lat. 37º07'N - long. 7º39'W

Bóias do Canal

Quinta-feira, 09 de Fevereiro de 2012

Quotidianos poéticos

Pedro Jubilot

 

Algures num espaço e tempo do Algarve,

a vida e a viagens intrometeram-se na escrita de Raul Brandão

  

 

 

Entre 1919 e 1923, Raul Brandão reuniu vários textos para um  livro de crónicas (mas que se poderá colocar na secção da literatura de viagens) sobre alguns dos locais portugueses com  portos de pesca ou simplesmente das  vilas piscatórias mais características de Portugal, descrevendo  a vida suas gentes. Desde a Foz do Douro onde nasceu a 1867, percorreu toda a costa atlântica até ao Algarve. Dedicou-o à memória do seu avó morto no mar.

«Tomo então apontamentos rápidos seis linhas um tipo uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadrinhos do ar livre, são melhores quando ficam por acabar. »

Quando alguém nascido e criado numa cidade costeira do litoral algarvio, nomeadamente em Olhão ou Tavira, abre e lê pela primeira vez  ‘Os Pescadores’ de Raul Brandão (publicado em 1923 )- essa obra singular na história da literatura portuguesa, nunca mais a abandonará cioso que a levem da sua biblioteca. Porque mais do que dar a conhecer os hábitos e costumes do povo e as suas práticas de pesca, é a descrição da atmosfera, da paisagem, da luz, dos sentidos despertos, do olfacto… que mais surpreende pela sua aproximação à realidade, mesmo passados tantos anos.

«Pela portinhola do comboio vou seguindo a paisagem à passagem pela deslumbrante Fuzeta (…) a nora de alcatruzes e um burrinho a movê-la entre as leves amendoeiras em fila, as oliveiras dum verde mais escuro e a alfarrobeira carregadade vagens negras pendentes. Ao longe, e sempre, acompanha-me o mar, que mistura o seu hálito a esta luz vivíssima(…)»

Mas é a Olhão que pertence o capítulo do livro a que dedica mais páginas. Descreve demoradamente, algo único no país, a arquitectura cubista da vila da restauração:

«Cubos, linhas geométricas (…)A habitação primitiva é um cubo com uma porta e uma janela. (…)Subo à soteia – a melhor parte da casa. O homem de Olhão tem por ela uma paixão entranhada(…) sítio esplêndido para respirar, eira para a alfarroba e o figo, (…)e quarto para dormir no Verão sob um pedaço de vela.»

O conhecimento adquirido por experiência própria (familiar), permite a Raul Brandão chegar mais perto das comunidades piscatórias, até porque é conhecedor das artes e engenhos da labuta. Mas esse passado leva-o mais longe, a compreender, os rituais, as manias e feitios destes pescadores. E ainda assim mesmo depois de tudo o que viu, tece aos olhanense um elogio:

« (…) este homem é um homem à parte no Algarve. Se veio de Ílhavo, como dizem, não sei, mas é o único homem arrojado desta costa.»

Também em  Tavira descreve as ruas e a sua arquitectura , tão parecidas ainda ao presente, que se vê bem da fidelidade dos pormenores evidenciados numa escrita baseada na observação e vivência de um viajante que sente:

«Muros muito brancos, de porta e janela, alguns com gelosias, que é a velha e a melhor maneira de manter as casas sempre frescas. A rexa deixa passar o ar e conserva a meia luz: dá intimidade aos interiores. Nas ruas não passa ninguém. Casas apalaçadas,tumulares. Telhados mouriscos, pontiagudos, de quatro águas, muito caiados, e as chaminés do sul(…)»

A parte em que descreve a pesca do atum, essa faz já parte dum mundo de contar a história:

«Nos areais, pela costa fora, há várias armações de atum – Medo das Cascas,Abóbora, Barril, Livramento(…)A armação, engenho muito antigo, cujo nome, almadrava, cheira a árabe, é constituída pelo corpo – dividido em três compartimentos, câmara, bucho e copo – pela rabeira, que se estende até a terra(…)»

O escritor chegou ao Algarve  no esplendor do mês de Agosto em 1922, e parece ter ficado tão enfeitiçado pelo estio destas terras levantinas, que chega mesmo a dizer, quase a segredar que: «...Teria aqui uma casa numa das vielas(…).Aberta a porta, seria um deslumbramento: no pátio caiado,(…) Era viver num meio adormecimento, seduzido pela luz, fora de todos os interesses e realidades, em Portugal e no Sonho...» E quando parte é: «Tarde. Olho pela última vez a brancura imaculada dos terraços com o céu todo de oiro em cima e deixo com saudade esta luz e esta terra embruxada.»

Raul Germano Brandão, que nasceu junto ao mar, sendo filho e neto de homens do mar, e em que o oceano e os pescadores foram um tema recorrente da sua obra, sai do Algarve deslumbradoQuando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa.(…)»

E depois escreve porque:

«Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de Inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado... (…)»

Raul Brandão  faleceu em Lisboa  em 1930 deixando cerca de duas centenas de obras publicadas, mas é através de ‘Os Pescadores’ que nunca esqueceremos a voz do mar.

 

A obra pode ser lida em-

http://docs.paginas.sapo.pt/raulbrandao/Os_Pescadores.pdf

 

canalsonora às 23:21