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06 | Fernando Pessanha ~ Ao Filho Que Nunca Tive

25.04.20

06 - Fernando Pessanha.jpg

 

 

Se lês estas palavras é porque as encontraste atiradas para esta folha de papel amarrotado, perdida na casa onde cresci e que haverias de herdar de mim. Encontro-me num espaço constantemente presente, onde já não cabem murmúrios, gemidos ou lamentações. À minha volta gravitam espectros de figuras lívidas, ligadas a tubos por onde é administrada infundada esperança. Quase todas têm o dobro da minha idade e se encontram acorrentadas a máquinas de oxigénio e suportes de soro. Outras, como eu, suportam a dor e contêm o choro com cocktails: doxorrubicina, dacarbazina e outros cujos nomes metem medo. E foi assim que me lembrei de ti. Procurei escrever-te, já que provavelmente, nunca nos encontraremos. Talvez seja esse o maior motivo de dor. O amor que não te poderei dar. Confesso que sonhei contigo, que te amei ainda antes da tua existência enquanto ideia. Fantasiei ter-te nos meus braços, fazer de ti um ser bom e justo, ou tudo o que eu não fui. Fantasiei as melodias das tuas primeiras palavras, o momento de sentar-te no colo e ensinar-te a premir as teclas do piano. Agora, que sinto a impossibilidade fluir no veneno que me corrompe as veias, nada me causa mais temor, mais dano. E não vale a pena pensar em dar tempo ao tempo, porque tempo é coisa que não tenho. Assisto, impotente, à rapidez atroz com que se me escapa, como grãos de areia que se me escapam por entre os dedos. Cerro os punhos antes que se evadam por completo e sinto que algo ficou. Serás tu?  …

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