal. E a taberneira disse. Xô canzoada.(…) ergueu um pau que lhe ficava à mão, e mesmo sem se levantar enxotou os cães. Ladrem nos montes, seus perros.»

Embora com o nome ficcional de Vilamaninhos, o espaço onde a ação decorre revela-se muito real aos olhos dos seus leitores, sobretudo os que conhecem as pequenas aldeias da região. Mas mesmo os que não a conhecem muito bem conseguem captar a imagem como se de um filme antigo se tratasse: «(…) das paredes, espessas como muralhas. Montões de pequena argamassa saibrosa, de pedras caliças redondas como de valado, ajoujadas sob o peso das grandes coberteiras talhadas pela língua de um alferce de cavador. (…) e as casas a apareceram resplandecentes de musgo e sombras de antiga cal.» A escritora também refere outros elementos constantes da paisagem algarvia, herdados de civilizações antigas, como a árabe: «o poço tão fundo e tão estreito(…)mesmo assim, porque os mouros o fizeram. De outra forma, ter-se-ia morrido de sede assim que o rio secou.» Caricata parece a estranheza das populações serranas aos novos meios de transporte: «E muita gente quando voltava de Faro vinha amarela e tonta como se(…)acabasse por dar uma volta ao mundo inteiro. A camioneta era verde e cinzenta, e todos os que sabiam ler diziam chamar-se Eva.»

Também a natureza marca presença quer através do mais rico dos frutos:«(…) na aba de uma  figueira frondosa, prenhe de figos irisados e granitosos que àquela hora do meio-dia abriam o olho, derretendo um pingo de melgaço.»; ou através das mal-amadas flores de malva: «(…)dos vasos e das latas onde estão plantadas. Cor de fogo. Nesses nem é preciso o cuidado da água. As malvas crescem como ervas daninhas. Sem criação.»

Por outro lado a riqueza linguística característica do algarve é usada na caracterização das personagens através do seu modo de falar: «Só que em tu começandes a almarea. A almarear e a olhar de revés. Já ninguém tem mão na tua natureza.»

Há coisas e lugares sobre os quais não se pode escrever, sem as termos vivido, vivenciado, observado, visitado ou lá ter estado. O barrocal algarvio tal como outros lugares encravados no tempo é um deles. ‘O Dia dos Prodígios’ de Lídia Jorge, é a sua caracterização por excelência, ainda mais porque a ação está ali naqueles importantes anos antes da revolução de Abril em 1974. Isso é o suficiente para que nenhum algarvio deixe de ler esta obra ímpar. Ao mesmo tempo que continua a ser um dos mais importantes livros da literatura portuguesa contemporânea, do qual ficou célebre a seguinte passagem: «Ninguém se liberta se não quiser libertar-se.(…) Como ninguém sabe ler os sinais, ficam todos pelos lamentos das coisas.»… tão local como universal, tão antiga como atual.

canalsonora às 14:00

Quinta-feira, 05 de Abril de 2012

Quotidianos poéticos

Pedro Jubilot

pjubilot@hotmail.com

canalsonora.blogs.sapo.pt

 

João de Deus

Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a poesia intrometeram-se na arte de leitura de João de Deus

 

 

 

Nasceu a 8 de Março de 1830, na terra algarvia de São Bartolomeu de Messines, como filho de modestos comerciantes e foi batizado sob o nome de João de Deus de Nogueira Ramos- aquele que viria a ser considerado o poeta do amor:

«Vi esse corpo de ave,/ Que parece que vai/ Levado como o Sol ou como a Lua/ Sem encontrar beleza igual à sua; /Majestoso e suave,Que surpreende e atrai!» (Adoração)

A sua poesia distinguiu-se, sobretudo, pela sua riqueza musical e rítmica, sendo que grande parte da sua obra poética está presente em ‘Campos de Flores’: «Nem te vejo por entre a gelosia; / Nunca no teu olhar o meu repousa; / Nunca te posso ver, e todavia, / Eu não vejo outra cousa!» (Sempre)

É exímio a exprimir sentimentos de um modo espontâneo e directo, quase infantil, numa linguagem muito próxima da oralidade.

«Primícias do meu amor!/Meu filhinho do meu seio/Tenro fruto que à luz veio/Como à luz da aurora a flor!» (Mãe e Filho)

Foi para Coimbra estudar direito em 1849. Aí, onde travou amizade com Antero de Quental, levou uma vida de boémia, escreveu poemas e colaborou em jornais. Mais tarde em Lisboa chegou a deputado (por Silves) mas acaba por odiar o cargo bem como a politica em geral. Mas este homem de grande bondade e virtude humana sente-se deslocado e isolado nos primeiros anos que aí vive.

«O poeta é um ente sempre enfermo,/Nas algibeiras nunca tem dinheiro,/Sustenta-se do ar como o pinheiro,/E assim como o pinheiro habita o ermo.» (Num Álbum)

Em 1868 casa com Guilhermina Battaglia, uma senhora de boas famílias, ganhando estabilidade na sua vida pessoal. Inicia a publicação sistemática da sua obra poética e dramática. Mas a obra mais importante de João de Deus viria a ser a Cartilha Maternal (1886), destinada a ajudar a aprendizagem da Arte de Leitura, onde demonstra a sua sensibilidade para com os problemas da educação:

 «(…)offerecemos neste systema profundamente prático o meio de evitar a seus filhos o flagello da cartilha tradicional.» (Cartilha Maternal)

Para isso muito terá contribuído o sonho tornado real na vida do poeta nascido no Algarve, de um país onde o analfabetismo era uma tragédia.

«Ha-de haver meio facillimo, grato, universalmente acessível, de espalhar essa arte, ou antes faculdade, sem a qual o homem não passa de um selvagem.» (Cartilha Maternal)

O ‘método de João de Deus’, que passa por decreto parlamentar de 1882 a ser a cartilha maternal nas escolas portuguesas, ainda hoje mantém seguidores.

« Este systema funda-se na língua viva (…) indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que se digam, que se ouçam, que se intendam(…)» (Cartilha Maternal)

Muito célebre ficou, pelo menos para mim, que bem me lembro, de os amigos e conhecidos dos meus pais, quando me perguntavam o meu nome, recitarem assim:

«-Ó Pedro, que é do livro de capa verde, que te deu o avô ?

- Já o dei ao Jorge a guardar.

- Vai lá pedil-o» (Cartilha Maternal)

 

canalsonora às 14:44

Quinta-feira, 08 de Março de 2012

Quotidianos poéticos

Pedro Jubilot

 

Algures num espaço e tempo do Algarve,

a vida e a paisagem intrometeram-se na poesia de Sophia M.B.A.

 

 

 

Sophia era ainda muito nova quando numas férias de verão leu um livro chamado Mitologia Grega. Isso viria a marcá-la para sempre. A amante da antiguidade grega e das ilhas do mediterrâneo tornou-se mais tarde a eterna viajante pelas terras da literatura clássica. Depois encontrou no Algarve, ali entre a ponta do altar e a baía de Lagos, a mais perfeita semelhança para se inspirar no reinventar do sonho da visão desse mundo perfeito dos deuses gregos: «O esplendor poisava solene sobre o mar. E –entre duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido– quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente.»(1)

Aí nessas praias de Lagos onde embarcava nos pequenos barcos de pescadores que a levavam a passear nas grutas «(…) gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto parece roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra.» (2)

É à sua vivência na cidade de Lagos que irá buscar a luminosidade necessária, para aí com o silêncio e o tempo que se consegue junto à costa algarvia, concretizar versos que seguiriam diretamente para a eternidade da poesia: «Lagos onde reenventei o mundo num verão ido /Lagos onde encontrei /Uma nova forma do visível sem memória /Clara como a cal concreta como a cal /Lagos onde aprendi a viver rente /Ao instante mais nítido e recente», e «Na luz de Lagos matinal e aberta /Na praça quadrada tão concisa e grega /Na brancura da cal tão veemente e directa /O meu país se invoca e se projecta.»(3)

Os verões de Lagos tornam-se parte integrante e fundamental da arte poética de Sophia, encontrando nos elementos desse mundo que a rodeia –a beleza, o equilíbrio e a harmonia espiritual.

«Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água.»(4)

E nunca cessam as comparações entre o imaginário das suas amadas culturas antigas do mediterrâneo com a vida no Algarve:

«A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor». (5)

 

Também sempre presente na obra poética de  Sophia  está o vocábulo ‘Mar’. Esse mar atlântico que a partir da Sagres dos descobrimentos se vai juntar ao mediterrâneo das históricas e sempre desejadas Itália e Grécia.

«Na melancolia de teus olhos/Eu sinto a noite se inclinar/E ouço as cantigas antigas/Do mar. //Nos frios espaços de teus braços/Eu me perco em carícias de água/E durmo escutando em vão/O silêncio.»(6)

Sophia de Mello Breyner faleceu em julho de 2004, em Lisboa, também ao pé do mar, mas não para sempre, pois testamentaria: «Quando eu morrer voltarei para buscar /Os instantes que não vivi junto do mar.» (7)

Assim quando vamos à praia podemos sempre ficar a escutar o mar que parece conter em si a poesia de Sophia, desfilando cada palavra, contida em cada verso trazido em cada onda que chega ao areal.

«Dei-te a solidão do dia inteiro./Na praia deserta, brincando com a areia,/No silêncio que apenas quebrava a maré cheia/A gritar o seu eterno insulto,/Longamente esperei que o teu vulto/Rompesse o nevoeiro.»(8)


Poemas: (1, 2) As grutas; (3)- Lagos I; (4, 5) Arte poética I ; (6) Mar; (7)  Inscrição;  (8) Espera

canalsonora às 23:32

Quinta-feira, 09 de Fevereiro de 2012

Quotidianos poéticos

Pedro Jubilot

 

Algures num espaço e tempo do Algarve,

a vida e a viagens intrometeram-se na escrita de Raul Brandão

  

 

 

Entre 1919 e 1923, Raul Brandão reuniu vários textos para um  livro de crónicas (mas que se poderá colocar na secção da literatura de viagens) sobre alguns dos locais portugueses com  portos de pesca ou simplesmente das  vilas piscatórias mais características de Portugal, descrevendo  a vida suas gentes. Desde a Foz do Douro onde nasceu a 1867, percorreu toda a costa atlântica até ao Algarve. Dedicou-o à memória do seu avó morto no mar.

«Tomo então apontamentos rápidos seis linhas um tipo uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadrinhos do ar livre, são melhores quando ficam por acabar. »

Quando alguém nascido e criado numa cidade costeira do litoral algarvio, nomeadamente em Olhão ou Tavira, abre e lê pela primeira vez  ‘Os Pescadores’ de Raul Brandão (publicado em 1923 )- essa obra singular na história da literatura portuguesa, nunca mais a abandonará cioso que a levem da sua biblioteca. Porque mais do que dar a conhecer os hábitos e costumes do povo e as suas práticas de pesca, é a descrição da atmosfera, da paisagem, da luz, dos sentidos despertos, do olfacto… que mais surpreende pela sua aproximação à realidade, mesmo passados tantos anos.

«Pela portinhola do comboio vou seguindo a paisagem à passagem pela deslumbrante Fuzeta (…) a nora de alcatruzes e um burrinho a movê-la entre as leves amendoeiras em fila, as oliveiras dum verde mais escuro e a alfarrobeira carregadade vagens negras pendentes. Ao longe, e sempre, acompanha-me o mar, que mistura o seu hálito a esta luz vivíssima(…)»

Mas é a Olhão que pertence o capítulo do livro a que dedica mais páginas. Descreve demoradamente, algo único no país, a arquitectura cubista da vila da restauração:

«Cubos, linhas geométricas (…)A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. (…)Subo à soteia – a melhor parte da casa. O homem de Olhão tem por ela uma paixão entranhada(…) sítio esplêndido para respirar, eira para a alfarroba e o figo, (…)e quarto para dormir no Verão sob um pedaço de vela.»

O conhecimento adquirido por experiência própria (familiar), permite a Raul Brandão chegar mais perto das comunidades piscatórias, até porque é conhecedor das artes e engenhos da labuta. Mas esse passado leva-o mais longe, a compreender, os rituais, as manias e feitios destes pescadores. E ainda assim mesmo depois de tudo o que viu, tece aos olhanense um elogio:

« (…) este homem é um homem à parte no Algarve. Se veio de Ílhavo, como dizem, não sei, mas é o único homem arrojado desta costa.»

Também em  Tavira descreve as ruas e a sua arquitectura , tão parecidas ainda ao presente, que se vê bem da fidelidade dos pormenores evidenciados numa escrita baseada na observação e vivência de um viajante que sente:

«Muros muito brancos, de porta e janela, alguns com gelosias, que é a velha e a melhor maneira de manter as casas sempre frescas. A rexa deixa passar o ar e conserva a meia luz: dá intimidade aos interiores. Nas ruas não passa ninguém. Casas apalaçadas,tumulares. Telhados mouriscos, pontiagudos, de quatro águas, muito caiados, e as chaminés do sul(…)»

A parte em que descreve a pesca do atum, essa faz já parte dum mundo de contar a história:

«Nos areais, pela costa fora, há várias armações de atum – Medo das Cascas,Abóbora, Barril, Livramento(…)A armação, engenho muito antigo, cujo nome, almadrava, cheira a árabe, é constituída pelo corpo – dividido em três compartimentos, câmara, bucho e copo – pela rabeira, que se estende até a terra(…)»

O escritor chegou ao Algarve  no esplendor do mês de Agosto em 1922, e parece ter ficado tão enfeitiçado pelo estio destas terras levantinas, que chega mesmo a dizer, quase a segredar que: «...Teria aqui uma casa numa das vielas(…).Aberta a porta, seria um deslumbramento: no pátio caiado,(…) Era viver num meio adormecimento, seduzido pela luz, fora de todos os interesses e realidades, em Portugal e no Sonho...» E quando parte é: «Tarde. Olho pela última vez a brancura imaculada dos terraços com o céu todo de oiro em cima e deixo com saudade esta luz e esta terra embruxada.»

Raul Germano Brandão, que nasceu junto ao mar, sendo filho e neto de homens do mar, e em que o oceano e os pescadores foram um tema recorrente da sua obra, sai do Algarve deslumbradoQuando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa.(…)»

E depois escreve porque:

«Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de Inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado... (…)»

Raul Brandão  faleceu em Lisboa  em 1930 deixando cerca de duas centenas de obras publicadas, mas é através de ‘Os Pescadores’ que nunca esqueceremos a voz do mar.

 

A obra pode ser lida em-

http://docs.paginas.sapo.pt/raulbrandao/Os_Pescadores.pdf

 

canalsonora às 23:21

Domingo, 08 de Janeiro de 2012

Pedro Jubilot

 Quotidianos poéticos


Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a poesia intrometeram-se

na música de José Afonso

 

 


 

Não foi destino ou sorte, mas a vontade que levou Zeca Afonso ao Algarve, lugar ao sul, para onde desejava ir quando chegasse vindo de Moçambique, pois considerava essa  parte do país a mais parecida com África. Tinha sido levado com apenas três anos, pelos tios para Angola, mas é em Lourenço Marques que reencontra os irmãos e os pais. A esse continente voltaria mais tarde para viver ou atuar com o Orfeão Académico de Coimbra e com a Tuna da Universidade.

«Vejam bem /que não há só gaivotas em terra /quando um homem  /quando um homem se põe a pensar».

Depois de ter cumprido o serviço militar entre 1953 e 55, iniciou as suas funções como professor em Lagos no dia 29 de Outubro de 1957, na então Escola Comercial e Industrial Vitorino Damásio. Por onde quer que andasse Zeca era um artista que se inspirava sobretudo na observação da dura realidade da paisagem social, como escreve na canção sobre os ‘indios’ da Meia-Praia de Lagos:

«Tu trabalhas todo o ano/Na lota deixam-te mudo/Chupam-te até ao tutano/Chupam-te o couro cab'ludo/Pescador de peixe ingrato /Trabalhaste noite e dia/Para ganhares um pataco(…)Quem aqui vier morar/Não traga mesa nem cama/Com sete palmos de terra/Se constrói uma cabana».

A sua profissão leva-o a outros lugares dum país silenciado por vários tipos de censura, mas mesmo assim José Afonso vai arranjado maneira de editar os seus discos, conseguindo sempre dar-lhes um cunho de hábil intervenção, como em ‘Menino do Bairro Negro’ em que mais uma vez se refere às condições precárias das populações no litoral, quem sabe reminiscências da infância em África e Aveiro onde nasceu em a 2 de agosto de 1929 …

«Olha o sol que vai nascendo /Anda ver o mar /Os meninos vão correndo / Ver o sol chegar(…) Menino sem condição /Irmão de todos os nus /Tira os olhos do chão /Vem ver a luz».

Lecionará depois também em Faro onde convive  com Luiza Neto JorgeAntónio Barahona e  António Ramos Rosa, seguindo atentamente os sinais de esperança renovadora apontados pela crise académica de Lisboa, em 1962. Assim, trabalhava em Faro, inspirava-se nas docas de Olhão e amava na Fuzeta. Nesse mesmo ano começa a namorar com Zélia, natural da chamada ‘Branca Noiva do Mar’, com quem virá a casar em segundas núpcias. Vejamos como o Zeca descreveu a ideia do single proíbido ‘Ó Vila de Olhão’: «Fiz muitas viagens a Olhão, minha terra adoptiva. A meio do caminho da Fuzeta, entre Olhão e Marim, a vila vai-se adelgaçando, a viagem toma-se mais rápida e ruidosa, devido ao vento que entra pelas janelas. Pode-se berrar sem que ninguém nos ouça. Foi assim que nasceu esta crónica rimada. Servida pela cadência mecânica do “pouca­terra”, versa um tema alusivo às vicissitudes por que passa o mexilhão quando o mar bate na rocha. A culpa não é do mar.»   

Sobre a canção ‘Maria’ do mesmo disco, o ep ‘Cantares de José Afonso’ (Emi/Valentim de Carvalho,1964) diria: «O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores.»

O disco viria a ser reeditado mais tarde com uma versão instrumental de ‘Ó Vila de Olhão’ já que na sua letra fazia alusão a Henrique Tenreiro, dirigente da Junta Central das Casas de Pescadores, onde era delegado do Governo junto dos organismos das pescas, e apoiante do regime do Estado Novo:

« Ó vila de Olhão/Da Restauração/Madrinha do povo/Madrasta é que não/Quem te pôs assim/Mar feito num cão/Foi o tubarão(…)»

Só a seguir ao 25 de Abril de 1974, é que a edição destas canções circula livremente, sendo o referido disco desdobrado em dois singles, um deles contendo ‘Ó vila de Olhão’/’Maria’, que tem na capa a conhecida pintura de Maluda:- ‘OlhãoIV’.
Em 1985, é editado o seu último álbum de originais, ‘Galinhas do Mato’, no qual, devido ao seu estado de saúde, Zeca não consegue interpretar todas as músicas previstas. O álbum acaba por ser completado por José Mário BrancoSérgio GodinhoHelena VieiraFausto e Luís Represas. É por isso que nesse disco, apenas interpreta duas das canções, sendo uma delas o tema ‘Escandinávia Bar’, numa dedicatória a uma conhecida casa que o cantautor frequentava na Fuzeta.

«Senhora do Bom Sucesso /Diz-me onde irei almoçar /Não quero sola de molho/Tenho as tripas a estalar (…)/Por isso não te retenhas /Se tens pressa de chegar /Senhora do Bom Sucesso /Rumo ao Escandinávia-bar».

Acaba por falecer a 23 de Fevereiro de 1987, em Setúbal, outra terra de pescadores, deixando um cancioneiro inigualável. 

canalsonora às 23:23

Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2011

Pedro Jubilot

 Quotidianos poéticos


Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a ficção intrometeram-se

na música de Paco de Lucia

 

 

 

 

Quem se dignar a procurar e deixar levar pela música de Paco de Lucia, ou melhor dizendo, pela sua arte poética instrumental não deixará nunca de ouvir o som da poesia que sai dos dedos das mãos de Lucia ao percorrerem as cordas da guitarra, como quem agrupa sílabas em palavras num criativo desfile de um versejar sonoro.

(Ouvir  ‘Mi Inspiracion’; faixa 2 de «Recital de Guitarra»1971, philips)

De seu verdadeiro nome- Francisco Sanchez Gomez, teve pelo lado paterno o espanhol Don António Sanchez, homem de muitos ofícios, entre eles o de guitarrista - hereditariedade  flamenca também irremediavelmente passada a outros filhos: o cantor Pepe de Lucia e o guitarrista Ramon de Algeciras.

(Ouvir  ‘Alma, Corazon y Vida’; faixa 7 de «En Hispanoamerica» - 1969)

Pelo lado materno, estava Luzia Gomes,  portuguesa, natural da vila de Castro Marim, ali junto ao Guadiana, onde o grande rio do sul separa o Algarve da Andaluzia. Paco de Lucia nasceu a 21 de Dezembro de 1947, em Algeciras. Ali mesmo onde o mar estreita, para deixar ver de um lado o Mar Mediterrâneo e do outro o Oceano Atlântico; para avistar a sul o começo da terra de África e do outro encontrar a velha Europa.

(Ouvir ‘Entre Dos Aguas’; faixa 1 de « Entre Dos Aguas» 1981,polygram)

Todas estas dicotomias criaram a sua vincada personalidade humana e artística contagiada pelo ritmo nervoso e histérico do flamenco, mas que é no entanto uma expressão ao mesmo tempo triste, representando como que o grito dos obstinados. É que, quando ouvimos flamenco, esta música ao contrário do que possa parecer, não é só fiesta, mas é também introspecção, é melancolia e fado, só que apresentada doutro modo. Há guitarra, e há canto com origens árabes. É também (para além de bem) mal de vida. 

(Ouvir ‘Con el Pensamiento’; faixa 1 de « El Mundo del Flamenco», 1971,polygram)

Mas Paco (Francisco, filho) de Lucia, tinha pela sua progenitora um amor inabalável. Dedicou-lhe, pelo menos em título direto, dois dos seus trabalhos:

- «Castro Marin»(1987,philips) e «Luzia» (polygram 1998).

E assim em 1993 sentiu o chamamento dessa velha terra lusa dos antepassados maternos homenageando a origem da mãe num disco chamado precisamente ‘Castro Marin’. Aí Paco tocou através das recordações dos olhos e das palavras da mãe, que há muito deixara a vila da infância.

(Ouvir ‘La Villa Vieja’; faixa 2 de «Luzia», - 1998,polygram)

Em 1998 Lúcia Gomes encontrava-se já hospitalizada. Então pôs-se a caminho de guitarra às costas. Mais uma vez …passou a fronteira para a margem direita da foz do Guadiana. Numa manhã de sol como serão todas as da sua vida, procurou uma velha mas alva de cal casa térrea sentando-se à soleira passando algumas horas a discorrer até encontrar as necessárias notas: com fresco a brisa de sudoeste (contrária ao levante do estreito), de cheiro a terra um pouco menos seca ou mesmo da humidade das salinas.

(Ouvir  ‘Monasterio de Sal’; faixa 1 de «Castro Marin» - 1987, philips)

Depois deixando atrás de si como paisagem de fundo a imponente fortificação raiana da idade média portuguesa partiu levando de volta nos sons da guitarra memórias da sua origem, que a mãe precisava para fechar o seu ciclo de vida, tocadas como só ele sabe tocar uma alma adivinhando-lhe o destino. As ‘mãos de prata’ que dedilham a guitarra movem-se dirigidas para quem tem um coração de ouro. Ela viria a falecer por altura das sessões de estúdio para a gravação de ‘Luzia’. Que outro nome podia dar à luminosa música trazida de oeste para a fazer descansar em paz.

(Ouvir ‘Luzia’; faixa 5 de «Luzia», - 1998,polygram)

De Lucia, que se tornou internacionalmente famoso através da sua participação com Ai Di Meola e John McLaughlin no célebre disco ao vivo «Friday Night In San Francisco»(1980,polygram) continua ainda a trabalhar na sua eterna tarefa de renovar o flamenco para ao mesmo tempo poder mantê-lo puro, através de uma sofisticação técnica sem descurar nunca o lado da emoção, essa que é afinal a essência da sua arte musical. Em agosto de 2005 fê-lo ao vivo perante uma entusiasmada plateia no estádio municipal de Castro Marim, sendo este o primeiro local no Algarve a receber um concerto do grande Mestre da Guitarra espanhola e do Flamenco. 

(Ouvir ‘Solo Quiero Caminar’; faixa 1 de «Solo Quiero Caminar» - 1981, philips)

 

Discografia:  http://www.pacodelucia.org/ 

canalsonora às 15:34

Terça-feira, 01 de Novembro de 2011

Pedro Jubilot

 Quotidianos poéticos


Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a ficção intrometeram-se

na poesia de António Aleixo 

 

 

 

 

António disse um certo dia sobre uma amizade sua:

«Não há nenhum milionário /que seja feliz como eu:/tenho como secretário/um professor do liceu.»

Falava do seu amigo Joaquim Magalhães, editor e transcritor desse livro que Aleixo nos deixou, e que no prefacio escreve que… ‘o poeta está, afinal, mais vivo hoje, do que enquanto andou pelo mundo’. (v.r.s.antónio,1899-loulé,1949).

«O homem sonha acordado/Sonhando a vida percorre/E desse sonho dourado/Só acorda, quando morre!»

É hoje reconhecido como o maior dos poetas populares, pela jactância dos seus versos que denotavam uma capacidade de improviso fora do comum, aliada a uma visão crítica da natureza humana, sem tempo nem lugar. Actual, pois:

«Tu, que tanto prometeste/Enquanto nada podias,/Hoje que podes -esqueceste/Tudo quanto prometias…»
Mas devia parecer estranho aos seus contemporâneos e conterrâneos ver um homem pobre e com um trabalho, ainda que precário, a debitar quadras soltas de versos irreverentes sobre o comportamento de homens de diversas classes sociais, um pouco à semelhança do que fazem hoje das rimas os jovens poetas orais urbanos. Soa forçado dizer, mas ele era já quase como que um rapper, muito antes do tempo da comunicação livre:

«Uma mosca sem valor/Poisa c'o a mesma alegria/na careca de um doutor/como em qualquer porcaria.»  

Era poeta andante porque era um trabalhador itinerante. Ora porque pastando rebanhos ou por ser cauteleiro.

«De vender a sorte grande,/confesso, não tenho pena;/que a roda ande ou desande/eu tenho sempre a pequena.»

Deslocava-se por feiras e mercados ou pelas festas das aldeias do concelho de Loulé, cantando não só os números que se queriam que fossem da sorte, mas as palavras do coração repletas de dor, ironia e sobretudo duma verdade dita de forma simples mas por vezes acutilante.

«Quem nada tem, nada come;/ E ao pé de quem tem comer,/Se alguém disser que tem fome,/Comete um crime, sem querer.»

E assim foi levando uma vida de sofrimento e dificuldades para sustentar a família com os seus míseros ganhos.

«Sei que pareço um ladrão.../mas há muitos que eu conheço/que, sem parecer o que são,/são aquilo que eu pareço.»

Desabafava na sua poesia improvisada a cantar para o povo os seus sentimentos face à injustiça social. Mesmo falando dos ricos e poderosos, as suas palavras não os afectaram directamente. Talvez porque o seu público, ocasional, não era assim tão vasto e importante. Aleixo era doente, pobre e considerado pouco qualificado para que isso pudesse provocar algum tipo de problema ao estado e às instituições.

«Sem que o discurso eu pedisse,/Ele falou; e eu escutei./ Gostei do que ele não disse;/Do que disse não gostei

Tudo isso mudou, quando a força das suas quadras se transformou em palavras impressas, a circular de mão em mão, aquando do lançamento do seu primeiro livro ‘Quando Começo a Cantar’, começado a vender no dia 25 de Abril de 1943, domingo de Páscoa, por iniciativa do Circulo Cultural do Algarve. A páginas tantas lê-se assim:

«Vós que lá do vosso império/prometeis um mundo novo,/calai-vos, que pode o povo/qu’rer um mundo novo a sério.»

Hoje passa os dias sentado e calado numa estátua da autoria do Mestre Lagoa Henriques(também fez o pessoa da brasileira), ali à porta do Café Calcinha (fundado em 1929), que frequentou em Loulé.

«Vai-se uma luz, outra existe,/nova aurora nos seduz;/deve ser muito mais triste/ a gente deixar a luz.»

Provavelmente, já que se diz que a história se faz de ciclos, talvez os versos de Aleixo se voltem a colocar nas bocas deste mundo, em crise de dinheiro e valores. Peguemos então nas suas palavras.

«O mundo só pode ser/melhor do que até aqui,/-quando consigas fazer/mais p’los outros que por ti»

 


Bibliografia: António Aleixo ‘Quando começo a cantar’ – 2ª Edição, Coimbra, 1948

canalsonora às 15:06

Quinta-feira, 06 de Outubro de 2011

Pedro Jubilot

 Quotidianos poéticos


Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a ficção intrometeram-se

na poesia de Álvaro de Campos

 

 

 

 


Na conhecida carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Janeiro de 1935, Fernando Pessoa escreve sobre a génese dos heterónimos: « Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1,30 da tarde, (…)é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade.»

Para além disso criou-o à sua imagem e semelhança. Desde o seu retrato físico: 1,75 de altura, mais dois centímetros do que ele; à sua vida : transportando-o para uma vivência da sua infância adaptada à realidade algarvia: “Meu horizonte de quintal e praia!”; “Na nora do quintal da minha casa o burro anda à nora, anda à nora / E o mistério do mundo é do tamanho disto”.

Mas só por conhecer bem a terra, podia Fernando Pessoa ter sentido assim uma chegada de Álvaro de Campos a Tavira, parando diante da paisagem:

«Cheguei finalmente à vila da minha infância./Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei./(tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).Tudo é velho onde fui novo».

E ei-lo depois, ali na cidade observando a  paisagem vista da mesa do café que convoca um «Chá com torradas na província de outrora(…) Na ampla sala de jantar das tias velhas »ali no nº40, do largo da Alagoa defronte à antiga igreja da Nossa Senhora da Ajuda.

Mas o homem de gabardine cinzenta levanta-se, e sente: «Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais a mala. De repente avanço seguro, resolutamente»a pé pela velha ponte romana sobre o rio de uma maré-baixa. Olha pró lado da barra e pressente ao fundo «Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,/ E depois as praias próximas, os cais vistos de perto.  Depois vira para um bonito jardim florido que tem já um coreto vindo da fundição do ouro no Porto.

Já na residencial ‘Sécqua’ o homem que de roupa interior branca que acende um cigarro, aparece reflectido no espelho do guarda-fato, como um «(…)tipo judeu vagamente português de cara rapada». Da janela do seu quarto observa a mulher que chega num carro preto, olhando para o edifício, fugindo da chuva oblíqua. Toca a campainha e sobe apressada. Quer saber qual a porta do Sr. Engenheiro. Bate e ele abre-a. Traz cartas, mapas e  projectos. E também alguns livros. De novo só, o homem «alto e magro de cabelo liso aparado» tem febre e escreve : «cada rua é um canal de uma Veneza de tédios», a frase solitária que surge na folha logo que premidas as teclas da máquina Royal. Pensa que esta poderá bem ser a sua última visita a «Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira. Sou forasteiro, tourist, transeunte».

Ninguém escolhe onde nasce, muito menos poderia um heterónimo. No entanto esta origem de Álvaro de Campos não é fortuita, uma vez que o seu criador tinha mesmo vários familiares ali na antiga cidade de Tavira. Mas é talvez da influência do seu tio-avô- Jacques C. Pessoa, essa histórica figura : ‘livre-pensador’ (como escrito na sua lápide funerária no cemitério de Tavira), que se reforma o Pessoa de Fernando e se forma a nova pessoa em Álvaro de Campos.

Ou então, tal como diz Teresa Rita Lopes, ‘Álvaro de Campos é o retrato melhorado de Pessoa’, é através de Álvaro de Campos que Fernando Pessoa se libertava, que viajava, que amava, que se elevava. Este heterónimo era tão importante para ele que tinha uma vida para além da escrita dos poemas. Tanto assim foi que acabou por sobreviver ao próprio Pessoa. Campos ainda assinava poemas em 12 de Outubro de 1935, um pouco antes da morte de Fernando Pessoa, coisa que este então já não fazia.

A importância actual da poesia de Fernando Pessoa no universo literário universal deve muito aos versos de Álvaro de Campos. Alguns dos mais importantes poemas da sua obra foram escritos por Campos, como por exemplo aquele que é considerado como dos mais importantes e mais traduzidos poemas do séc.20- ‘A Tabacaria’. É através de Álvaro de Campos que Pessoa se tornou a grande figura da literatura portuguesa aquém e além fronteiras.

Álvaro Campos é o mais moderno «Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes.; o mais filosófico «Não sou nada/Nunca serei nada.Não posso querer ser nada/Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo»; mas também o mais  sentimental «Mas,  afinal,/só as criaturas que nunca escreveram/Cartas de amor/É que são/ Ridículas» e temperamental «Nada me prende a nada./Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.» É o mais cosmopolita «Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis, /(…)nos Ascots,/ E Piccadilies e Avenues de l’Opera que entram/Pela minha alma dentro!», mas o mais regional «E fui criança como toda a gente./Nasci numa província portuguesa» …..e mais ligado às raízes familiares«o relógio tictaqueava o tempo mais devagar/(…)o chá das noites socegadas que não voltam»

Agora tem uma biblioteca, uma rua e uma associação cultural com o seu nome na sua cidade, mas ainda é pouco para o poeta, sobre o qual Pessoa confessou:

«(…) pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida».

 

 

 

Bibliografia:

Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro;

Poemas de Álvaro de Campos(várias edições).

 ‘Alvaro de Campos, engenheiro de Tavira’ edição Casa Álvaro de Campos-Tavira,2011.;

Teresa Rita Lopes, ‘Vida e Obras do Engenheiro’,1990,estampa.


canalsonora às 00:35

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Canal Sonora / Pedro Jubilot  está em  facebook 

  

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canalsonora às 10:48

Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

Pedro Jubilot   

Quotidianos poéticos  

Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a ficção intrometeram-se

na poesia de Florbela Espanca

 

 

 

Nenhuma poetisa poderia querer viver em 1918 numa pacata terrinha como Quelfes (freguesia de Olhão), ainda que aconselhável pelos bons ares, muito menos Florbela Espanca que já pouco vivia por esses dias.

"Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com a vida e com os outros. E é isto que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive..."

Sabia desde logo que esta espécie de retiro forçado era mais um exílio que de nada serviria à sua instabilidade emocional, mas tivera de ceder a vontades matrimoniais, e já que por questões de saúde (um aborto) se sentia fraca e febril (desconfiava-se de uma tuberculose) e queria voltar a estar forte…

“estou farta disto tudo. Se me vejo daqui para fora não acredito, mas o raio do médico diz que se me vou embora não duro seis meses..”

Percebera de antemão que de nada serviria a uma pessoa deslocar-se para um sítio isolado e desinteressante, longe de tudo e todos. Se ela no seu corpo e alma é já uma ilha que rodeada de um espírito solitário e incompreendido.

"O silêncio é às vezes o que faz mais mal quando a gente sofre."

“Sou bem diferente, sou, das outras mulheres todas. Eu quero antes os meus defeitos que as virtudes de todas as outras."

A parte afectiva do casamento com Alberto Moutinho estava irremediavelmente perdida, a separação do casal já se vislumbrava e Florbela começa a perceber que dificilmente poderia vir a ser mãe devido à sua frágil saúde.

«E este amor que assim me vai fugindo- É igual a outro amor que vai surgindo, -Que há-de partir também... nem eu sei quando...»

Dali da casa perto do largo da igreja sente de repente o apelo do cheiro a iodo vindo da ria e deseja ter um automóvel, para tomar a estrada longa da fantasia, no acidentado caminho que a leve até ao grande pinhal de Marim. Mas ela como poetisa ilustre, grande, fez um voto de pobreza, e não tem automóvel, aliás não tem nada, foi o que escreveu numa carta ao seu amigo e editor Guido Batelli.

"Tenho que aprender o que ainda não sei: a ser humilde e modesta. Perdoe sempre o meu ridículo orgulho de pobre soberba; mas o orgulho tem sido a minha suprema defesa, tem sido o meu amparo e a minha força."

À margem chegada resta-lhe seguir com o olhar as gaivotas de asas pardacentas no seu voo planado e tranquilo sobre a laguna salgada mas calma demais aos olhos de para quem o mar só pode ser agitado como toda a vida natural e humana de que sente rodear-se.

«Falo às gaivotas de asas desdobradas, -Lembrando lenços brancos a acenar, -E aos mastros que apunhalam o luar- Na solidão das noites consteladas;» 

Ali, frente à ilha barreira da Armona, e mesmo perante a beleza de tal idílica paisagem não consegue refazer-se do desgaste acumulado pela situação física e psicológica em que se encontrava.

"A única coisa que consola os tristes é a tristeza - a alegria irrita-os."

A amenidade do clima algarvio apenas reforçou as saudades da vida citadina e cultural e do meio intelectual em que desejava participar. Isso fê-la odiar o lugar onde estava retida por esses dias, a que simplesmente chamava Algarve.

"Eu não sou boa nem quero sê-lo, contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um."

Tinha de voltar aos estudos e à criação poética. A partida estava iminente.

Da sua fugaz passagem ficou na estrada junto à casa, uma lápide colocada em Março de 1985, homenagem dos seus admiradores, a assinalar o edifício onde viveu um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos.

"Apesar de tudo, a loucura não é assim uma coisa tão feia como muita gente julga. Há tantas loucas felizes!"

 

 

Bibliografia:

Vilhena Mesquita-‘FE na vila de Olhão’separata de ‘A Voz de Olhão’,1996 ;

Cartas e poemas de Florbela Espanca

canalsonora às 01:44

Terça-feira, 02 de Agosto de 2011

Pedro Jubilot   

Quotidianos poéticos  

Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a ficção intrometeram-se

na poesia de Bryan Ferry 

 

 

Em pleno ano da revolução dos cravos de 1974, Bryan Ferry instalava-se incógnito algures na costa do barlavento  algarvio, aliando o lazer à intenção de se inspirar para escrever temas para um novo disco, para o qual apenas tinha um vago título,  que se formaria com as palavras  ‘country’  e  ‘life’.

-Oh here it comes again -That old ennui -I hope it won't stay long -If you're feeling low -Nothing's going right -You just make a wish.(1)

Country Life’ acabaria mesmo por ser o nome do álbum seguinte dos Roxy Music, cuja relva representada na capa pertence a chão algarvio, naquela que seria a mais ousada da sua discografia em contraponto com o menos conseguido long-play da banda, apesar de neste se incluir o sucesso ‘Bitter Sweet’. A canção que usa versos em língua alemã, foi inspirada na convivência com Eveline Grunwald e Constanze Karoli, as duas raparigas alemãs (também na capa) que o letrista conheceu por cá. Ferry, que estava acompanhado por Anthony Price e Eric Boman, respectivamente desenhador de moda e fotógrafo oficial do colectivo musical anglo-saxónico, encontrou as duas ‘valquírias’ num bar, transportando debaixo do braço discos em vinil dos RM. Elas eram namorada e prima de Michael Karoli guitarrista dos Can, banda alemã precursora do movimento krautrock. Mas foi quando se passeavam com elas de barco por entre as grutas das rochas, que os ingleses perceberam que aquelas criaturas eram perfeitas para o cenário soft-porn que desejavam para a capa.

Sometimes I´m quite amused -To see it twist and turn -To taste -both sweet and dry.(2)

Mas um belo dia, o dever (isso também acontece com as estrelas de rock) chamou o cantor  de volta para a frenética ex-Swinging London,  através de um telefonema do seu agente a exigir trabalho de estúdio e promoção. Despediu-se com pena de deixar as suas musas germânicas,  pedindo-lhes que traduzissem para um guardanapo de papel que guardou no bolso, um par das suas  famosas últimas palavras:

-Das ist nicht -Das ende der welt -Und das spiel geht weiter -Wie man weiss .(3)
Em 1982, o poeta Bryan voltaria ao Algarve,  mesmo que apenas por uma só noite, desta vez como cabeça de cartaz de um concerto inesquecível no estádio de S.Luís, em Faro.

-More than this -there is nothing - It was fun for a while - There was no way of knowing - Like dream in the night - Who can say where we're going.(4)

Com Phil Manzarena, Andy McKay  e a restante orquestra Roxy M., Ferry impôs o seu charme de crooner numa noite tropical, através das canções pop de ‘Flesh&Blood’  e ‘Avalon’ , o último disco de originais lançado pelo grupo inglês e aquele que mais vendas e êxito obteve.

 - Well this is such -A sad affair -I´ve opened up my heart  -So many times -But now it´s closed.(5)

Agora BF continua a cantar em resorts de luxo e a passear-se com os seus filhos e as namoradas pela relva dos melhores campos de golfe do mundo, no Allgarve, claro!

-It's so easy, believe me -When you need fun -Spring Summer whenever -I'd do anything to turn you on.(6)

-----------

(1)  oh lá vem de novo -aquele velho tédio - eu espero que não dure muito –se te sentes em baixo -e nada está a correr bem – tu tens de pedir um desejo.

 (2) às vezes estou bastante divertido -a ver isto a rodar e virar - a saborear -ambos doce e seco.

 (3) isto não é  -o fim do mundo  -e  o jogo continua  -como nós sabemos.

(4) Mais do que isto – não é nada –foi divertido por um bocado – não havia maneira de saber –como um sonho na noite –quem possa dizer para onde estamos a ir.

(5) bem este é um tão  -triste encontro -eu tenho escancarado o meu coração -tantas vezes -mas agora está fechado.

(6) é tão fácil, acreditem-me –quando te precisas divertir –primavera verão ou qualquer altura –eu farei qualquer coisa para te impressionar.

canalsonora às 14:40

Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Pedro Jubilot

série: Quotidianos poéticos 

 

Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a ficção intrometeram-se

na poesia de Manuel Teixeira Gomes 

 

 

 

A primeira namorada era da praia de Ferragudo ali junto à foz do Arade, - de areia fina e doirada, rochas de pitoresco recorte emergindo do mar cerúleo, árvores floridas, como a amendoeira, debruçando-se sobre as águas tranquilas de curtas enseadas -. Mas tal como Corto Maltese, Manuel Gomes pensava das mulheres que seriam maravilhosas se pudéssemos cair-lhes nos braços sem ficar nas suas mãos. Por isso só aos 39 anos, Teixeira Gomes se decide casar com Belmira das Neves, jovem algarvia proveniente de uma família de pescadores. Andou pelo mundo mas a mulher que geraria as suas duas filhas estava mesmo ali ao lado. Outros dirão depois que tal demora se devia (também tal como o herói de Hugo Pratt) a diversas orientações afectivas. 

Da então Vila Nova de Portimão parte - pus-me a correr mundo para me certificar como era incomparavelmente bela a minha terra-. Por causa dos figos secos algarvios que a família negociava conheceu a Europa e o Mediterrâneo; para estudar passou por Coimbra e Porto; e politicamente ocupa o cargo de Ministro dos Estrangeiros em Londres, vai à Escócia, é diplomata em Madrid e Londres, chegando ao Palácio de Belém em 1923. O então Presidente da República explica assim por que resignou ao cargo em 1925: -A política longe de me oferecer encantos ou compensações converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia a dia, vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas -.

Em seguida embarca no paquete grego Zeus para o chamado auto-exílio argelino, apesar de considerar, e ele sabia-o melhor que ninguém, que - a realização perfeita da paisagem marítima grega, tal como os poetas da antiguidade a conceberam, está entre o troço da costa do Algarve, entre a ponta do Altar e a ponta da Piedade, isto é, desde a barra de Portimão até ao fecho da baía de Lagos - .

Mesmo depois de morto (1941) continuou a viajar. Regressa de Argélia para Portimão em 1950, chegando os seus restos mortais ao Algarve, ironicamente num dia de chuva, ele que tanto amava a luz do sul. Mas mesmo assim ainda teria direito a mais uma subtil provocação ao estado novo. Foi recebido por familiares (as filhas Ana Rosa Calapez e Maria Pearce de Azevedo), velhos amigos e admiradores. Mas também  por novos opositores ao regime que ali se manifestaram, apesar de se saber de antemão que a PIDE  iria aparecer na cerimónia. Nesse dia foram efectivamente presos alguns dos democratas, que tal como ele estavam descontentes com a situação que o fez abandonar o país em 1925 para Bougie, uma Sintra à beira-mar mediterrâneo, mas também por uma necessidade porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, aos meus livros, justificou-se.

 

 

Bibliografia: Teixeira Gomes, ‘Agosto Azul’;1904.

http://www.presidencia.pt

http://www.leme.pt/biografias/portugal/presidentes/gomes.html

 

Discografia: ‘Obras de António Fragoso’,  Miguel Henriques(piano); Numérica, 2007. 

canalsonora às 15:01

Sexta-feira, 03 de Junho de 2011

Pedro Jubilot

 

série: Quotidianos poéticos  

 


Algures num espaço e tempo do Algarve, a vida e a ficção intrometeram-se

na poesia de António Ramos Rosa

 

A terra deste poeta será sempre aquela a que chamamos a nossa terra. Para confirmar basta olharmos também para o céu e descrevermos com ele o lugar onde quase todas as casas têm açoteias, deitava-me nas noites de verão, sobre o ladrilho e contemplava, deslumbrado, o coro universal das constelações vibrantes no leque total do firmamento. Talvez por isso tenha criado uma revista de nome Cassiopeia.

Nunca deixando que os sentidos se fechassem para além das palavras, pertenceu à direcção fundadora do Cine Clube de Faro em 1956, para mostrar a arte onde para áquem da imagem, o movimento que, incessantemente, a constitui e a abre ao mundo, na relação vital entre a formação pictórica e a constituição do real na sua inicial indeterminação.

De Faro, onde era dirigente do MUD–Movimento de Unidade Democrática Juvenil, participou na organização de um dos encontros da Semana da Juventude, que no mês de Março de 1947, reuniu na mata de Bela Mandil (Olhão) jovens vindos de todo o país. Ali, no esplendor da relva primaveril António faria um empolgante discurso contra o nazismo e o fascismo. Mas quando depois a polícia chegou dispersaram-me os amigos - tenho o coração confundido e a rua é estreita em cada passo - as casas engolem-nos, sumimo-nos - num quarto só com os sonhos trocados - com toda a vida às avessas. Ainda assim entraram a cantar nas ruas de Olhão, os versos de uma canção heróica do compositor F. Lopes Graça, que também ali estava nesse dia: Olhai que vamos passar,  Nosso canto é de verdade; Vinde connosco lutar, Nós somos a liberdade.

Pouco importa que se diga que Ramos Rosa é um dos mais importantes poetas portugueses vivos, se a imortalidade já lhe foi oferecida em vida. Mastambém isso pouco lhe importa já que para ele …é a criação poética… a mais profunda satisfação e me recompensa de todas as vicissitudes e infortúnios…e das …homenagens e dos prémios, embora gratificantes, se situam na periferia e não no cerne da minha vida poética.

Um homem que assim não pôde adiar o amor, nem a liberdade, nem a vida para outro século é um homem sem quotidiano, ou melhor, sem tempo.

 

a roda do MUD

 

bibliografia: António Ramos Rosa, ‘Prosas seguidas de Diálogos’ (4águas,2011); Excertos de poemas de Ramos Rosa.

discografia: Fernando Lopes Graça - ‘Canções Heróicas’, LP –Valentim de Carvalho,1974. 

fotografia: pesquisa google

canalsonora às 10:43

Domingo, 10 de Abril de 2011

Pedro Jubilot  

'Hotel Abril'

 

conto publicado em cultura.sul / postal do algarve

http://issuu.com/postaldoalgarve/docs/32cultura.sul

 

 

 

            O Portugal de 1973 era um país já demasiado triste e cansado, à espera de algo que acontecesse.

   Nos estádios de futebol, o Pantera Negra, que já dera o seu melhor, continuava exilado num país de que há muito o obrigaram a ser. Não podia sair da Luz, mas já começava a entrar no túnel da inevitável decadência.

    A Diva, de tanto lhe doer a voz e a alma, incluía já no seu repertório, canções de vários géneros e línguas, que se desviavam da essência do seu fado, indirectamente afastando-se da forçada colagem ao destino do seu país. No entanto, essa perda de identidade criativa, é que a mantinha ainda livre. 

    Na televisão, ainda a preto e branco, Nossa Senhora de Fátima continuava a proteger semestralmente a nação de todos os males com a benção de um estado que continuava a chamar-se novo, ao fim de 48 anos.

    E… havia uma juventude, que tinha de tornar-se adulta por força das circunstâncias da guerra ultramarina, da falta de estudos e de uma estimulante vida cultural, e de ter de arranjar um trabalho, pois que nesses anos os pais não ganhavam o suficiente para se poderem manter os filhos no sonho etéreo da adolescência por muito tempo.

    ‘Trrrriiiiin…..trrrriiiiin….trrrriiiiin….’ tocavam assim os telefones num som grave, orgânico, terrestre, subterrâneo  e utilizavam-se para se dizerem coisas realmente importantes. Boas ou más. Por isso Augusto sentia um arrepio de cada vez que o ouvia. Tremia só de pensar, que lhe iam comunicar o dia e a hora de embarque para as colónias portuguesas do Ultramar. Ainda para mais agora que estava tão perto de completar os seus vinte anos de idade. O serviço militar obrigatório era a sua sombra mais negra. Não conseguia equacionar a possibilidade de atingir a idade adulta sem chegar a realizar-se como homem. Que desespero e opressão sentia ao pensar que poderia ser mais um nas intermináveis listas de anónimos desaparecidos em combate que o seu irmão às vezes mencionava em conversas com os amigos.

    Nunca mais esquecera a memorável noite que juntou no pavilhão de Cascais todos aqueles monstros sagrados do Jazz. Ficara deslumbrado com a arte daqueles fabulosos músicos afro-americanos. Um festival que em cartaz tinha nada mais nada menos que uma miríade de estrelas que incluía Ornette Coleman, Dexter Gordon, Keith Jarrett, mas sobretudo Miles Davis, o grande inventor de estruturas sonoras cheias de modernidade. Aquela noite foi uma autêntica pedrada no charco movediço da sua existência, mas não apenas em termos musicais. Tudo nele e à sua volta transbordava de emoções. Desde a imagem atemorizante da polícia de choque que rodeava o recinto, passando pela dedicatória de Charlie Haden aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique, ovacionada por uma audiência sedenta de mudanças e de apoios do exterior, até à resposta do público com a exibição de panos pintados com curtas frases apelando ao fim da guerra colonial. A ousadia do músico valeu-lhe uma visita às instalações da PIDE na rua António Maria Cardoso. A efervescente assistência quase acabou espancada e sem espectáculo. Mas aí Augusto percebeu que não estava só. É certo que tinha mais inimigos invisíveis do que amigos visíveis, o que nem sempre é uma desvantagem, mas tudo aquilo que foi presenciando ao longo desses dias foi claramente importante para formar a sua personalidade como indivíduo. Desde então ficou com a certeza de que a polícia já o havia referenciado como uma das regulares presenças nos festivais de música contra a corrente opressora do regime que continuava a ter a eterna aura do estadista mais discreto do mundo.

    Decidiu-se finalmente a levantar o pesado auscultador do telefone mas descansou ao ouvir a voz do seu amigo Jorge. Sentiu-se reconfortado. Esta chamada era das boas. O que de melhor se podia arranjar por aqueles dias. Assim, um conjunto musical tão recentemente formado por quatro músicos de Lisboa que nem nome ainda tinha, vai abrilhantar a passagem de ano a um hotel do Algarve. A noite de Reveillon correu tão bem de animada que no dia seguinte acabam por ser convidados, e logo passando a contratados para banda residente da época baixa, isto é, até ao dia 31 de Maio. Nada mau naqueles difíceis tempos. Poderiam assim amealhar alguns escudos, que muito bem-vindos seriam para todos eles.

   Embora os primeiros dias do novo ano da graça de 1974 tenham sido chuvosos, e depois também um pouco frios, fustigados pelo vento norte – logo o céu se limpou dando lugar a belos e azuis dias. Dias de Algarve, como costumavam chamar àqueles dias amenos.

   Janeiro fora já se notava que o dia tinha uma hora mais de sol, e Fevereiro denunciava o aumento das temperaturas mínimas e máximas no mercúrio dos termómetros expostos junto à porta da sala de refeições que dava acesso à esplanada. Daí a vista do alto hotel sobre a praia permitia-lhes admirar os navios que cruzavam o Oceano Atlântico em direcção ao Estreito de Gibraltar para entrarem no Mar Mediterrâneo ou então navegando para ocidente. O olhar de Augusto dotava-se de um novo brilho ao imaginar-se a bordo dum qualquer barco que o levasse a caminho de França, de preferência, pois aí encontraria músicos e outros artistas seus conterrâneos por ali exilados, mas tanto lhe fazia desde que conseguisse chegar a porto livre. Já tinha pensado que poderia tentar embarcar nos cais de Lisboa como passageiro clandestino, mas disseram-lhe que era muito arriscado porque as docas estavam cheias de bufos informadores da DGS. 

   O rapaz sentia-se feliz na companhia dos amigos mas por vezes mostrava-se bastante nervoso e impaciente. Nos tempos livres jogam às cartas ou tentam conhecer turistas estrangeiras que lhes proporcionem novas experiências. E profissionalmente até têm um local de ensaio com bom material de som disponível. Contudo nos momentos em que fazem longos passeios pela praia, o seu semblante modifica-se, pois é aí que espera encontrar a mulher que enviada pelo irmão lhe trará informações para o seu contacto para o salto para Espanha. 

   Tudo parece correr às mil maravilhas, quando no fim do mês de Março são informados pelo gerente que ocorrera um problema nos bancos e não lhes podia pagar já. Mas só que não tinham nada a temer que o patrão era homem de palavra, para mais muito rico e muito importante. Tinham de ter paciência e esperar alguns dias. Estas coisas às vezes acontecem no mundo dos negócios. E não lhes faltaria nada como até ali, foi-lhes dito pelo senhor Ramos, que desde aí passaria a ser conhecido entre os músicos por ‘lambe-botas’.

    Durante Abril, mesmo sem receber há quase um mês, teimam em honrar a sua palavra, embora já a muito custo suportassem a monotonia que se começava a instalar naquela sua especial estadia numa unidade hoteleira que não se percebia estar à beira da falência. Os ‘standards’ de hotel, canções-êxito ao género romântico de Sinatra ou Nat king Cole, que o contrato indicava que repetissem noite após noite, revelava o pouco conhecimento do ignorante gerente Ramos perante a mudança de gostos musicais dos seus clientes estrangeiros, e também dos portugueses. Estes pediam aos músicos para tocar Beatles, Stones, Shadows, ou mesmo Bob Dylan e Led Zeppelin. Os músicos acediam. Como já pouco tinham a perder não viam porque não ignorar esse ponto do acordo e era isso que ainda os conseguia animar a cada dia e noite que ali passavam. Tanto que numa dessas noites o metódico Ramos lhes perguntou que raio de série musical era aquela que agora lhes tinha dado para tocar há já alguns serões.

   ‘Nada de jeito, coisas que os clientes nos pedem, já se sabe como são os ingleses, têm gostos estranhos’, desculparam-se airosamente perante a falta de informação musical demonstrada pelo ridículo homenzinho, que de dia para dia se mostrava mais preocupado com a situação do hotel. Então estava bem assim. Na verdade ninguém se queixara. Já que os clientes queriam, isso era bom para o negócio, acabou por concordar o mesquinho Ramos.

   Lá para o fim do mês numa noite que estivera pouco animada, a banda recolheu-se mais cedo mas desanimada com a situação, terminada que estava a sua primeira e única série de temas da noite, pois todos os poucos clientes já se haviam retirado. Pouco habituados a dormir cedo ainda ficaram por ali estendidos a conversar e a ouvir rádio no quarto que os albergava a todos. A meio da tertúlia, ouve-se a canção portuguesa concorrente ao Festival Eurovisão da Canção desse ano.

   ‘O Paulo tem uma grande voz, não acham?!’

   ‘É! Mas gostava mais de o ouvir nos Sheiks. Ainda cheguei a ensaiar com eles uns dias.’

   ‘Eu acho que não! Aquilo era uma imitação da música inglesa, ao jeito dos Beatles. Temos que defender a nossa música, a nossa língua.’

   ‘Pois, e a nossa pátria, as nossas colónias, o império…’, escarneceu o nervoso Augusto levantado o tom de voz.

   ‘Ei, amigos, calma, não estamos aqui para isso, mas para esquecer isso.’

   ‘Como é que eu me posso alhear disto Jorge, mais cedo ou mais tarde, vêm buscar-me e vou lá bater’, continuou Augusto.

   ‘Vamos com calma pessoal, temos de manter este contrato até ao fim. E já falta tão pouco. Deixem-se disso, amanhã é outro dia.’

   ‘Talvez… o primeiro dia do resto da minha vida…estou aqui tão perto de Espanha, tenho um contacto para arranjar alguém que me passe pelo rio Guadiana. Eu quero ser músico…e poder expressar a minha arte e as minhas ideias livremente. Não quero ser animador de presos em Peniche. Nunca mais me vou esquecer da primeira vez que fui a um concerto. Eu estava lá na noite em que prenderam o Charlie Haden no festival de Cascais. Desculpa-me só te dizer isto agora, mas foi mais por causa disso que eu vim para cá…e claro por que somos amigos há tantos anos, mas Rui, por favor vê lá se consegues falar amanhã com o forreta do Ramos, e arrancar-lhe algum deste dinheiro.’

   ‘Calem-se lá por favor, deixem ouvir isto’, pediu o Mário. ‘Isto não é possível, isto…não é possível… o Zeca Afonso na Rádio Renascença? Passa-se ali algo de estranho, isso é o «Grândola Vila Morena» malta, e eu que pensava que isto estava censurado.’

   ‘Então rapazes, eu sou o vosso agente, arranjei-vos este emprego, dou-vos comida, cama lavada e whisky todos os dias, e mesmo assim não se acalmam? Vamos mudar de assunto, sim?! ’

   Nisto batem à porta do quarto.

   ‘Porra! Não vos disse para se calarem…Quem é?’ perguntou Rui.

   Abriram a porta ao recepcionista que trazia um recado para o Sr. Augusto Lacerda, uma chamada de Lisboa. Era o seu irmão que lhe queria dar uma palavrinha. 

   Quando Augusto volta do telefonema, deita-se na cama, calado mas sereno e parecia mais feliz do que quando saíra porta fora.

   ‘Está tudo bem?’ Querem saber, como se fossem um coro e não instrumentistas.

‘Sim. Está! Está tudo bem! Mas não desliguem a telefonia…desculpa Rui, ter reagido assim, mas tenho andado muito tenso…eu não queria ir para a tropa, mas oxalá as coisas mudem esta noite…’

   ‘Porque é que estás a dizer isso? Porquê esta noite? Quem é que te ligou? O que é que se está a passar, Augusto?

   ‘…bem, é que hoje faço anos e o meu irmão mais velho, que estava de serviço no quartel, fez questão de ser o primeiro a dar os parabéns ao benjamim da família.’

   Aí os músicos entoaram a sua versão da canção mais ouvida em todo o mundo. Esse ‘Parabéns a Você’ só foi silenciado quando se ouviu a voz colocada de Joaquim Furtado que ao microfone do Rádio Clube Português anunciava:

   “Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas, que desencadearam esta madrugada uma série de acções com vista à libertação do país do regime que há longo tempo o domina”.   

   Passam a noite a beber whisky de ouvidos colados à telefonia até de manhã. Depois descem à recepção para o pequeno-almoço e aí, a caixinha que mudou o mundo passa a sê-lo realmente. A monótona e desinteressante RTP, terá tido nesse dia a maior audiência de sempre em Portugal, superando de longe a daquela noite em que Neil Armstrong pisou a lua. Lisboa, é então o centro do mundo, por uma vez, nesse dia. Um grupo de militares portugueses tomou o poder, sem derramar sangue. E isso é mesmo História. Mas os músicos não podem, não devem, e concluem que essa não é a melhor hora de regressar a Lisboa. Estão eufóricos e querem celebrar. Inspirados pelos acontecimentos tomam contam do palco da sala de baile do hotel e começam a tocar ainda a meio da tarde, fora do habitual horário de trabalho. Tocam o que bem lhes apetece mas sobretudo muita música portuguesa pela primeira vez. E assim vão tocando pela tarde fora, enquanto a revolução se começa a confirmar. Os hóspedes, que estão de regresso ao hotel e aos seus quartos são surpreendidos pelo ambiente festivo e vão ficando por ali a ouvi-los em silêncio.

   Ao início da noite é levado do quartel do Largo do Carmo, um tal de chamado professor Marcelo Caetano, que na sua qualidade de presidente do conselho de ministros do estado português tinha a mania de chamar Conversas em Família a monólogos para a câmara de televisão, e a quem inclusivamente fora atribuída descabidamente uma primavera com o seu nome. Dada a circunstância, muito indignado com o rumo dos acontecimentos, o miserável gerente Ramos informa que vai abandonar o hotel dizendo que o país vai cair numa anarquia. Comunica aos empregados que agora os revoltosos comunistas vão tomar conta dos bancos e não lhes pode pagar nem mais um tostão, a ninguém mesmo, nem aos músicos da capital, pois que o dono daquele e de outros hotéis, já se foi embora para o Brasil. Ninguém por ali se parece importar muito com o discurso do execrável Ramos. Mas já que era assim, então o bar, a garrafeira e a cozinha passam a estar abertos a todos. São agora posse de todos. Dos hóspedes, dos trabalhadores e também dos seus convidados. As bebidas alcoólicas disponíveis no bar atenuam a já por si só inebriante felicidade natural. O hotel é ocupado pelo povoem festa. São três dias e três noites, de uma alegria imensa para compensar não de um carnaval atrasado de dois meses, mas já de muitos anos. De tantos anos de tristeza.

   Os hóspedes maioritariamente estrangeiros não percebem nada do que se está a passar naquele momento, ali naquela bonita e soalheira região de clima temperado às portas do Mediterrâneo, nessa ofuscante primavera, nem muito menos naquele pacato país de brandos costumes à beira mar plantado. Ao princípio ficam um pouco apreensivos e perguntam: ‘What the hell is going on here? A revolution? …What kind of revolution? Cada um tenta uma explicação no melhor inglês possível. ‘Freedom’, ‘Power to the people’. ‘Death to the fascists!’ Como se de um exercício de chuva de ideias relacionadas com a revolução se tratasse. Os estrangeiros acham tanta piada ao exotismo da situação, que decidem juntar-se à festa e, à banda lisboeta, que apenas era a ‘banda do hotel’ passam a chamá-la ‘The Red Carnations’, porque como toda a gente trazem ao peito cravos vermelhos.

   Os músicos ficam nessa festa popular até 29 de Abril. Até um momento solene como as despedidas costumam ser, se pauta nessa hora pelo contentamento de todos. É nesse ambiente de natural felicidade que regressam a Lisboa para junto dos seus familiares e amigos, anunciada que está a maior concentração de sempre do povo português que teria lugar nesse dia Primeiro do mês de Maio de 1974, e que a partir daí seria dia feriado também em Portugal, celebrando-se o dia do trabalhador, nesse tempo em que o povo unido jamais seria vencido.

   Na ressaca do corpo e do espírito desses revolucionários dias, Augusto regressa à casa dos pais e decide recomeçar as aulas de piano e composição. Tem de novo gosto e vontade em tocar e aprender ao mesmo tempo que ex-banda de hotel se mantém unida. Depois de algumas semanas de ensaios começam então a tocar no Hot Clube de Portugal, interpretando nas suas versões de jazz instrumental os temas dos novos cantautores da então chamada música popular portuguesa. O sucesso sorriu-lhes. ‘Os Cravos Vermelhos’ foram nesse ano a banda que mais tocou nesse e em muitos outros palcos portugueses.

  

   Em 1980, Portugal era um país ainda alegre, onde tudo poderia ainda acontecer. Augusto tornou-se o compositor principal e líder do quarteto que evoluiu tanto que começou a ser também conhecido e apreciado fora de Portugal. Podia agora passar a fronteira do país, também fisicamente, e não seria só para África. Nunca esqueceu o que às escondidas ouvira numa conversa lá em casa, numa distante noite de inverno. Tornara-se realidade a frase profetizada por um amigo dos seus pais: ‘Quando o teu puto tiver idade para ir para a tropa já a guerra acabou, vais ver, acredita no que te digo Lacerda’, palavras essas que durante anos o encheram de esperança e força para continuar a acreditar que um dia seria livre. O A. Lacerda Quarteto começou a tocar por toda a Europa como representante do novo país e da sua música.

   Por exigência da profissão que abarcara Augusto passava cada vez mais temporadas lá fora, tendo vivido em Madrid, Paris e Berlim, dedicando-se posteriormente a uma bem sucedida carreira a solo. Durante muito tempo apenas visitava Portugal a espaços para fazer férias e rever a família e os amigos. Mas depois de muitos anos de discos, gravações e longas digressões, sentiu de repente uma estranha vontade de regressar à sua terra. Conseguiu assim chegar mesmo a tempo de adquirir a casa dos seus pais, onde crescera.

 

   O Portugal que Augusto encontra em 2004, é um país já a ficar deprimido, onde pouco poderá ainda acontecer, a não ser tudo o que a globalização e a comunidade europeia deixarem para nos entreter. Quando, no diaem que Augustoteve outra vez tempo para se sentar em casa a ler o jornal e ligou a televisão, era o dia do jogo da final do campeonato, que celebrava aquele que consideravam ser o maior evento desportivo jamais realizado no país.

   Nos estádios de futebol, o Menino de Ouro, que ainda viria a dar o seu melhor, regressaria de novo à ilha, não do país que o viu nascer, mas onde nasceu o desporto do qual diziam ser ele o melhor. Não podia sair de Old Trafford, mas já começava a entrar na esfera da inevitável e exagerada exposição pública da sua vida privada. E nessa tarde de Junho, mesmo estando dentro do relvado, foi apenas mais um entre os milhões de portugueses vestidos de camisola grená e calções verdes, que não conseguiu festejar um único golo, apesar de tantas bandeiras penduradas nas janelas por esse país fora.

      A Cantora de ascendência crioula que foi promovida ao estrelato meteoricamente, deseja ir instalar-seem Nova Iorque para indirectamente se ir afastando do forçado rótulo de nova diva da canção de Lisboa, e do destino do seu país. Enfim, da essência do nosso fado. No entanto, essa abertura de identidade criativa, é que a poderá manter ainda famosa e independente por mais algum tempo.

Na televisão plasma por cabo, o nosso senhor Primeiro-Ministro anunciaria a sua partida para Bruxelas como se de um dever patriótico se tratasse, lançando o país numa crise política e social que estará para durar. Através dessa caixa que o mundo transformou num painel estreito de alta definição, os políticos vindouros continuarão a mentir semanalmente ao povo de uma nação cheia de altas taxas de desemprego, fome e corrupção, apesar de todos nós quereremos ainda acreditar num estado que continua a dizer-se de direito democrático, mesmo depois do que fomos assistindo ao longo destas últimas décadas.  

   E….uma juventude, que tem de demorar-se a ficar adulta por força das circunstâncias da crise, por o curso não ter saída no mercado, tendo de arranjar trabalhos precários e temporários, pois enquanto não conseguem nada melhor os pais lá fazem por manter os filhos no sonho visionário da adolescência por mais algum tempo.

   ‘Tchalalalalaúuuu….Tchalalalalaúuuu….Tchalalalalaúuuu….’ tocam assim os telefones num som agudo, digital, sem fios, demasiado estridentes e utilizam-se para se dizerem coisas realmente normais. Boas ou más. Por isso Augusto sente um arrepio de cada vez que os ouve. Treme só de pensar, que lhe vão perguntar onde está e o que está a fazer ou a estafada senão paradoxal pergunta sobre que projectos tem para o futuro - esse tempo que cada vez se sabe ser mais incerto. Decidiu-se finalmente a apanhar o leve telefone móvel. Esta chamada era das más. Sentiu-se devastado. O que de pior se podia esperar ouvir por aqueles dias. A voz profunda e triste do Rui num som nítido como se estivesse ali mesmo a seu lado, dizia que já tinha descansado o seu amigo Jorge.

  Ficou imóvel junto à janela da sala da velha casa onde nascera, agora restaurada e com vidros duplos, o que lhe permitia compor sem a interferência do ruído contínuo que vinha daquela movimentada artéria da cidade. Dalí podia ver o seu jardim, ou o que restava desse pequeno jardim público e relembrar nostalgicamente quando nos fins de tarde ou noite ali se sentava nos bancos com o amigo a falar das pequenas grandes coisas da vida. Passaram mais de trinta anos em apenas alguns minutos. Apesar de tudo o que de bom e mau envolve o acto de recordar, era preciso continuar a ensaiar, a tocar, a resistir à morte. Pisando as tábuas do soalho de madeira que gostava de ouvir ranger, foi engolindo em seco para não se comover demasiado. A sua profissão exigia era que emociona-se os outros. Dirigiu-se para o piano tocando algo que poderia assemelhar-se a excertos de ‘Mantra’ de Karl Stockhausen, premindo com força nas teclas de modo a libertar aquela tensão que se lhe alojava na alma. E assim se refez daquela sensação sufocante, terminando nessa mesma madrugada a peça começada ainda em Londres, no dia em que se decidiu pelo regresso a Lisboa e que às primeiras notas trazia colado o título provisório ‘A Sort of Homecoming ’. Tinha estado a trabalhar esta composição nestas últimas semanas, dedicando-a ao seu velho amigo Jorge, desde que soubera da sua doença. Tomara então naturalmente o nome ‘Uma Espécie de Regresso a Casa’ e ia estreá-la no concerto que daria em breve no Centro Cultural de Belém, para o lançamento do disco de retrospectiva dos seus 25 anos de carreira a solo. Exausto, adormeceu no sofá ao lado do piano.

 

canalsonora às 15:36

Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

pedro jubilot  

 

                          

leonard cohen        |série‘quotidianos poéticos’                  


Não há confusão nenhuma. O músico de hoje já era antes o poeta de sempre entre muitas outras coisas. Depois passou a ser também o músico, e foi vivendo o seu tempo mas às vezes também fora do tempo; outras vezes fora do lugar, ou dos lugares onde tudo parece que acontece- como na imprensa, na tv… nesses diversos instantâneos palcos deste mundo sem memória.

 Num dolente terraço em Tavira recitando uma pequena e doce canção |You go your way / I 'll go your way too | para um livro que se viria a chamar do Desejo  por uma outra Marianne, Suzanne ou Alexandra.

Observando o casario de telhados de tesoura, recortados sobre um rio que ninguém sabe porque tem dois nomes, ficar compondo ou escrevendo versos de saudade ou ânsia que | Também tu cantarias / se desses por ti /num lugar como este | (…) /cantarias / não para ti / mas para criar um eu / a partir do velho alimento / que apodrece na entranha astral / e na pancada surda, sem amor, /  da tua própria respiração (…) |,  através das frestas da reixa das portas.


 

http://www.leonardcohenfiles.com/boflg.html

http://www.amazon.com/Songs-Leonard-Cohen/dp/B0000024TT

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canalsonora às 22:38

Domingo, 22 de Agosto de 2010

 

 

pedro jubilot  | Livros de Areia

 

 

Interrogava-se Xavier acerca do porquê de se levarem livros para a praia, quando nesta raramente se consegue a tranquilidade necessária para o acto de ler. São os grãos de areia que aparecem nas diversas páginas e que parece que vão riscá-las, vindos naturalmente dos passos dos banhistas e de toalhas que se sacodem por perto, ou de uma ou outra rajada de vento ainda que fraca e breve. …E se as crianças sempre correm e levantam os grãos de areia como minúsculas balas enviadas ao acaso. Gritam excitadas por muitas razões e sem razão. O que fazer? No fundo, a praia é o pedaço de mundo por excelência que foi inventado para elas, e que nós tomamos de assalto em cada Verão, para ver se ainda conseguimos trazer à memória esse tempo de quando éramos reis. O mar, quente ou frio, é ainda e sempre do seu domínio, por isso constroem castelos e fortalezas à beira-mar, num árduo trabalho de vai-e-vem de carregar baldes de água e areia. A tarefa é sempre recompensada com bolas de Berlim e gelados.

O seu a seu dono, mochila arrumada seguida de retirada estratégica para a esplanada, onde o gosto que se saboreia na mistura conseguida num cappuccino, bebido frente ao mar à tarde na praia, é o que agora de mais parecido Xavier consegue ter de infância. Abre o livro tentando libertar-se dos grãos de areia adquiridos e começa a leitura, agora que a maior parte dos veraneantes está de saída. Atingida a página 76, acontece algo que filmado seria depois forçosamente misturado em câmara lenta: – são três raparigas de uma mesa atrás da sua que se levantam de repente uma atrás da outra; a última das raparigas ao passar toca no braço de Xavier, fazendo cair o livro ao chão, com a capa virada para cima, e essa mesma rapariga, aflita com o disparate cometido, apronta-se a apanhar o livro. Mas estranhamente fica de joelhos agarrando-o com muita força com ambas as mãos.

Xavier diz-lhe que não há problema, não tem razão para se preocupar, que está tudo bem. Mas quando a rapariga levanta a cara, percebe que o seu rosto é o título do livro: Olhos Verdes Cabelo Castanho. Ele estende então a mão direita para receber o livro, mas a rapariga não demonstra qualquer intenção de o devolver.

Não te posso dar o livro, perdi o meu há mais de seis meses e desde então tenho tentado desesperadamente comprar um novo livro para o acabar de ler, desabafa ela nervosamente.

Dê-me o seu contacto, posso emprestá-lo quando terminar, daqui a dois dias talvez, o livro é pequeno e se calhar ainda vai cá estar de férias, tentou Xavier, para amenizar o estado da rapariga.

Mas é que é muito importante para mim saber o resto do livro, não percebes.

Xavier sabia como encontrar livros, mesmo os difíceis, e começou a ceder quando se apercebeu de que a bela rapariga à sua frente parecia saída do romance.

Eu já ia na página 100, tens de mo emprestar, posso lê-lo todo hoje, e amanhã venho aqui devolvê-lo à hora que quiseres. Não me podes fazer isto, tem de ser…. Como é que te chamas?

Xavier Almeida… e tu?

Madalena. E virando-se para as amigas que tinham ficado estarrecidas perante a situação, como que na presença não de um mas de dois desconhecidos, disse-lhes com um sorriso meio amarelo, podem ir andando, eu já lá vou ter. E então Xavier? Vais emprestá-lo ou não? Por favor, peço-te por tudo o que há de mais sagrado, pela tua saúde…

Pronto, calma…E como é que eu sei que já leste o livro? Que não se trata apenas de uma coincidência? Preciso de uma prova…dá-me uma prova qualquer…

Está bem, de acordo. Confio em ti, se queres mesmo emprestar-me o livro, mas tens de ler até à página 100, como eu. Vou dar um mergulho com as minhas amigas. Depois venho aqui…está bem? Espera por mim.

Xavier anuiu com a cabeça, recebeu o livro das mãos de Madalena, que não o havia largado durante a conversa, e continuou a leitura atentamente. Quando ela chegou já ele a esperava de livro fechado sobre a mesa e marcado na página 100 como combinado.

Vês como o livro é importante? Num instante devoraste as páginas com curiosidade. Xavier levantou-se, agarrou o livro e esticou o braço na direcção de Madalena inquirindo-a acerca da prova.

Madalena, não o fez esperar. Deu um passo em frente. Beijou-o, durante alguns segundos. Página 98, disse ela. Seguiu depois confiante levando na mão o tão desejado livro. Venho cá amanhã trazê-lo.

Xavier, que pouco dormiria na noite da seguinte manhã foi a primeira pessoa a chegar à porta da biblioteca municipal, esperando que a abrissem, debaixo de um sol que já sentia muito quente. Seria mais fácil encontrar ali um exemplar do livro do que procurá-lo nas poucas livrarias da pequena cidade. A sorte, pode dizer-se, estava do seu lado, já nas suas mãos, ali à frente dos seus olhos verdes. No entanto, sabia que tinha todo o dia para acabar o livro, e que a melhor maneira era lê-lo devagar, atentamente. Comeu qualquer coisa, viu algumas revistas e até adormeceu num dos sofás. Depois de terminada a leitura verificou que era tempo de partir para o seu encontro. Foi lavar a cara para despertar. Penteou os cabelos castanhos e seguiu para a praia. Esperou na esplanada, mais ou menos na mesma mesa do dia anterior. Quem chega primeiro sempre pensa que o outro vai faltar. E por isso sentiu-se um pouco triste, à semelhança do rapaz que não conseguiu rever a sua amante no fim da história.

Madalena sentara-se sozinha numa mesa atrás de Xavier, que pressentiu estar a ser observado e, quando a descobriu, reparou que a rapariga estava agora feliz. Ela levantou-se calmamente e foi sentar-se junto dele, devolvendo-lhe o livro tal como prometido.

E agora? Perguntou-lhe Xavier com um semblante triste e cansado.

Agora precisas descansar, mas eu vou contigo, meu amigo. Quero mostrar-te outras páginas do livro de que te privei, esclareceu Madalena. Deu-lhe a mão e foram-se embora juntos.

Afinal ele já lera o livro, ficando mais animado com o esclarecimento.

Nessa noite abraçaram-se como na página 105, beijaram-se como na página 114 e fizeram amor como na página 120. Foi o que ele lhe disse de manhã, tentando surpreendê-la.

Não, disse Madalena. Não se mostrando surpreendida, zangada ou arrependida. Foi melhor, muito melhor... nem tudo tem de ser como no livro, há vida para além dos livros, acrescentou a rapariga.

Na semana que se seguiu, amaram-se como noutras páginas que já foram escritas ou estão ainda por escrever.

O vento de hoje varreu as nuvens que ontem apenas ameaçaram a chuva que não chegou a acontecer e veio ajudar a limpar a costa que tinha ficado com algas, assim como veio refrescar os corpos que tinham ficado muito quentes e secos com o calor dos magníficos dias mediterrânicos anteriores. Depois que Madalena partiu, o vento começou a soprar muito forte de sudoeste, ou seja, do lado do farol do Cabo de St.ª Maria. Quando assim é, a areia da praia fica varrida e apesar de não estar frio, o desconforto provocado pela areia a picar no corpo faz com que as pessoas deixem a praia mais cedo e até os pequenos guerreiros do areal são obrigados a bater em retirada, com promessas de novos reinos encantados algures perto dali. A falta desse burburinho neste fim das férias de Verão faz Xavier sentir-se mais só e introspectivo. E voltar a pensar porque é que se lêem livros na praia, porque é que se levam livros para a praia?

A resposta não está na praia, nos grãos de areia, nem nas crianças, nem nas bolas de Berlim ou na mistura correcta dos ingredientes dum cappuccino. Agora já sabes, Xavier. Está tão somente nos livros e no que se pode ler neles.

canalsonora às 23:49

Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010


http://www.4aguaseditora.blogspot.com/

 

 

 

Miguel Godinho |   acordar amanhã


acordar amanhã

como se fosse a primeira vez

o que gostavas verdadeiramente era de viver

foragido da brutalidade dos dias

e que te deixassem existir errante

querias apenas a paz da tua insipiência

nunca te interessaram outras matérias

a verdade é que nem tampouco queres saber

juras que não sabes e é a mais pura da verdade

perguntam-te quem és e não tens resposta

já tiveste mas já não queres ter

olhas em redor e não te encaixas

não consegues pertencer a parte alguma

só atmosferas que não convencem

e uma sucessão de coisa nenhuma


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canalsonora às 10:18

Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010

 

http://quintacativa.blogs.sapo.pt/152457.html

http://www.bubok.pt/libros/1509/TRANSEUNTES

http://en.calameo.com/read/000307108dc0f8df9cf6a

 

 

 

Vitor Gil Cardeira  |  Um homem que por acaso era eu


Um homem saiu na paragem seguinte. Deixou o chapéu no cabide de espuma entre a noite e o dia. Saiu sem pensar na cor do futuro.

Algures ( num bar? ) sentou-se alguém. Alguém, que para o caso era eu, pediu um telefixo .

Do outro lado do mundo (do balcão?) trouxeram-lhe um crucifixo .

Xô, gritou um homem.

Os transeuntes apressaram o fluir das horas e fingiram saber como semear amendoins.

Eu telefonei para longe, para o espaço envolvente dos dias sem sabor. Onde os pássaros não cantam sem apelos da sociedade civil.

Os transeuntes começaram a chegar a casa cansados dos dias memoriáveis. Os autocarros foram vomitando semáforos enlatados enquanto um homem errava todos os alvos. Excepto o da sua preguiça solitária.

Eu, um transeunte neutro de civilidade, telecrucifiquei um santo homem.

Xô satanás que arrepias a utopia!

Um homem, que por acaso era eu, atravessou a rua deixando um sulco de raiva no alcatrão quente. Amarás os transeuntes que param, disse um profeta vindo de mansinho. Alguns ostentam medalhas de medo, comendadores da porcaria, heróis da merda .

O país encharcou-se de pus putrefacto e casto. Os transeuntes percorrem o caminho sagrado da ignorância uivante. Nas cidades não há sementes de melancia e a violência desperta prenhe e nua. Como as virgens. Liga-se às ruas como mães a filhos sem pais.

Um homem, que por mero acaso até  era eu, olhou para trás. O que viu aspergiu-lhe a memória de nós. Nós e a morte.

O candidato sentou-se na escuridão. Era alguém com a violência domesticada e mostrou-o a todos.

Alguns acreditaram na bondade do crime e aplaudiram implodindo as palavras.


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canalsonora às 12:50

Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010

 


 

pedro jubilot |   Roberto & Ingrid


 

quando o barco alcança as areias das ilhas já se inalou o ar que prende, vindo do interior.

todo o mar à volta como um espelho doutro azul faz começar a vida que está no corpo interior.

quando se respira, a boca parece saber a sal e desfaz-se a inquietude do amor interior.

canalsonora às 19:38
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Segunda-feira, 09 de Agosto de 2010


 

pedro jubilot   | eu regressei a olhão

 


eu regressei a Olhão

mas a minha vila tinha desaparecido

não havia cinemas, nem  rua das lojas

a barreta e o levante tinham desaparecido

todos os meus lugares preferidos

como se a historia tivesse sido varrida

reduzida a prédios e supermercados

eu regressei a Olhão

vi gente vagueando

como sempre esta foi terra de vagueantes

mas só vi corpos sem rosto e rostos sem nome

os meus amigos não estavam por ali

fiquei  confuso e pasmado

das minhas memorias de infância

tudo o que era campo à volta estava pavimentado

e cheio de guindastes

tudo consentido por um município sem orgulho

 

como dantes, só esta relação em que há

uma fina linha entre o amor e o ódio.

 

 

+inspirado na canção 'My city was gone' ( The Pretenders )

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canalsonora às 01:25
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Sexta-feira, 23 de Julho de 2010



 

pedro jubilot |    Francisco & Sophia

 

 

a espera de julho traz dias de verão que não se podem recusar a encontrar um lugar a sudoeste.

longe da cidade e das suas luzes, num promontório de noites quentes e estreladas onde  há vestígios de uma fortaleza no fim da estrada onde o atlântico muda a corrente, mas o amor não pode separar a poesia do coração da gente.

deitados na areia começam a sonhar as conchas que querem levar.


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canalsonora às 11:35

Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

MYRIAM JUBILOT de CARVALHO

http://myriamdecarvalho.com/blog/

Bandeira Azul

Publicado em “Poetânea” (a primeira), Hugin, 2003


 

 

 

O mar,  ao longe, além das dunas e destes círculos multi-colores dos guardassóis

O brasido da areia

O escalda-pés das passadeiras de cimento, cardos, chorões, e ralas espigas

Acostadas aos barracões de madeira, bicicletas de aluguer

A bandeira azul flutua contra o céu

Papagaios acrílicos brincam no ar

Corre nas veias da praia a leve aragem do início do entardecer

Amplos, vastos como o horizonte, contemplam-me vigilantes, ansiosos, absorventes, teus olhos de cera, agora felizmente, finalmente inofensivos.

canalsonora às 12:42

Terça-feira, 01 de Junho de 2010

PEDRO JUBILOT

Brian & Anita

 

brian jones (the rolling stones) e anita pallenberg em tanger em 1967

 

 

Lá mais para sul, depois da tórrida Sevilha, fica o estreito
que separa a Andaluzia dos pátios da guitarra de Lucia
da velha e nova terra da magia, onde se amaram
ao pôr-do-sol e esperando pela lua do deserto
serviram o chá lendo Paul Bowles, escutando
ao fundo o eco dos músicos de Jajouka nas montanhas
protegidos pelo céu onde ele é mesmo azul
apesar dos olhos já dilatados de tanta alucinação.

Foi para lá desse paraíso que se diz ter quebrado
o caleidoscópio da sua viagem.

 



poema editado no blog http://porosidade-eterea.blogspot.com/ -29.05.2010
porque  escolhido no passatempo  «Sul» por Fernando Esteves Pinto

– editor da revista ‘Sulscrito’ http://sulscrito.blogsome.com/
-para integrar a próxima revista

canalsonora às 11:00

Domingo, 23 de Maio de 2010

Rui Dias Simão

in Poemas do Banco de Trás’, edições cativa.2010

www.quintacativa.blogs.sapo.pt

 

 

 

 

 

UMA LARANJA NA PRAIA

 

Sobre a areia uma plangana de pedras pintadas

pelo ventre da água pelo fogo dos dias

são frutos que não rebolam para não cair na ferrugem das mãos

ou se deslizando pela água não param sequer para ver uma

primavera de nenúfares

triturados pela agonizada madeira dos barcos.

 

A memória semeia desditas na sombra

na elipse sentada das tragédias virguladas

soergue as anafrodisíacas de sépias que escorregam

dos olhos pela noite

dentro do desenlace –

nos sortilégios que permanecem depois das pevides do silêncio

do sorrente olhar que não enxerga a plangana da vida grão a grão

Por um triz não fere.

A laranja então de guizo em gomo é inexistente quase pobre

às promessas de circos de desvanecidos animais ou de

naturezas angulosas.

Afinal onde tomam os nómadas um banho descansado se levam aquela ribeira

para um silêncio onde o oxigénio está fechado à chave – rapazes ?

Sobre a mesa uma plangana pintada pelas raparigas que esvoaçam

com as frementes borboletas que sabem o mar. Sejamos claros :

todas as configurações escorregam nos dilúvios par escreverem as alcunhas

das areias invariavelmente movediças. Mal

sei seus nomes.

canalsonora às 21:39

Domingo, 18 de Abril de 2010

pedro jubilot

 

A liberdade sabe a caramelo

Vitor Encarnação

 

in http://tricotarotempo.blogspot.com/

 

 

 

Aprendeu a gostar de ser livre na idade em que aprendeu a gostar de caramelos. Ainda bem pequeno. E nem à pancada lhe conseguiram tirar aquele sabor da boca. Podiam tirar-lhe os caramelos, fechá-los numa gaveta, comê-los todos. Mas à sua liberdade é que já não podiam fazer nada. A liberdade é uma paixão eterna. A liberdade não se agarra só aos dentes como os caramelos. A liberdade agarra-se a tudo em nós. Entranha-se. Encharca-nos de inquietação e sonhos. Mete-se no sangue, nos pulmões, no mais ínfimo das células, voa no oxigénio, faz ninho no coração e procria. Um a um, pequenos actos de liberdade e respeito saem-nos do peito e da boca, dia após dia, no relacionamento com a vida e com os outros. Sem nada impor, arredar ou ultrapassar. Opinando, escolhendo as palavras melhores que os dicionários têm, voando sobre a lama, evitando as armadilhas, contornando os obstáculos, não dizendo cobras nem lagartos nem destilando veneno. Sem preconceitos, sem tácticas. Uma vez desembrulhada e saboreada, a liberdade aloja-se no cérebro e muda-nos. Põe-nos de pé. Mesmo que sejamos franzinos, desengraçados, demasiado comuns, a liberdade dá-nos as palavras certas para procuramos o nosso caminho. Ser livre é ter uma bússola nos olhos, mantimentos para a viagem toda, é ver, ouvir e ler, é ter inquietação, é dobrar horizontes, é não ter medo. Que teimoso é o moço, queixavam-se a mãe, a avó e os tios. Tem a mania que é esperto, diziam os maiores, ao mesmo tempo que lhe davam umas chapadas por causa de mais um não quando era suposto dizer sim. É demasiado distraído, comentava o professor sempre que ele não respeitava o tema da redacção. Vais dar muitos tombos na vida, exclamavam os amigos sempre que ele não aceitava o estado parado e confortável das coisas. Sempre detestou gaiolas de pássaros, aquários, trelas de cães, jardins zoológicos. Aprendeu a ouvir os outros, aprendeu a discordar dos outros, a respeitar a diferença dos outros, a aceitar que os outros podem não gostar dele, podem até detestá-lo, odiá-lo, mas que isso é um direito que lhes assiste e por isso não lhes quer mal. Compreendeu que o mundo é feito de dialéctica, de oposição, de contraste. Por ser um homem livre, percebeu que deve ser magnânime em vez de mesquinho, dialogante em vez de vingativo, sincero em vez de hipócrita. Porque é livre, aceita que o interpretem, o leiam, o entendam, o avaliem de forma acintosa e velhaca. E aceita-o porque sabe que a liberdade e a dignidade são provas de resistência, coisa de anos a fio, um tempo contínuo de respeito e serenidade. Não tem de responder a banalidades, frustrações, mau perder, preconceitos.

É claro que por ter emoções não fica imune, mas prefere guardar essas mágoas para memória futura.

canalsonora às 00:22

Sábado, 20 de Março de 2010

 

 

 

Pedro Jubilot

in ‘Posta Restante’,

:)Canalsonora(: |2010|

 

de: Fernando

para: Ophelia


 

Sem o Mário, nem a Orpheu, o resto já não interessa, aqui já nada importa. Só existo para ti, só existes para mim. Tu vais embora e eu fico a tremer agarrado a este copo, e à escrita ridícula destas cartas de amor.

E depois transfiguro-me e nem sei qual deles sou.

Só quando finalmente adormeço me esqueço do mundo real que existe para quando acordo me poder lamentar de não poder viver a dormir.

Não há dúvida que este é um mundo estranho, de caminhos indefinidos por onde vamos caminhando. Mas nada se compara com o bem e o mal que nos fazemos um ao outro, não é verdade bebé ?


canalsonora às 23:47

Quarta-feira, 03 de Março de 2010

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 Santiago Aguaded Landero

 

O Perfume de Sónia

in  Sortilégio de Silêncio’, 4águas editora.2009

www.4aguaseditora.blogspot.com


 

 

 

CHEIRO a loendros podres impregnam a alvorada e eu quero fugir. Mas para onde, dentro de um autocarro em movimento ? Estremeço ante a memória de sereias que mesclam a hera do antes com o ferro do depois. Oh, tu, inocente anjo que retorna ao tempo materno e se depara com as flores que o Inverno ergue na geada ! E ainda assim sabes que o Amor, esse anjo suicida, esconde as suas asas residuais. Tu, virgem que oferece relógios de presente, nota de láudano com fundo de almíscar, deusa tutelar da tristeza escondida, madona de ÁGUAS celestes e algas marinhas; tu, sílfide das flores, que ofereces lábios de ouro em troca de alianças esponsais, deixa-me entrar no teu coração como um adolescente entra em casa pela madrugada.

 

 

canalsonora às 18:34

Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

 

                                                                                            pedro jubilot

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Manuel Ferreira            

 

Palavras de Anjo

in fanzine ' tão longe, tão perto!' 

  

sonhos da cor dos teus ombros

ou uma enorme vaga

quebrando-se de encontro à muralha

dedos purpurina

nas incipientes visões de chuva

uma concertina estendendo-se

sob o tapume dos olhos

eis todos os mistérios

que em mim corroem

a enorme fome do teu corpo

inexplicavelmente longínquo

no andar de baixo

 

um vago sabor a morte

a passos nervosos tolhidos

pelos frios que dos meus lábios

recuam no silêncio

 

vejo-te no rosto

uma expressão dorida

o único sincero convite

desta noite

 

não encontrei

no mar em fúria

a maior utopia

onde harmonia esconde

os sussurros da degradação

 

pergunto por mim

procurando em quem passa

o espelho

da horrível verdade

de ter de amar em segredo

nos cartazes publicitários

de mim mesmo


 

 

canalsonora às 23:13

Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

 

 

 

 

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Casimiro de Brito – Marina Cedro

 

36 ; 37 ; 38; 55;

in  Amo agora’, 4águas editora.2009

www.4aguaseditora.blogspot.com

 

 

 

 

 

Trazo

un pentagrama

en tu

espalda

para

tocar

una

y outra vez

tus bemoles

 

Te despiertas

entre mis brazos

absorbido

por el canto

de tu proprio nombre

pronunciado

por mi boca

 

Muero

en la noche

te amo

en el

dia

 -

Esta noite

não penteei

os meus cabelos

os teus dedos

acariciaram-me

enlouqueci

adormeci

 

Não preciso de nada

só de ti

pois tu és tudo

o mar e a lágrima

o Ocidente e o Oriente

a fauna e a flora

do meu corpo feliz

 

Amo-te

logo existo

e nada mais me excita

oração nenhuma

paisagem nenhuma

só o teu corpo

horizontal

o teu sexo

florindo

cantando

explodindo

 

Bebo

agua

sagrada

Los limites

se acaban

mi corazón

ya no es

mio

nada

es mio

nada

me pertenece

 

Excepto

la vida

que

encarno

en tu cuerpo

 

Aspiro en ti

a noite

Teus dedos

no piano

do meu corpo

a boca

na flauta louca

a concha

do teu sexo

iluminando

a terra toda

 

Os frutos

do mar

em ti como

 

Dueto

de música pura

 

O silêncio

escuta-nos

 

 

canalsonora às 22:06

Domingo, 07 de Fevereiro de 2010

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Pedro Jubilot

 

Miosótis

inPosta Restante’, :)canalsonora(:  |2010| 

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de : Veronika Dulcica 

         belgrado,1992

  

desculpa-me, se parti e me quis esquecer do teu nome, mesmo se jamais esquecerei a tua cara -rindo e chorando nesses dias, antes de eles virem e te levarem para a guerra e assim te transformarem em mais um soldado normal feito carne para canhão, nestes tempos de guerra accionada por botão. quem está certo ou errado nesta pátria de ninguém? , nesta terra onde quem anda pelos campos só sente o cheiro de corpos que jazem em vez de narcisos e margaridas. se aqui não sobrou lugar para o que é justo, então eu não sou desertora, porque não tomo um partido neste horror fratricida.

sabias que ao te juntares a uma bandeira não irias conseguir voltar e ver-me do mesmo modo. se estás dividido não estás em condição de ser livre. como podes ter partido…assim, e pedir-me para não te esquecer e te amar para sempre. quiseste ganhar a imortalidade através da minha memória e…mas…tu nunca me mandaste uma carta de dubrovnik, sarajevo ou mostar, do céu ou do inferno ou de onde possas agora estar.

e tudo o que tenho é este vaso que deixaste no parapeito da janela com uma planta de lento crescimento e pequenas flores de um azul pálido. e que agora já sei o que ela significa - é a flor da saudade, chama-se miósotis (não-me-esqueças)

 

 

canalsonora às 22:43

Domingo, 31 de Janeiro de 2010

 

 

 

 

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Teresa Rita Lopes

 

Dois Barcos

 in  O Sul dos Meus Sonhos’, GenteSingularEditora.2009

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Gosto de os ver avançar no rio

                                                       um ao encontro

do outro.

                 Quando daqui parece que se vão chocar

explodir

                ou cair nos braços um do outro

ei-los que mal se roçam se saúdam  

                                                               e passam

cada um para seu lado

                                         impenetráveis

inatingíveis

                     seguros do seu caminho.

 

 

canalsonora às 20:35

Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

 

 

 

Pedro Jubilot

 

Morrisey lembrando Marr

in Musica Desviada’,  :)canalsonora(: , 2009

 
 
 
 

Ele não seria verdadeiro, nem estaria a dizer a verdade se dissesse que nunca o amou ou que o odeia ou esqueceu.

Mas mesmo agora quando olha para os velhos recortes de imprensa nas folhas do álbum desses memoráveis tempos de juventude, glória e euforia, quer vê-lo simplesmente como outro alguém de quem se lembra como se já tivesse morrido. Foi isso que amou e foi isso que valeu a pena apesar de tudo o que vem depois do desejo da eternidade. Como toda a gente que um dia ouviu The Smiths, tem saudades das canções deles. Mas foi assim e isso basta-lhe, pensa.

E isso já foi há tanto tempo, que se passar por ele agora nem o deverá reconhecer. Ou não quer!?

Inevitavelmente, sabe que ele existe por aí mas já não o quer ver, já não quer saber. Apesar de ouvir que continua livre e disperso.

Apesar de querer afirmar que o tempo serve a libertação do querer, faz questão em mandar-lhe recados de rancor e nostalgia, de pena e eterna despedida, em mostrar-se com uma criança nos braços, para que saiba que encontrou descendência, para não subsistir mais a dúvida de que aquela será a única dupla de compositores da única banda que nunca se reagrupará.

 
canalsonora às 22:11

Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

 

 

Vitor Cardeira

 

Farejando Notícia

 in  Transeuntes’ ,  http://quintacativa.blogs.sapo.pt/

 

 

 

Mexeu-se outra vez e as costas estalaram. A polícia já não é incompetente como dantes.

Lembrava-se de tudo como se presenciasse a cena: à direita um actor de cinema com os olhos em bico do leite de coco com aguardente de cana. O crepitar da fogueira enchia a sala de recordações tristes. Embevecida no fogo estava ela. Porque fora ele meter-se naquele covil de lobos sem unhas?

Bebeu mais um copo. A cabeça recusava-se a pensar nas responsabilidades do dia-a-dia. Bebeu outro, de um trago só. Maldita cocaína, ouviu a consciência com voz grave de pai dos anos trinta.

     - Por favor, eu tenho um sapato calçado nos pés dela, rugiu à multidão apinhada no bar-semi-escuro.

     - Não ouvem, pensou sorridente.

Lendo uma revista pornográfica, desta vez à esquerda, estava um cavalheiro distinto mas sem gravata. Ela sorria avermelhadamente com a calma de quem jogava. Roleta russa.

Sentia desejos de ir com aquela mulher para a cama. Sim. Ela até era bonita e olhava para ele com uma expressão de talvez...

Mas que confusão lhe atravessava o espírito/ficção banal. Ela era uma visão sem compromissos e até sorria.

Agora era o malvado joelho que teimava em não funcionar. Nem a perna conseguia cruzar. Que pontapé, essa gente devia era ser jogadora de futebol.

Na poltrona do meio dormitava um velho jornalista corroído por notícias de todo o mundo. Tinha sido, até, correspondente na Polinésia.

Que homem viajado, pensou.

Ela chegara-se mais ao fogo como se precisasse de mais calor. Era a sua, dele, hora. Pé ante pé, chegou-se à lareira e, com a tenaz, retirou uma brasa do braseiro. Acendeu o cigarro à americana. Soprou o fumo, primeiro pelas narinas e depois através dos dentes.

      - Magnífica casa, meteu-se, nestas ocasiões transbordo de amor.

Sentiu-se alarmado com as palavras que deixara escapar. O jornalista farejou notícia. O cavalheiro distinto sem gravata ousou mesmo esboçar uma retirada discreta, sem o conseguir. Pela porta dos fundos apareceu quem se esperava: o polícia secreto do governo sombra.

Sem conseguir reagir ao desencadear dos acontecimentos, e com dores acentuadas nas costelas, deixou-se prender por ele e... por ela.

 O actor de cinema, com os olhos em bico, saiu de cena pela porta baixa sorrindo ligeiramente.

 

canalsonora às 23:08

Sábado, 02 de Janeiro de 2010

                                        

Pedro Jubilot

 

O homem que gostava de postais

in 'postais e-lustrados' , :)canalsonora(:  2010                   

                                         

 

O mesmo acontece a todos os homens um dia. Ficam mais cedo ou mais tarde bloqueados em algo. Ficam involuntariamente de forma mais ou menos voluntária barricados dentro das suas próprias vidas e como é óbvio ficam também atafulhadas as caixas de correio.

O homem que gostava de receber postais acabou por ficar um dia também ele bloqueado numa casa – carro – escritório - cidade.

O homem que gostava de receber postais fazia outrora correr livremente as suas longas pernas por ruas que perto da sua casa tinham por sua vez bloqueado na sua toponímia (Serpa Pinto, Roberto Ivens, Sacadura Cabral), homens duma história que antes houve para contar, indo desembocar à comprida rua dedicada à restauração da vila, sendo que no canto esquerdo do passeio precisamente se encontrariam os marcos de correio, terminando esta por fim na grandiosa avenida da república implantada no séc. 20.

Já no século 21 o homem faz conduzir o seu meio de transporte pela cosmopolita av. da republica, da capital, dificilmente reconhecendo que loja ou banco substituiu cada um dos cafés onde tertuliava com o homem que era amigo do homem que para além de gostar de receber postais também gostava de comprar e enviar postais, também gostava ele próprio de receber e enviar postais e aprenderam juntos a procurar lugares onde se podiam comprar postais. Fosse na livraria barata da av. de roma, na dargil perto da rua joão crisóstomo…

O homem que gostava de receber postais recebeu hoje na sua caixa um desses postais …. manuscrito, que terminava com um abraço do seu amigo Pedro, a desejar-lhe um bom ano.

 


 

canalsonora às 16:09

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

                     

 

Pedro Jubilot                                       

 

O Último Banho

in 'Contos de Natal' , :)canalsonora(: . 2009

                                                    

                                                     

                                            

                                        

 

Apesar de já estarem de férias as crianças estão estranhamente calmas e quietas. Não se afastam muito, querem estar por perto, expectantes pela boa nova - um menino está para nascer lá em casa.

Vá lá meninos, já tomaram o pequeno-almoço, estão de férias, vão apanhar ar puro, vão andar de bicicleta.

Ou vão ali até ao pinhal lá ao fundo dar uma volta, visitar a ecoteca, brincar, e tragam-nos um presente giro, dedicado a este dia.

O que se quer ouvir não tem comentários, nem contestação. Encorajados pelas sugestões de ambos os progenitores, os irmãos calçam as botas e saem para uma aventura na floresta, como lhe chamam. E lá seguem o seu caminho, descontraídos, passeando sem saber porquê ou para quê. Percebem que irão descobrir a resposta à medida que avançarem e que o desafio é levar de volta algo que comprove a sua caminhada deste dia.

Atiram pedras às árvores. De perto e depois mais de longe. Gritam alto tentando recolher um eco sempre difícil de obter. Arrastam os pés no musgo, na terra, levantam pó. Correm de braços abertos. Cansam-se. Sentam-se encostados à mesma árvore mas sem se verem. Tentam adivinhar os pensamentos um do outro, nesse jogo em que sempre não conseguem chegar a uma conclusão sobre a veracidade das características que as pessoas apontam à sua específica natalidade. De novo se levantam para andar à roda sobre si mesmos de olhos fechados até caírem tontos.

Recuperados e com fome decidem abrir as mochilas retirando as sandes -as melhores sandes do mundo, que o pai Zé lhes prepara para os seus piqueniques. Com cavalinha sem pele e sem espinha, cebola, pickles e um cheirinho de maionese. Ou de requeijão com finas rodelas de tomate, um pouco de rúcula e um fio de azeite. Um manjar para pequenos deuses. Ficam depois deitados olhando para o céu através dos ramos dos pinheiros que filtram os raios de sol ou observando as nuvens a passar imaginando que figuras lhes pretendem mostrar. Ganha o que conseguir ver um anjo. Tudo acaba em gargalhadas com cócegas à mistura.

Levantam-se finalmente concordando que há uma tarefa a fazer e já não têm muito tempo que por estes dias anoitece cedo. Andam muito às voltas por ali na sua demanda até que se julgam meio perdidos vendo o sol já a pôr-se. Não estão habituados a andar assim tão livres na natureza. As escolas têm poucas árvores, as cidades não têm parques, os centros comerciais não têm jardins. Sentem que arrefeceu muito ao lusco-fusco. Não sabem porque não se encontra a bússola no bolso da mochila. Mas lembram-se que podem procurar a estrela que lhes indique o caminho de regresso. Têm frio e vão olhando para o céu. Depois começam a confiar que o trajecto indicado por Vénus, a dita estrela da tarde é mesmo o certo. Finalmente quando deixam para trás a última árvore surgem logo os néones da cidade lá mais à frente e os prédios com as suas luzes enfeitando as varandas, factos que indicam o mundo a que se chamou civilizado, talvez porque aí vivem os chamados civis, deve ser por isso. E andam atarefados levando as mãos cheias de sacos neste início de noite. Hoje, a maior parte deles parece especialmente feliz como se algo de diferente estivesse para acontecer.

Cansados, mas com uma etérea felicidade estampada nos rostos chegam a casa cuja porta se abre sem terem de tocar. Depositam ali mesmo no hall de entrada, o pequeno pinheiro, as pinhas resinosas e o azevinho que carregavam nos braços, mas com o cuidado necessário para não sujarem os sacos azul claro e castanho ali já prontos para quando muito em breve o momento chegar. O pai diz-lhes que têm uma banheira cheia de água quente à sua espera. Percebem que a missão não mencionada foi cumprida. Passam antes pela cozinha para deixar um ramalhete de lírios que a mãe agradece sorridente apesar de não se poder afastar do fogão, de onde lhes dirige o olhar mais terno e confiante sorriso que uma criatura pode almejar. Por força das circunstâncias será a última vez que os gémeos, de nove anos feitos há bem pouco, tomarão banho juntos. A espuma do creme vai diluir-se na água que arrefece na banheira. Deste lugar no tempo não vivido historicamente a que chamamos infância, estes anjos em breve serão despojados das suas armaduras e passarão a estar expostos nas suas alegrias e amarguras.

Jantam a ementa que levou todo o dia a confeccionar. Peixe seco guisado com batatas; peru assado no forno com castanhas; leite-creme com puré de maçã; banana frita panada; pasteis fritos com recheio de batata doce.

O pai coloca um disco de vinil no prato do gira-discos. Poisa-lhe a agulha nas estrias exteriores. Recosta-se feliz a escutar Chet Baker enquanto os miúdos decoram o pinheiro, orgulhosos do seu achado. Penduram-lhe enfeites coloridos. De seguida fazem uma coroa de azevinho que atam com um laço encarnado, colocando-o sobre a porta da sala. A brincadeira resulta em cheio. Quando a mãe se assoma à porta para dizer que vai para o quarto descansar, o pai levanta-se, dirige-se para ela e dá-lhe um beijo na boca. Como numa tradição estrangeira que aprenderam num filme. E eles querem também a sua parte de mimo antes de ir para a cama.

 No dia seguinte Sílvia, David e José preparam fatias douradas para a mesa do pequeno-almoço quando ouvem os passos arrastados de Maria.

Bom dia mãe! Estávamos à tua espera. Vem ver as prendas.

Bom dia! responde estremunhada. Que dia é hoje ?

Hoje é dia de….

Esperem lá…acho que me rebentaram as águas.

 

 

 

 

canalsonora às 23:29

Sábado, 25 de Abril de 2009

 

 

 Pedro Jubilot

'Hotel Abril'

in 'Contos na Ria Formosa' , :)canalsonora(: . 2009


 

 

O Portugal de 1973 era um país já demasiado triste e cansado, à espera que algo acontecesse.

Nos estádios de futebol, o pantera negra, que já dera o seu melhor, continuava exilado num país de que há muito o obrigaram a ser. Não podia sair da Luz, mas já começava a entrar no túnel da inevitável decadência.

A cantora, de tanto lhe doer a voz e a alma, incluía já no seu repertório canções de vários géneros e línguas, que se afastavam da essência do seu fado, indirectamente afastando-se da forçada colagem ao destino do seu país. No entanto, essa perda de identidade criativa, é que a mantinha ainda livre. 

Na televisão, ainda a preto e branco, a nossa senhora de Fátima continuava a proteger semestralmente a nação de todos os males com a benção de um estado que continuava a chamar-se novo, ao fim de 48 anos.

E… uma juventude, que tinha de tornar-se adulta por força das circunstâncias da guerra ultramarina, da falta de estudos e de vida cultural, e de ter de arranjar um trabalho, pois que nesses anos os pais não ganhavam o suficiente para se poderem manter os filhos no sonho da ‘adolescência’ por muito tempo.

‘Trrrriiiiin…..trrrriiiiin….’ tocavam assim os telefones num som grave, orgânico, terrestre, subterrâneo  e utilizavam-se para se dizerem coisas realmente importantes. Boas ou más. Por isso Augusto sentia um arrepio de cada vez que o ouvia. Tremia só de pensar, que lhe iam comunicar o dia e a hora de embarque para as colónias. Descansou ao ouvir a voz do seu amigo Jorge. Esta chamada era das boas. O que de melhor se podia arranjar por aqueles dias.

Assim, um conjunto recentemente formado por quatro músicos de Lisboa, vai fazer a passagem de ano a um hotel do Algarve. O reveillon correu tão bem que depois são contratados para banda residente da época baixa, isto é, até ao dia 31 de Maio. Nada mau naqueles difíceis tempos.

Embora os primeiros dias de Janeiro tenham sido chuvosos, e depois um pouco frios, fustigados pelo vento norte – logo o céu se limpou dando lugar a belos e azuis dias. Dias de Algarve.

O alto hotel sobre a praia permitia-lhes admirar os navios que cruzavam o oceano atlântico em direcção ao estreito de Gibraltar para entrarem no mar mediterrâneo.

Nos tempos livres limitam-se a fazer longos passeios pela praia, jogam às cartas ou tentam conhecer turistas estrangeiras que lhes proporcionem novas experiências. E profissionalmente até têm um local de ensaio com bom material de som disponível.

Tudo parece correr às mil maravilhas, quando no fim do mês de Março são informados pelo gerente que ocorrera um problema nos bancos e não lhes podia pagar já. Mas não tinham nada a temer que o patrão era homem de palavra, para mais muito rico e muito importante. Tinham de ter paciência e esperar alguns dias. Estas coisas às vezes acontecem no mundo dos negócios. E não lhes faltaria nada como até ali.

 Durante Abril, mesmo sem receber há quase um mês, teimam em honrar a sua palavra, num hotel que não se percebia estar à beira da falência.

Os standards de hotel, canções-êxito ao género romântico de Sinatra ou Nat king Cole , que o contrato indicava que repetissem noite após noite, revelava o pouco conhecimento do gerente perante a mudança de gostos musicais dos seus clientes estrangeiros, e mesmo dos portugueses. Estes pediam aos músicos para tocar Beatles, Stones, Shadows, e mesmo Creedence Clearwater Revival. Os músicos acediam. Como já pouco tinham a perder não viam porque não ignorar esse ponto do acordo e era isso que ainda os conseguia animar a cada dia que passava.

Tanto que uma noite o sr. Ramos lhes perguntou que raio de música era aquela que agora lhes tinha dado para tocar.

‘Nada de jeito, coisas que os clientes nos pedem, já se sabe como são os ingleses, têm gostos estranhos’, desculparam-se airosamente perante a falta de informação do homem, que de dia para dia se mostrava mais preocupado com a situação do hotel. E se os clientes queriam- isso era bom para o negócio.

Numa dessas noites, que estivera pouco animada, recolheram-se cedo mas desanimados com a situação, terminada que estava a sua primeira e única série de temas da noite, pois todos os poucos clientes já se haviam retirado. Ainda ficaram por ali a conversar, no quarto que os albergava a todos. Como músicos, gostavam de ouvir rádio. A meio da conversa, ouve-se a canção portuguesa concorrente ao Festival Eurovisão da Canção desse ano.

‘O Paulo tem uma grande voz, não acham?!’

‘É! Mas gostava mais de o ouvir nos Sheiks. Ainda cheguei a ensaiar com eles uns dias.’

‘Eu acho que não! Aquilo era uma imitação da música inglesa, ao jeito dos Beatles. Temos que defender a nossa música, a nossa língua.’

‘Pois, e a nossa pátria, as nossas colónias, o império…’, escarneceu o nervoso Augusto levantado o tom de voz.

‘Ei, amigos, calma, não estamos aqui para isso, mas para esquecer isso.’

‘Como é que eu me posso alhear disso Jorge, mais cedo ou mais tarde, vêm buscar-me e vou lá bater’, continuou Augusto.

‘Vamos com calma pessoal, temos de manter este contrato até ao fim. Deixem-se disso, amanhã é outro dia.’

‘Talvez… o primeiro dia do resto da minha vida…estou aqui tão perto de Espanha, tenho um contacto para arranjar alguém que me passe. Desculpa-me só te dizer isto agora, mas foi mais por causa disso que eu vim para cá, e por que somos amigos há tantos anos, mas Rui, por favor vê lá se consegues falar amanhã com o Ramos, e arrancar-lhe algum deste dinheiro.’

‘Calem-se lá por favor, deixem ouvir isto. Isto não é possível, o Zeca Afonso na Rádio Renascença ?.’ pediu o Mário. ‘Passa-se algo estranho, isso é o «Grândola», isso está censurado.’

‘Então rapazes, eu sou o vosso agente, arranjei-vos este emprego, dou-vos comida, cama lavada e whisky todos os dias, e mesmo assim não se acalmam? Vamos mudar de assunto.’

Nisto batem à porta do quarto.

‘Porra! Não vos disse para se calarem…Quem é ? perguntou Rui.

Abriram a porta ao recepcionista que trazia um recado para o Sr. Augusto Lacerda.  ‘É o seu irmão, que quer dar-lhe uma palavrinha’.

Quando Augusto volta do telefonema, deita-se na cama, calado mas sereno e parece mais feliz do que quando saíra porta fora.

‘Está tudo bem ?’ Querem saber, como se fossem um coro e não instrumentistas.

‘Está tudo bem!  Mas não desliguem a telefonia…desculpa Rui, ter reagido assim, mas tenho andado muito tenso…eu não queria ir para a tropa, mas oxalá as coisas mudem esta noite…’

‘Quem é que te ligou ? O que é que se está a passar, Augusto ?

‘…bem, é que faço hoje dezanove anos e o meu irmão mais velho, que estava de serviço no quartel, fez questão de ser o primeiro a dar os parabéns ao benjamim da família.’

Aí os músicos entoaram a sua versão da canção mais ouvida em todo o mundo.

Só a voz colocada de Joaquim Furtado ao microfone do Rádio Clube Português, conseguiu silenciar este ‘parabéns’ a você:

Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas, que desencadearam esta madrugada uma série de acções com vista à libertação do país do regime que há longo tempo o domina   

Passam a noite a beber whisky de ouvidos colados à telefonia até de manhã. Depois descem à recepção para o pequeno-almoço e aí, a caixinha que mudou o mundo passa a sê-lo realmente. A monótona e desinteressante RTP, terá tido nesse dia a maior audiência de sempre em Portugal, superando de longe a daquela noite em que Armstrong pisou a lua. Lisboa, é então o centro do mundo, por uma vez, nesse dia. Um grupo de militares portugueses tomou o poder, sem derramar sangue. E isso é mesmo História. Mas os músicos não podem, não devem, e concluem que essa não é a melhor hora de regressar a Lisboa. Estão eufóricos e querem celebrar.

 Inspirados pelos acontecimentos tomam contam do palco da sala de baile do hotel e começam a tocar ainda a meio da tarde, fora da habitual hora de trabalho, tocando o que bem lhes apetece mas sobretudo tocam muita música portuguesa pela primeira vez. E assim vão tocando pela tarde fora, quando a revolução se começa a confirmar.

Os hóspedes, que começam a regressar ao hotel e aos seus quartos são surpreendidos pelo ambiente festivo e vão ficando por ali a ouvi-los em silêncio.

Ao início da noite ao mesmo tempo que Marcelo Caetano é levado do quartel do Largo do Carmo, o gerente indignado com o rumo dos acontecimentos, informa que vai abandonar o hotel. Vai dizendo que o país vai entrar numa anarquia, diz aos empregados que agora os revoltosos comunistas vão tomar conta dos bancos e não lhes pode pagar, nem aos músicos, pois que o dono daquele e de outros hotéis, já se foi embora para o Brasil.

Ninguém se parece importar muito com o miserável discurso do execrável Ramos. Mas já que era assim o bar, a garrafeira, e a cozinha passam a estar abertos a todos. São agora posse de todos. Dos hóspedes, dos trabalhadores e também dos seus convidados. As bebidas alcoólicas disponíveis no bar atenuam a já por si só inebriante felicidade natural.

O hotel é ocupado pelo povo em festa. São três dias e três noites, não de um carnaval atrasado de dois meses, mas já de muitos anos.

Os hóspedes maioritariamente estrangeiros não percebem nada do que se está a passar naquele momento, ali naquela bonita e soalheira região de clima temperado, numa brilhante primavera, nem muito menos naquele pacato país de brandos costumes. Ao princípio ficam um pouco apavorados e perguntam: ‘what the hell is going on here?  A revolution? …What kind of revolution?  Cada um tenta uma explicação no melhor inglês possível. ‘Freedom’, ‘Power to the people’. ‘Death to the fascists!’ Como se de um exercício de brainstorming se tratasse.

Os estrangeiros acham tanta piada ao exotismo da situação, que decidem juntar-se à festa e à banda lisboeta, que apenas era a ‘banda do hotel’ passam a chamá-la ‘The Red Carnations’ , porque como toda a gente trazem  cravos vermelhos ao peito.

Os músicos ficam nessa festa popular até 29 de Abril. Depois despedem-se de todos para regressar a Lisboa para junto dos seus familiares e amigos, anunciada que está a maior concentração de sempre do povo português que teria lugar nesse 1 de Maio de 1974, e que a partir daí seria dia feriado em Portugal, celebrando-se o dia do trabalhador, nesse tempo em que o povo unido jamais seria vencido.

Augusto regressa à casa dos pais e recomeça as aulas de piano e composição. Tem de novo gosto e vontade em tocar e aprender.

A ex-banda de hotel mantém-se unida e depois de algumas semanas de ensaios começam então a tocar no Hot Clube de Portugal, interpretando nas suas versões de jazz instrumental os temas dos novos cantautores da então música popular portuguesa. O sucesso sorriu-lhes. ‘Os cravos vermelhos’ foram nesse ano a ‘banda residente’ desse e de muitos outros palcos portugueses.

Em 1980, Portugal era um país ainda alegre, onde tudo poderia ainda acontecer.

Augusto tornou-se o compositor principal e líder do quarteto que evoluiu tanto que começou a ser falado também fora de Portugal. Podia agora passar a fronteira do país, também fisicamente, e não seria para África . Nunca esqueceu o que às escondidas ouvira numa conversa lá em casa, numa distante noite de inverno. Tornara-se realidade a frase profetizada por um amigo dos seus pais: ‘Quando o teu puto tiver idade para ir para a tropa já a guerra acabou, vais ver, acredita no que te digo Lacerda’ , palavras essas que durante anos o encheram de esperança e força para continuar a acreditar que um dia seria livre.

O  A. Lacerda Quartet  começou a tocar por toda a Europa como representante do novo país e da sua música.

Mas por exigência da profissão que abarcara Augusto passava cada vez mais temporadas lá fora, tendo vivido em Madrid, Paris e Berlim, dedicando-se posteriormente a uma bem sucedida carreira a solo. Durante muito tempo apenas visitava Portugal a espaços para fazer férias e rever a família e os amigos.

Mas depois de muitos anos de discos, gravações e longas digressões, sentiu de repente uma vontade de regressar à sua terra. Conseguiu assim chegar mesmo a tempo de adquirir a casa dos seus pais, onde crescera.

Mas o Portugal que Augusto encontra em 2004, é um país já a ficar deprimido, onde pouco poderá ainda acontecer, a não ser tudo o que a globalização e a comunidade europeia deixarem para nos entreter.

Quando no dia em que Augusto teve outra vez tempo para se sentar em casa a ler o jornal e ligou a televisão era o dia do jogo da final do campeonato, que celebrava aquele que consideravam ser o maior evento desportivo jamais realizado no país.

No estádio de futebol, o menino de ouro, que ainda daria o seu melhor, regressaria de novo à ilha, não do país que o viu nascer, mas onde nasceu o desporto do qual diziam ser ele o melhor. Não podia sair de Old Trafford, mas já começava a entrar na estrada da inevitável e exagerada exposição pública da sua vida privada. E nessa tarde de Junho, mesmo estando dentro do relvado, foi apenas mais um entre os milhares de portugueses vestidos de camisola grená e calções verdes, que não conseguiu festejar golos, apesar de tantas bandeiras penduradas nas janelas.

Na televisão plasma por cabo, o nosso senhor primeiro-ministro anunciaria a sua partida para Bruxelas como se de um dever patriótico se tratasse, lançando o país numa crise política e social que estará para durar. Através dessa caixa que o mundo transformou num painel estreito, os políticos vindouros continuarão a mentir semanalmente ao povo de uma nação cheia de males de desemprego, fome e corrupção apesar de todos nós quereremos ainda acreditar num estado que continua a dizer-se de direito democrático, mesmo depois do que fomos assistindo ao longo destes 30 anos.  

A cantora de ascendência crioula que foi promovida ao estrelato meteoricamente, deseja ir instalar-se em Nova Iorque para indirectamente se ir afastando do forçado rótulo de nova diva da canção de Lisboa, e do destino do seu país. Enfim, da essência do nosso fado. No entanto, essa abertura de identidade criativa, é que a poderá manter ainda famosa e independente por mais algum tempo.

E…. uma juventude, que tem  de demorar-se a ficar adulta por força das circunstâncias da crise, por o curso não ter saída, e tem de arranjar trabalhos precários e temporários, pois enquanto não conseguem nada melhor os pais lá fazem por manter os filhos no sonho da ‘adolescência’ por mais algum tempo.

Tchalalalalauuuu….’ tocam assim os telefones num som agudo, digital, sem fios, demasiado estridentes e utilizam-se para se dizerem coisas realmente normais. Boas ou más. Por isso Augusto sente um arrepio de cada vez que os ouve. Treme só de pensar, que lhe vão perguntar onde está e o que está a fazer. Esta chamada era das más. O que de pior se podia esperar ouvir por aqueles dias. A voz dizia que já tinha descansado o seu amigo Jorge.

Ficou imóvel junto à janela da sala da velha casa onde nascera, agora restaurada e com vidros duplos, o que lhe permitia compor sem a interferência dos ruídos que vinham da rua. Dali podia ver o jardim e relembrar quando nos fins de tarde ou noite ali se sentava nos bancos com o amigo a falar das coisas da vida.

Passaram mais de trinta e cinco anos em apenas alguns minutos. Dirigiu-se então para o piano terminando a peça começada ainda em Londres, no dia em que se decidiu pelo regresso a Lisboa e que às primeiras notas tomara naturalmente o título de ‘a sort of homecoming’.  Tinha estado a trabalhar esta composição nestas últimas semanas, dedicando-a ao amigo Jorge, desde que soubera da sua doença. Chamava-se agora ‘uma espécie de regresso a casa’ e ia estreá-la no concerto que daria no Centro Cultural de Belém, para o lançamento do disco de retrospectiva dos seus 30 anos de carreira.

 


canalsonora às 11:46

Sábado, 27 de Dezembro de 2008

 

 

 

 pedro jubilot

 

' E mesmo assim o natal voltou a acontecer '

 in 'Contos de Natal' :)canalsonora(: . 2008

 

 

 

          Terminados os dias de maior calor do ano, aqueles em que é recolhida à superfície da salina uma finíssima película de cristais de sal, chega o sempre difícil mês de Setembro. Os dias começam a ficar mais pequenos, as noites mais frescas e temos de nos acostumar de novo a ficar em casa, porque já se regressou ao trabalho e há que refazer horários de sono. É preciso preparar o regresso das crianças à vida escolar.

Todos os anos esta mudança causava a Álvaro uma pequena ansiedade, que este ano se agravara devido aos problemas surgidos no trabalho e porque o seu filho mais velho, com apenas seis anos, andava nervoso com a mudança de professor. Como lhe explicara a sua irmã, professora de Matemática, o João seria mais uma vítima do injusto e perverso novo estatuto da carreira docente e consequente burocrático e inaplicável modelo de avaliação imposto às escolas pelo ministério de educação. Tinha horário a tempo inteiro, refeições, actividades extracurriculares, um computador, mas perderia a sua professora do primeiro ano.         

E mesmo assim sem a professora do ano anterior, o ano lectivo voltou a acontecer mais uma vez.

No caminho de regresso a casa, como fazia todos os dias, conduziu vagarosamente o seu antigo carro de estimação pela estrada cujas bermas se abrem de ambos os lados para as salinas que dão a flor mais branca, húmida e cristalina do país e quem sabe, como alguns dizem, de todo o mundo. Chegado ao fim da estrada, estacionou perto do cais, saiu para contemplar a paisagem, sentir o vento, e observar o curso das quatro correntes que ali naquele lugar se encontram. Respirava o ar puro tão profundamente como outrora o fazia quando inspirava o fumo do cigarro. Costumava sentir os pulmões frescos e o cérebro a oxigenar. Porém nesse momento como que lhe custava a fazer esse normal exercício. Os pulmões retraíam-se e dentro da cabeça sentia um vazio, mas que asfixiava.

 As águas que ali fluem e confluem e que eram para si como que a imagem da sua própria vida, estavam hoje paradas no seu olhar, como se de uma lagoa estagnada se tratasse. Um amigo dos tempos de juventude que ali passava de barco, cumprimentou-o: ‘Eh! Alvinhas, queres ir à pesca?’. Apenas lhe acenou quase sem perceber quem era, mas só assim realizou, que tinha que sair dali e daqueles sórdidos pensamentos para onde a sua mente o estava a levar, pois esperavam-no os outros três afluentes da sua vida.  

Abriu a porta de casa mas sentou-se logo no cadeirão da sala mesmo sem despir o casaco. Tinha frio, estava exausto, arrasado, estoirado. Ele nunca tinha pensado que a crise global que todos os dias é anunciada pelos telejornais pudesse saltar do pequeno ecrã para a sua casa, para o seu sofá, para si. Mas chegara hoje esse dia, em que a sua empresa, uma p.m.e. como lhes chamam na imprensa, não resistiu…

Assim, o sr. Caetano, 43 anos, recentemente apanhado na teia do desemprego, começou a ficar cada vez mais tenso à medida que o Natal se fazia anunciar por todo o lado - na tv, nas luzes da sua própria rua, e mesmo nas crianças lá de casa que começavam já a esboçar cartas de pedidos ao Pai Natal.

Como extremoso pai, da sua família, ocupava todo o tempo que agora já tinha, a magicar um modo de poder presentear os seus pequenos filhos, na próxima quadra natalícia. Os biscates que ia arranjando mal davam para a comida diária, mas o empreendedor Álvaro lembrou-se de algo que lhe podia ainda vir ajudar a salvar o Natal.

Começou por contactar alguns amigos e conhecidos no sentido de averiguar do seu interesse nos mágicos serviços que estaria disposto a prestar-lhes, ou caso não precisassem, que transmitissem a sua santa ideia a conhecidos seus. Passada uma semana, apesar da sua actual baixa auto-estima, tinha como réstia de esperança qualquer coisa que se arranjaria. Mas não podia prever que a sua tarefa seria tão bem recebida quanto requisitada. 

Era 24 de Dezembro à noite, mas este ano tinham decidido só se encontrar com a família no dia 25, até porque a irmã de Álvaro que vivia em Coimbra, só chegaria nessa noite, já tarde.

Com a ajuda da mulher Isabel tentava por tudo despachar João e Filipe para a cama, com promessas de surpresas que surgiriam de caixas coloridas e enlaçadas, que de manhã cedo seriam depositadas junto à lareira entre o pequeno presépio e a grande árvore de natal. Assim que a sempre difícil missão foi conseguida, Álvaro começou a vestir o fato de Pai Natal com que se dirigiria às casas dos seus efémeros clientes para distribuir as aguardadas prendas da praxe, misturadas com as gargalhadas que a surpresa suscitaria nalguns, e mesmo por vezes pequenos choros nos mais pequenotes. A seguir a esses quinze minutos de magia e muitos flashes, partiria com mais trinta euros no bolso, para a morada seguinte onde repetiria o acto até às primeiras horas do dia. Era mesmo bom para o negócio ter conseguido conciliar os diferentes horários a que as pessoas faziam a consoada e a que gostavam de receber os presentes, ou com a hora a que regressavam da missa do galo. Há muito tempo que não se sentia assim tão activo e prestável…. via-se que não tinha perdido o jeito. Deste modo conseguiria dinheiro para subsistir durante alguns dias e pagar algumas das prendas para os miúdos e para os familiares.

Quando voltou a casa ainda Isabel o esperava acordada para saber como tinha corrido a operação ‘barbas brancas’ e colocarem os presentes para os filhos junto à lareira, como prometido. Aí pela primeira vez se sentiu um verdadeiro Pai Natal. Apesar do mau jeito que a vestimenta dava, mesmo assim vestido foi descansar um pouco. E pouco pareceu porque daí a duas horas o despertador do telemóvel tocou para que se desse inicio à segunda ronda do seu percurso. Agora, para aqueles que gostavam de ser acordados pelo São Nicolau, a desejar-lhes um ‘Feliz e Santo Natal’, anunciando que os seus ajudantes duendes, já teriam ali deixado as prendas há poucos segundos atrás, e que os meninos e meninas já podiam ir a correr desembrulhar tudo.

Já o dia havia rompido quando regressava, mas o seu velho carro decidiu parar. Azar? Não! Sorte. A casa deste Pai Natal ficava mesmo ali no quarteirão seguinte. Ao sair do carro, arrancou a barba postiça que Isabel lhe havia colado à cara há já demasiadas horas quando reparou no homem dentro do jipe topo de gama estacionado a seu lado. Tinha uma garrafa de whisky quase vazia na mão e meteu-se com ele: ‘Oh, oh! Oh! Oh!,  ao que Álvaro retorquiu:

‘Bom dia amigo, se anda à procura dum Pai Natal, saiba que este já está a sair de turno.’

‘Eh! Alvinhas, és tu pá?! Ganda farra amigo, já despachaste as renas…E eu que pensava que era o único pai perdido na noite de Natal.’

‘Não, não venho de nenhuma festa, fui fazer um pequeno favor ao meu cunhado, uma brincadeira para os miúdos.’

‘Nã me venhas com tretas pá, tu tens lá algum cunhado. Conta lá onde é largaste as …renas…’

‘Bom, tenho que me ir embora.’

‘Ena pá, não digas mais nada, já percebi, vens do trabalho, não me digas que és tu o Pai Natal que o Casimiro e o Tó Vieira contrataram… ainda estás sem nada?, eles disseram-me que tinhas ido ao fundo… porque é que não falaste comigo, arranjava-se qualquer coisa, lá no sal, e tu que gostas tanto daquilo pá…’

‘Está bem, depois falo contigo. É muito fixe o teu novo jipão. Gostei de te ver! Feliz Natal!’

‘Feliz Natal o caraças! Porque é que achas que estou para aqui na rua a esta hora. É o meu primeiro Natal sem os putos. Foram passar as festas a Lisboa com a mãe. Ela agora vive lá. Estou sozinho. A minha mãe está lá, para onde quer que Deus a tenha levado. O meu pai lá no lar mal me conhece. O meu irmão continua em França, não quer saber desta terra para nada…e eu estou para aqui, com a bomba de 75.000 euros….como é que o Natal pode ser feliz…’

De repente, Álvaro olhou para o fundo da rua e pareceu-lhe ver alguém sentado à porta da escola. Era no mínimo estranho. Chamou a atenção do amigo, que prontamente reagiu:

‘Bora lá ver quem é. Algum desgraçado como nós, é o que é. Eu vou lá contigo. Até um Pai Natal como tu precisa de ajudante.’

Álvaro ficou tão surpreendido que nem foi capaz de se zangar:

‘Joãozinho…querido… o que fazes aqui? Onde está a mamã e o maninho?

‘Ainda estavam os dois a dormir, pai. Pai? Tu não és o Pai Natal, pois não?’

‘Não! Esta roupa… estava só a experimentá-la para ver se ainda estava boa… para emprestar aqui ao meu amigo Castro. Toma Castro! Agora é tua, pode ser que precises dela. Usa-a bem. Anda para casa João, vamos ver as prendas.’

‘Eu já vi pai, tive todos os brinquedos que eu queria, tudo o que eu queria, mas menos o meu desejo secreto.’

‘Há coisas que nem o Pai Natal consegue saber, que nem ele consegue. Mas o que era isso tão secreto que tu querias que nem escreveste na carta?’

‘Queria de volta a minha professora do ano passado, aquela que me ensinou a ler e a escrever. Eu já a vi lá na escola, mas não vai à nossa sala ensinar. Foi por isso que eu fui ter ali à escola, porque pensava que o Pai Natal poderia ter deixado lá, para todos…porque como eu não era só eu a querer isso, julgava que ele tinha trazido a professora para a escola.’

‘Pode ser que ela volte, talvez no próximo ano, João, nunca se sabe….’

Abriu a porta de casa, mesmo ao tempo que Isabel e Filipe saltavam da cama. Foram todos ver as prendas. Mas o que Álvaro precisava agora era de um duche quente, de uma chávena de chá, e de um pouco de descanso até à hora do almoço que juntaria toda a família.

Esse teria de ser um dia feliz, também porque teria pouco tempo para pensar na sua situação actual e futura. E à noite, cansado de tudo, dormiria melhor do que nos dias antecedentes, e também com toda a certeza sem dar tantas voltas na cama antes de adormecer, em busca de uma solução.

E mesmo assim sem a professora o Natal voltou a acontecer mais uma vez.

Com o novo ano e sem os miúdos que o entretinham, pois já haviam regressado à escola, tudo voltava ao normal nesta nova vida de Álvaro, que era sentir-se cada vez mais desanimado com a sua situação. Tivera uma ideia tão boa, mas tão sazonal que até se irritava de a ter tido. Afinal o Natal não depende da vontade do homem. Nada como ligar a televisão para repartir desgraças. Continuava a luta dos professores do ensino público e o seu braço de ferro com o ministério da educação. Depois da lição que aprendera com o seu pequeno filho naquela inesquecível manhã de Natal, ele não conseguia compreender como o governo podia continuar a teimar contra a vontade daqueles muitos milhares de pessoas. Apesar do tão propagandeado choque tecnológico, ainda era possível na era da técnica, uma criança como o João dar tanta importância à figura da sua professora. Essa era a sua verdade.

Nisto o telefone toca e ele atende.

‘Estou!?’

‘Eh! Alvinhas!? Atão pá, como é que vai isso ?

‘Tudo bem, quer dizer, tudo na mesma. E tu, já estás melhor?’

‘Nem imaginas o bem que me fizeste. Vesti o fato, fui para Lisboa, convenci os putos e também a Laura a irem comigo passar o ano a Paris, para conhecerem o meu irmão e os únicos primos que têm. Foi fantástico, pá. Estamos todos juntos outra vez, vou ficar cá em cima por uns tempos para ver se as coisas se recompõem entre nós, tás a ver. Obrigado, Alvinhas!......Tá, Alvinhas !? Ainda tás aí, pá?

‘Sim Castro, estou a ouvir.’

‘Ah! Já me esquecia, aparece amanhã lá no meu escritório. Estão à tua espera para me ires substituir. És o novo director da Sal.Sol.Sul, não te esqueças pá, há imenso trabalho. Depois falamos, tchau!  E desligou.

      Voltou então a percorrer o caminho que sempre fazia no final de cada dia de trabalho. Dum céu carregado de nuvens muito densas e escuras chovia com pouca intensidade, mas o vento soprava de tal modo forte de oeste que a água sobre as salinas se começava a ondular. Já era noite quando chegou junto ao cais de embarque. Os poucos clientes do pequeno bar de madeira, abrigavam-se junto ao balcão para uma última bebida. Olhando para o lado esquerdo, já se acendiam as luzes da  pequena torre da igreja da unidade hoteleira, mas que outrora servira de apoio aos pescadores da ‘almadrava’ do arraial ali instalado. As gaivotas voavam sobre a terra sinalizando o mau tempo no mar.

Mas mesmo assim Álvaro podia voltar a sorrir mais uma vez.

 

 

canalsonora às 11:01

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

 

 

 

pedro jubilot

 

'a visita'




 

 

 

  

             Vamos visitar os pais como fazemos juntos muitas vezes. Cada um de nós também costuma ir sozinho, se lhe apetece. Deixamos os carros estacionados no centro, junto à rua das lojas agora iluminadas e enfeitadas. É perto e gostamos de caminhar assim um ao lado do outro conversando como quando éramos miúdos e tínhamos todo o vagar da vida. Amanhã é 25 – feriado, mas esta tarde já não trabalhamos. Falamos do fim-de-semana, pergunta-me se preciso de algum dinheiro, se estou aborrecido com algo – mas não, só sonolento, saí ontem e depois fiquei ainda a ler um bocado. Poucos metros antes do portão, interroga-me se devemos levar flores. Digo-lhe que dê o dinheiro a um homem que ali está pedindo, e aponto-o com um leve gesto de cabeça. Entramos e quando chegamos, sentamo-nos numa pedra e deixamo-nos ficar ali um bocado em silêncio. Às vezes também falamos alto, mas hoje há muita gente em volta. Apenas nos despedimos com um: adeus mãe, adeus pai, até depois. No trajecto da campa até à saída confessa-me que esta semana teve muitas saudades deles, mais do que nunca. Lá fora quer saber se ainda ando com aquela rapariga do outro dia, e se aceito o convite para jantar hoje lá em casa, mas já combinei com dois amigos. Apareço lá amanhã. Ele entra no carro, baixa o vidro e dá-me um cd, que agradeço enquanto liga o motor. Depois diz: Ah! É verdade... a Carla foi hoje ao médico, vou agora buscá-la... acha que está grávida.

     Não temos primos, tios ou avós. Isso acontece. O meu irmão tem a mulher com quem vive, eu tenho-o a ele. Mesmo só duas pessoas podem ser uma família.  

 

 

canalsonora às 21:06

Segunda-feira, 04 de Agosto de 2008

 

 

pedro jubilot  

 

 ‘atira-te ao mar...’

 

                                                  

 

 

-Marque! Ó Marque! Alevanta-te! -gritava o avô à porta da salinha dirigindo-se para a cozinha de chávena de tófina na mão.

 -Conte na valia aquele cafézinhe chê de borras que tu me fazias-me com sopas conde ê cá endava da secada, desabafa António José.  

Ao que obtém a resposta da mulher:

-Pô era...e sejava cafeteras, fegão...e o moçe cada vez tá pior. Côme chega cêde ainda se põe a ver vides da telervisão até de manhazinha.

Mestre Toino foi de novo à porta da sala um pouco mais chateado e gritou :

 -Marque Entoine! Alevanta-te já desgraçade! Daqui a pouque tenhe o barque em seque.

 Pegando no boné saiu falando entre dentes:

  -O tê pai e a tu mãe é que tom bem lá da alemonha e ê que me charingue páqui  contigue. Vô ma é endande pá do 7 estrelas. Se na apareces lá daqui a dé menutes bem podes ir trabalhar pá zobras que cá nan te dô ma denhere denhum pó reste das féras.

 A avó liga a radio atlântico(ela gostava mais da antiga radio restauração do sr. Julinho, ali ao pé da rua de faro mas agora mudaram aquilo e só tocam músicas estrangeiras e estão sempre a falar das bichas de carros em lisboa) e locutor fala pelos cotovelos:

  -São 8 e 49 estão já 22 graus e agora o novo êxito dos Iris da Fuzeta para este verão: “Atira-te ao mar”. A avó aproveita a embalagem: -Marquinhe, vai já ter com o tê avô ca maré hoje é boa pa ganhares uma nota.

Por fim o rapaz levantou-se, meteu um ice-tea no bolso e foi comendo uma sandes de queijo preparada pela avó. Levava também, mas metida na cabeça a música com que acordara, e já se sabe o que acontece nestes casos -ela não nos larga para o dia.

Apanhou o avó à porta da taberna: - Tá no ir ó não.

Mestre Toino que já tomara 2 de 5 resmungou:

-Vê lá se te alevantas má cêde quê já tô velhe pa trabalhar pa ti… ainda ê usava fraldas e já ia ó mar.

Ao que o Marco comentou trocista:-devia ser même bué da fixe o avó de dodotes assentade a borde do savêre. E o velho deu-lhe uma carolada na orelha enquanto retorquia: 

-Se calhar pensas que do mê tempe avia cá essas mariquices.

 Lá empurraram o barco para a água e fizeram-se à Ria Formosa, que já era tarde e o calor apertava. Daí a pouco começaram a labuta.

Mas a teimosa melodia lá vinha à boca do neto:

Mó, o qué que fazes aqui».                                                                                         

O avó esclareceu-o: -Pouque barulhe qu’zolhes das amenjoas se fechem.

Mas mesmo com tanto suor entre as cavadelas fundas feitas na areia Marco não conseguia deixar de pensar na música:

Má per qué que me dexaste da mão».

Passadas umas boas 3 horas de trabalho à torreira do sol o avô decidiu dar por terminada a tarefa e de regresso ao barco continuava a canção do momento :

Dá-me um bêje da boca e chama-me trazan».

O velho pescador já nada dizia, apenas abanava a cabeça, pensando com os seus botões, enquanto se dirigiam para o bote. Quando foi ver o resultado da apanha pelo neto não se conteve em puni-lo:

-Même assim ainda apanhástes muntas amenjoas...com um côrpe desses. Tem ma é vergonha, tem.

E como se fosse uma desgarrada, agora o moço:

Tá o mar fête dum cão, nan à choque nem brebegão».

Resposta pronta de Mestre Toino:

-Já me tás a enretar com essa merda de múseca. Ainda levas ma é uma cheparlada do mê da cara.

Para piorar a situação o motor do barco não parecia responder ao apelo manual de iniciar marcha, pelo que Marco se tornou voluntário à força:

-Agarra ma é dos rémes. Do mê tempe e até do tempe do tê pai conde era môçe remávamos o dia tôde. Estes moçes dagóra parecem fêtes de caca.

Ao ver-se ofendido o rapaz usou de novo a canção:

Tens cá uma mania que até dá dó».

Mestre Toino percebera a indirecta e quando o jovem se levantou para pegar os remos, ele desviou-se  bruscamente para o mesmo lado do barco em que Marco se encontrava, e então -homem ao mar!.. ou melhor, moço ao mar.

Marco esbracejava estragado da vida enquanto na sua cabeça estalava novamente o refrão, desta vez entoado pelo avô:

Atira-te ó mar e diz que te empurrarem».

Mas dá a sensação que o Sr. António já tinha aquela fisgada, pois o motor do barco, que se afastava com a corrente, pegou logo a seguir. Marco, esse teve de nadar até à doca, que apesar de tudo não era muito longe.

À noite, depois do jantar, Mestre Toino e a mulher sentaram-se como de costume à porta de casa a falar com os vizinhos, comentado a quantidade de água gasta pelo neto, que finalmente vinha a sair, e ainda magoado com a partida do avô apenas dirigiu um:

-Boa noite avó, até amanhã!

Ela chamou-o: - Olha Marquinhe, espera aí que o tê avô tem uma coisa pa te dar.

Cinco contos para gastar no Festival do Marisco dessa noite. Marco agarrou na nota, que afinal era a paga do seu trabalho, e foi orgulhosamente rua abaixo sem agradecer ao avô.

Mestre Toino não resistiu e comentou:

-Fó mó, o chêre a prefume é má que munte. Tu é que tens uma mania que até dá dó. 

           

  

canalsonora às 23:39