Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

ESTANTES 2013-2015

CONSULTA ~ LEITURA ~ DIVULGAÇÃO

ESTANTES 2013-2015

CONSULTA ~ LEITURA ~ DIVULGAÇÃO

cs12|jul15| Ça C'est Ma Riviére ~ FERNANDO CABRITA

18172503_7CtDG.jpeg

 (...)

Desconheço se foi por infortúnio, se infortúnio há,

ou se por acaso dos seus passos, Madame,

ou se apenas estamos na borda de um rio onde

 a chuva cai quando chove. Mas não é um qualquer rio, Madame. É o meu rio.

 Ma rive. Quero dizer, ma riviére. E eu quero estar sozinho. Preciso

estar sozinho.

Tenho o direito de estar sozinho. O direito de fruir, como eu entender,

a minha propriedade.

Não sei quem criou o conceito, esta ideia, esta coisa que chamamos

propriedade, o direito de propriedade,

a defesa da propriedade,

o exercício da propriedade, 

direito universal, planetário, galáctico, direito gótico, pletórico, barroco,

marítimo e terrestre, não sei, mas esta porção de terra e

este rio tenho-os para mim como meus. Excusez-moi, madame,

ça c’est ma rive, pas votre. Pardon,

ma riviére. Pardon, je parle pas trés bien,

pardon, …

Queira fazer o favor – depois haverá                                                                                               

quem traduza para que vossa excelência perceba – queira fazer o favor de                  

atravessar para a outra margem,

lá haverá decerto outros rios, ribeiros,

arroios,  riachos, coisas líquidas, fraternas como lágrimas de Deus,

ou um poço, uma pilheta de dessangradas águas,

botelhas antigas de vinho doce que os anos ainda mais dulcificaram,

piscinas que os turistas trouxeram nas suas largas embarcações de ferro,  

levadas e noras, passadiços de águas brancas a refulgir de sol.

Pois, Madame, além tudo haverá. Por isso não demore. Atravesse

para o lado de lá, se faz favor. S’il vous plait. Sim, sim, oui, alguém

lhe explicará mais tarde. Sim, claro, na sua própria língua.

Vai ver que entende muito bem. Isto aqui é meu. Meu. Não sei porquê nem

de quando,  mas meu.

(...)